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Como ficou a Igreja católica após o 25 de Abril

A Igreja, perante o novo ambiente social e político posterior ao 25 de Abril [revolução ocorrida em 1974], procurou acima de tudo a unidade dos crentes e seguiu uma estratégia defensiva e prudente. Conservou sempre a sua capacidade de enquadramento, adaptando-se com agilidade ao novo ambiente social. Com esta base, enfrentou um novo Estado, potencialmente hostil.

Face à contestação interna, não a combateu frontalmente e cedeu o bastante para isolar os seus autores da maioria dos católicos. Ultrapassado o estigma da culpa na manutenção da ditadura do Estado Novo, a Igreja reforçou as suas estruturas de participação interna. Nos momentos de crise, atenuou o seu perfil nacional em benefício do diocesano, mais flexível. O Santuário de Fátima continuou a ser um polo de irradiação espiritual, tocando pessoalmente milhões de portugueses.

Surgiram em diversos momentos divergências táticas no interior da Igreja institucional. Uns favoreciam o partido e o sindicato católico; outros opunham-se-lhe e vieram a vencer. Alguns queriam um nítido pedido de perdão pelos pecados da Igreja; outros recusavam-no; veio a ser adotada uma solução intermédia. Alguns fizeram as manifestações de rua de apoio ao episcopado no caso da Rádio Renascença; outros opuseram-se-lhe, sem questionarem a sua legitimidade. Estas divergências, porém, nunca impediram que fosse mantida a unidade de ação - interna à Igreja tanto como nas relações com a política.

Face à contestação externa, consubstanciada numa vaga anticatólica de crescente veemência - e por vezes violência -, conservou a serenidade.



O carácter difuso do anticatolicismo e a ausência de alianças anti-religiosas entre o movimento, o novo Estado e as Forças Armadas explicam que a questão religiosa não tenha sido reaberta



O anticatolicismo emanava essencialmente do movimento [popular, conjunto de organizações saídas das lutas que se travavam após o 25 de Abril]. Nenhum dos partidos políticos do regime - o CDS, o PSD, o PS e o PCP - atacava diretamente a Igreja. Mesmo o PCP jogava em dois tabuleiros: deixava desenvolver-se o ataque na base à Igreja para tentar controlá-lo e controlá-la no terreno estatal. Os partidos «democráticos», em grau crescente do CDS ao PS, eram mais favoráveis ao laicismo estatal do que a Igreja. Nenhum, porém, queria hostilizá-la. Todos tinham presente a política jacobina da I República e não queriam abrir a «questão religiosa». Alguns não podiam dispensar-se de abrir conflitos de fronteira no ensino, na comunicação social, na solidariedade social, mas pretendiam afirmar, e afirmaram, o princípio da colaboração.

Os militares agiam do mesmo modo e, embora abrissem conflitos de fronteiras com a Igreja, respeitavam-na como instituição.

Daqui resultava que as iniciativas anticatólicas do movimento não beneficiaram do apoio de nenhuma instituição. O Estado só se aliou com o movimento contra a Igreja no caso da introdução do divórcio para os casamentos católicos. Era um caso singular que não interessava especificamente os comunistas.

O MFA também não se aliou duradouramente ao movimento contra a Igreja. É certo que, no caso da Rádio Renascença, tolerou atitudes anticlericais por longo tempo. Mas ele próprio se dividiu a esse respeito.

Acrescia não haver um movimento social especificamente dirigido contra a Igreja. O anticatolicismo era uma consequência do anticapitalis­mo. Por isso se esvaía rapidamente.



«Das mutações de regime ocorridas desde o liberalismo, a de 25 de Abril de 1974 foi a única que se não traduziu nem em choque entre a Igreja e o Estado nem em perseguição religiosa»



O carácter difuso do anticatolicismo e a ausência de alianças anti-religiosas entre o movimento, o novo Estado e as Forças Armadas explicam que a questão religiosa não tenha sido reaberta.

O cardeal D. António Ribeiro colocou a linha de partilha de águas dos direitos da Igreja na Rádio Renascença. A emissora católica fazia a fronteira contra o laicismo e, do mesmo passo, separava a Igreja da defesa dos interesses da direita. Era a primeira vez que isso sucedia na história portuguesa. Antes, com a breve e contestada exceção do Centro Católico, a Igreja apoiara partidos conservadores, que eram supostos defenderem os seus direitos. Agora, reclamava que todos os partidos os reconhecessem, numa atividade que extravasava o culto nos templos.

A Igreja exerceu uma influência difusa, mas firme e duradoura, no sentido de uma solução rápida da questão colonial.

Foi a primeira vez na história portuguesa que a Igreja apoiou a instauração da democracia: «Das mutações de regime ocorridas desde o libe­alismo, a de 25 de Abril de 1974 foi a única que se não traduziu nem em choque entre a Igreja e o Estado nem em perseguição religiosa»; houve «desajustamentos», sobretudo antes do 25 de Novembro, mas «a maior parte dos responsáveis políticos» disse sempre que «não existia uma questão religiosa» e «da parte da Igreja - hierarquia e leigos - se procurou doutrinar a democracia» (Sousa Franco).

A transformação do movimento militar num esboço de revolução comunista, que ocorre depois do golpe militar falhado de 11 de Março de 1974, facilitou a aliança entre a Igreja e os partidos políticos democráticos recém-criados. A ocupação da Rádio Renascença pelos respectivos trabalhadores lisboetas condensou esta aliança. A questão da Renascença separou o PS do PCP e da extrema-esquerda, o que teve consequências irreversíveis.


O estatuto económico e social da Igreja não piorou - e talvez tenha melhorado. A Concordata fora conservada. Após alguns maus momentos, a Igreja alcançara tudo o que pretendia



Foi também a primeira vez que a Igreja iniciava a mobilização das massas populares pela democracia. Fê-lo para defender a emissora católica. A «luta popular» contra a tentativa de estabelecer uma revolução totalitária «foi desencadeada pela Igreja». O «apoio» da Igreja foi «vital. Por si só, os socialistas jamais poderiam ter tido centenas de milhares de pes­soas mobilizadas nas ruas», afirmou mais tarde Mário Soares.

A Igreja, aliada às Forças Armadas em reformulação - dirigidas pelos oficiais do Grupo dos Nove - e à Administração Pública, foi um dos blocos instituintes do Estado democrático.

A ação da Igreja parece compreensível no esquema triunfalista pós-tridentino, bem sintetizado nas palavras de desafio do arcebispo de Braga, proferidas poucas semanas depois do 11 de Março: «São oito séculos de história lusa, durante os quais, muitas vezes humilhada, nunca a Igreja foi vencida». O retorno da Rádio Renascença podia simbolizar esta renovada invencibilidade. A Universidade Católica permaneceu intacta. O estatuto económico e social da Igreja não piorou - e talvez tenha melhorado. A Concordata fora conservada. Após alguns maus momentos, a Igreja alcançara tudo o que pretendia.

Um tal retrato, porém, seria distorcido. Tal como na formação do Estado Novo, a Igreja deu muito e recebeu pouco. Ficou a beneficiar de uma atitude de respeito e simpatia generalizados a todos os partidos políticos. Mas não constituiu uma força, pequena embora, que lhe permitisse concentrar energias para resolver favoravelmente problemas com o Estado - nos campos da comunicação social, da educação, da solidariedade social. Ora o Estado da Constituição de 1975 era estruturalmente laicista. Para ultrapassar uma qualquer dificuldade pontual no relacionamento com a política, a Igreja tinha de remar contra a corrente. Passava a ser obrigada a fazer um esforço considerável para obter um pequeno resultado.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.


 

Luís Salgado de Matos
In O país em revolução, J. M. Brandão de Brito (coord.), ed. Círculo de Leitores
Imagem: D.R.
Publicado em 25.04.2018

 

 
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