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D. Pedro Casaldáliga, o bispo-poeta fiel à Igreja dos pobres

A prelazia de S. Félix do Araguaia celebra a 16 de fevereiro os 90 anos de vida do seu bispo emérito, Pedro Casaldáliga, referente da Igreja dos pobres – no Brasil e para além das suas fronteiras –, comprometida na defesa dos direitos dos camponeses, dos indígenas e dos quilombolas [descendentes dos escravos africanos], com a participação ativa das comunidades eclesiais de base e, no seu interior, dos leigos como protagonistas principais.

«Para a realidade do Vale da Araguaia, que ele próprio chamou “vale dos esquecidos”, a presença de D. Pedro e do grupo da prelazia naquele momento foi fundamental para começar a estruturar socialmente o território», reconhece o atual bispo de S. Félix do Araguaia, Adriano Ciocca, sublinhando o importante papel de Casaldáliga na transformação da realidade daquela porção do Mato Grosso, abandonada pelo governo brasileiro e atingifa pela marginalização social, pela injustiça, pela violação dos direitos humanos e pelo analfabetismo da população, na sua maioria pobre e vítima dos interesses mesquinhos dos latifundiários.

«Prestar homenagem a Pedro pelos seus 90 anos é resgatar as grandes causas pelas quais viveu», afirma o sacerdote espanhol Paulo Gabriel López Blanco, vigário provincial dos Agostinianos no Brasil, recordando as palavras de Casaldáliga: «As minhas causas são mais importantes do que a minha vida».

Na sua memória, o religioso agostiniano guarda com nitidez a recordação do momento em que teve notícia, pela primeira vez, do missionário claretiano catalão, nascido em Balsareny (província de Barcelona e diocese de Solsona), que foi para o Brasil em 1968 para se fundir com as suas florestas e dar à Igreja um “rosto amazónico”, profético e poético ao mesmo tempo. «Foi em 1971, por ocasião da sua ordenação episcopal», recorda. «Nesse tempo vivia em Espanha e vi na revista “Vida Nueva” uma reportagem de Teófilo Cabestrero intitulada “Um bispo poeta”». E continua: «Tinha 20 anos, desejava ser missionário e vi naquela reportagem a Igreja que sonhava, comprometida com os pobres, na luta pela justiça, um bispo diferente, despojado de todo a pompa e poder».



Como todo o profeta, o sinal da cruz esteve presente em todas as batalhas que empreendeu por amor ao seu povo, até às consequências extremas



A reportagem, com efeito, corresponde ao número 797 do semanário, com data de 11 de setembro de 1971. Casaldáliga, que tinha então 42 anos e 19 de sacerdócio, após um ano como administrador apostólico da sede vacante de S. Félix do Araguaia, foi nomeado por Paulo VI primeiro bispo da prelatura.

Nos 20 anos em que López Blanco viveu sob o mesmo teto, no seu grupo pastoral, pôde constatar que «Pedro é um homem radical no seguimento de Jesus, radical na pobreza, na fé, na esperança, com coerência absoluta entre o que diz e o que faz. E isto dá-lhe uma autoridade moral extraordinária». O sacerdote agostiniano está totalmente convencido de que Casaldáliga é «o último bispo vivo dos pais da Igreja latino-americana» da mesma estatura profética de pastores como o brasileiro Helder Câmara, o chileno Manuel Larraín e o beato salvadorenho Oscar Romero, cujo martírio inspirou o seu famoso poema-homenagem “S. Romero da América”.

A sua mística poética e a sua imutável profecia continuam a inspirar insignes obras pastorais, como o Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra, que ele próprio contribuiu para criar no seio da Igreja no Brasil. Com a sua vida ratificou o seu compromisso com o s deserdados, expresso na “Missa da Terra Sem Males” e na “Missa dos Quilombos”, ambas obras suas.



A 11 de outubro de 1976, na época da ditadura, foi levado para o cárcere de Ribeirão Bonito, depois de, acompanhado pelo jesuíta João Bosco Burnier, ter socorrido duas mulheres que alguns militares estavam a espancar e maltratar



Estas e muitas outras expressões de fidelidade à Igreja dos pobres, traduzidas na sua poesia, na sua liturgia, na sua sinodalidade, na sua audácia pastoral e nas suas corajosas denúncias – sempre suportadas pelo seu testemunho pessoal –, deram ensejo àquela corajosa carta pastoral com que clarificou o significado do seu episcopado: “Uma Igreja na Amazónia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” (1971).

Como todo o profeta, o sinal da cruz esteve presente em todas as batalhas que empreendeu por amor ao seu povo, até às consequências extremas. Como no dia 11 de outubro de 1976, na época da ditadura, quando foi levado para o cárcere de Ribeirão Bonito, depois de, acompanhado pelo jesuíta João Bosco Burnier, ter socorrido duas mulheres que alguns militares estavam a espancar e maltratar. O P. Burnier foi atingido mortalmente na cabeça por um tiro que poderia muito bem ter sido dirigido contra o bispo. Desde então a romaria aos “Mártires da Caminhada”, que decorre anualmente, em julho, tornou-se uma referência nacional de memória e libertação.

«Pedro disse sempre que a maior graça que Deus pode conceder a quem segue os passos de Jesus é o martírio», observa o provincial dos agostinianos. Ainda que as ameaças contra a sua vida nunca se concretizaram, o “irmão Parkinson” tem-no acompanhado na última parte da sua existência. «Forçado a uma cadeira de rodas, dependente em tudo dos outros, se queria ser mártir, Deus escutou-o», conclui o religioso.








 

Óscar Elizalde Prada
In L'Osservatore Romano
Trad: SNPC
Imagem: D. Pedro Casaldáliga | D.R.
Publicado em 16.02.2018

 

 
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