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Das virtudes

Surge como estranha a noção segundo a qual a «humanidade está em crise». Ora, a humanidade sempre esteve em crise. Desde o seu momento auroral, que para sempre escapará enquanto ato histórico, melhor, enquanto ato fundador da história, pois dele não há qualquer testemunho e não há qualquer monumento; não há não porque ainda não tenha sido encontrado, mas porque, em absoluto, tenha sido o que tenha sido, de ele nada resta: memória ou monumento algum.

Não colhe também dizer que não se tratou de um único ato, mas de um conjunto, quiçá, uma multidão de atos, pois, um conjunto é o que é a reunião dos elementos singulares que o constituem e cada um deles é, precisamente, um elemento, isto é, no caso vertente, um ato: se não se pode identificar esse que é o primeiro, como o incluir no conjunto dos que houve?; se tal não é possível, como se pode, sequer, constituir tal conjunto relativamente ao qual não sabemos qual é o primeiro elemento. Note-se que não estamos a falar de um conjunto infinito, mas, exatamente, de um conjunto finito; ora, estes têm de ter todos os seus elementos individualmente identificados ou, pelo menos, identificáveis de algum modo.

Com esta reflexão inicial acerca do estatuto quer ontológico quer epistemológico dos atos históricos mais remotos da humanidade entendemos significar que o que conta não é a historicidade pura dos atos, mas a sua atualidade como sentido de e para quem os pratica. Este sentido, se bem que haurido historicamente, é da ordem do trans-histórico, do teórico puro, que não se encontra no âmbito do físico, logo, trata-se de algo de metafísico.

Ora, a humanidade em ato tem consistido numa sucessão de atos com os quais essa mesma humanidade se constrói de forma tanto mais humana quanto mais crítica: é neste sentido que a humanidade tem sido sempre um ato crítico, tem sido sempre algo «em crise».

Crítico como?

Não há ato propriamente humano, quer dizer, não há movimento próprio de um ser humano e discernível de um ato bestial ou meramente mecânico se tal ato não for intrinsecamente crítico. Os cães da famosa experiência de Pavlov são bestas, em sentido técnico, evidentemente, porque se movimentam sem crítica; porque apenas reagem de uma forma que raia a pura mecanicidade. Tristemente, este ensaio comportamental – prático-comportamental, se aplicado a seres humanos – se obtiver resultados semelhantes, imediatamente reduz os seres humanos assim provados a entidades infra-humanas. Este é sempre o processo de tomada e manutenção do poder por parte das tiranias.

Regressando ao início da nossa reflexão. Será que parte da chamada crise hodierna não passa exatamente por formas comportamentais humanas padronizáveis por aproximações bestiais tipificadas no modelo de movimento acrítico demonstrado por Pavlov com seus cães?

Pondo a questão de forma não diplomática: será que a crise humana, de agora e de sempre, não consiste na tendência bestial sempre demonstrada pela humanidade?

Pensamos que sim, por mais desagradável que tal possa parecer. Não é a agradabilidade do real que conta, mas a sua precisa «realidade»: que é isso em que consiste a ação humana, essa que nós classificamos como «em crise»? Trata-se de uma crise como forma de ponderação da ação possível? Certamente que não. Trata-se de uma crise de ausência de princípios? Não, porque os princípios que sustentam a possibilidade da ação humana são os mesmos desde sempre, quer se lhes preste atenção quer não se lhes preste atenção.

Será que é na falta de atenção a estes mesmos princípios que reside tal crise? Certamente que sim. Mas, em tal, não há qualquer novidade, pois sempre foi este o tipo de relação entre os seres humanos e os princípios que permitem a existência da humanidade. Por exemplo, sendo o princípio negativo fundamental a necessidade de não matar seres humanos, pois tal tornado regra, eliminaria a própria humanidade, tal princípio tem sido sistematicamente violado desde que foi descoberto. Como subexemplo deste exemplo, encontramos as guerras em todas as suas formas, impassíveis de existência se o princípio de não-morte de seres humanos por seres humanos fosse respeitado.

O que se disse para este princípio negativo pode ser dito, com as devidas adaptações, para o princípio positivo do bem comum, sem o respeito pelo qual a humanidade irá necessariamente auto-aniquilarse, pois, o seu não cumprimento imediatamente a instala no âmbito definido pelo princípio negativo de não matar.

Desde muito cedo, tanto quanto nos é dado perceber pelos testemunhos que nos foram chegando, a humanidade, através, primeiro, dos mitos, depois, da reflexão filosófica – e não se trata de uma «coisa ocidental» ou «oriental», pois lida com princípios, impassíveis de geografia, ao invés dos valores, que dependem variegadamente de arbítrios vários, tempos, modas, locais, etc. – que a humanidade procura pensar as condições teóricas da prática e da pragmática – da ação ética e da ação poiética – tendo como fim a criação de um modo comum de ação que permita, precisamente, que a humanidade seja no melhor de suas possibilidades.

Note-se que é a humanidade que está implicada e é abrangida, isto é, a humanidade como um todo, universalmente, não um qualquer seu sub-conjunto, seja este o conjunto singular do tirano, o conjunto menor dos oligarcas ou o conjunto maior dos que constituem a «maioria». Nenhum destes conjuntos é confundível com a humanidade. E, no entanto, a história da humanidade tem consistido em uma de estas três confusões, sempre indevidamente justificada e defendida pela violência.

O bem da humanidade, o bem comum – não há outro compossível com o bem da humanidade – obtém-se e obtém-se apenas através do exercício das possibilidades de ação próprias do ser humano; suas, inalienavelmente suas, e utilizáveis exatamente no sentido do bem de todos para todos.

A esta possibilidade simples e também em exercício chama-se virtude.

Em âmbito cristão, conhecemos sete virtudes: três chamadas teologais, quatro chamadas cardeais.

 Embora, de um ponto de vista metafísico, o que as virtudes fé, esperança e caridade implicam em termos éticos seja tudo menos irrelevante, do ponto de vista ético comum, são as virtudes temperança, coragem, prudência (sabedoria) e justiça que nos interessam.

A ordem por que foram enunciadas não é aleatória, pois as virtudes cardeais obedecem a um posicionamento ditado pela onto-antropologia, isto é, pelo modo como o ser humano é ontologicamente constituído.

Há uma dimensão puramente física no ser humano, quando o analisamos em busca do modo como é constituído como coisa mundana – em sentido não-depreciativo, como «parte do mundo, algo que é inegável – e que diz respeito a tudo o que o constitui, sabemos hoje, como complexo de elementos pertencentes à Tabela Periódica, o que nos situa ao mesmo nível – neste nosso preciso nível – de todos os outros seres mundanos (mesmo que haja seres compostos de antimatéria ou de outras formas de matéria, é o nível físico puro, básico, que aqui está em causa).

A este nível, não há de que haver virtude. Átomos, moléculas, células, tecidos, órgãos, sistemas de órgãos, mesmo o organismo humano biológico – e só – como um todo, nada disto é algo passível de exercício virtuoso: não há virtude possível em ato num ser humano biologicamente vivo, mas sem coisa alguma mais do que essa mesma vida biológica; não há virtude, em ato, num exemplo mais próximo da nossa comezinha realidade quotidiana, quando dormimos num sono sem qualquer forma de inteligência própria nossa – para nós próprios, é como se fossemos um cadáver (e, em termos noéticos, é mesmo que somos).

Mas quando tudo o que foi dito relativamente aos componentes básicos do ser humano, físicos, químicos e biológicos, ganha inteligência humana, que é esta que aqui exercemos, então, sim, já a virtude como possibilidade propriamente humana é possível.

No que diz respeito ao governo – pois é para o autogoverno do ser humano que a virtude serve – de tudo o que concerne ao nível propriamente biológico do ser humano, funções vitais voluntárias, reprodução, por exemplo, a capacidade de autogoverno é a virtude da «temperança»; o seu exercício corresponde à temperança como ato, como virtude em ato (não virtude «virtual», mas ato virtuoso, isto é, bom).

O ser humano que se autogoverna em todas as instâncias práticas e pragmáticas que dizem respeito à sua realidade físico-bio-fisiológica é temperante.

Repare-se que o que sucede quer ao indivíduo humano quer à humanidade que não é temperante corresponde sempre a um atentado contra o seu melhor bem possível, assim como a um atentado contra o bem-comum. De nada serve dizer que não é assim porque quem assim age pensa que o menos bom que realiza é para si o melhor «porque, precisamente, assim pensa», porque assim quer: imediatamente nos situamos no mesmo lugar lógico e ético-político em que Hitler – e todos os que representa em termos de tirania – se situou, quando, por exemplo, pensou que o melhor para si, para os seus e para o mundo era eliminar os Judeus e outros «indesejáveis».

No que diz respeito ao governo da nossa força interior que nos capacita para todo e qualquer movimento, que nos permite escolher em ato, que nos permite passar de uma pura inteligência em ato a um movimento ético ou poético, tal denomina-se «coragem». A coragem é a virtude que governa isso que é a capacidade de agir. A pessoa teórica mais inteligente do mundo, se nunca fosse capaz de ação, nunca seria capaz de, por exemplo, comer. Teria de ser alimentada por terceiros. Transformar-se-ia num escravo. Teria apenas existência como paixão política, isto é, como fruto da ação de terceiros.

Note-se que, precisamente, este é o caso analógico dos «cães de Pavlov». Mas encontramos este mesmo drama, por analogia, normalmente disfarçado politicamente, em todas as pessoas a quem foi retirada a capacidade de decisão, de movimento automotivado, de coragem. A cobardia é um dos mais perigosos estados antropológicos dos dias que correm. Para compensar tal cobardia, muitas pessoas arriscam a temeridade, o excesso ativo que tenta passar por coragem, mas que o não é.

A razão pela qual a temeridade não é coragem reside em que nenhuma virtude operativa – e são as duas primeiras já trabalhadas – funciona como virtude sem que seja acompanhada pelo que se denomina como a virtude da «sabedoria» ou também da «prudência». Trata-se da capacidade noética, de inteligência pura, que cada ser humano possui e que, quando aplicada à possibilidade da ação, permite que a vontade se movimente no sentido não de um fim qualquer, como se isso (esse quem) que decide fosse uma besta ou um escravo, mas no sentido do fim que consegue inteligir como o melhor possível.

Ora, nenhuma destas virtudes é verdadeiramente real: não há nos seres humanos, «coisas», ou «faculdades» que correspondam às virtudes: estas são o modo como as possibilidades de bem de todos os seres humanos passam de mera possibilidade a ato.

Ora, não há uma «coisa» chamada ser humano que «possua» virtudes como se possui, por exemplo, um automóvel (aliás, algo que não passa de uma ilusão ontológica, muito bem mascarada através de vários modos: psicologia, direito, economia, etc.).

O que há é pessoas que, cada vez que agem, realizam bens.

Sempre bens. Uns melhores do que outros, porque mais próximos do que pode ser o melhor bem possível universal para cada ato. É isso que é a virtude do ato, que, antes de ser «virtude do ato», no ato, é virtude da pessoa que cria tal ato.

Assim, quem age de forma temperante é virtuosamente temperante; quem age de forma corajosa é virtuosamente corajoso; quem age de forma prudente é virtuosamente prudente.

É a pessoa que é o que a virtude de cada seu ato é. É a virtude que é o que a pessoa que a pratica é. Ética e politicamente, não há distinção possível, para a pessoa em ato, entre o ato que cria e o ato que é; entre o ato praticado pela pessoa e a pessoa que pratica o ato. Lembramos que os cadáveres não praticam atos, limita-se a sofrer os atos de outras entidades.

Então, e como corolário, podemos dizer que a última virtude, a universal, existindo, é a «justiça», na forma da pessoa que é, em cada ato seu, em cada ato que é, temperante, corajosa, prudente. É isto a justiça. Não há outra forma de justiça. Por isso, ela é, na verdade, inexistente no mundo, enquanto não houver quem a seja.

O cristão tem a vantagem de saber que houve um homem justo: Jesus, o Cristo.

Então, o cristão não tem desculpa. Eu não tenho desculpa.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "As sete virtudes" (det.) | Anton Francesco dello Scheggia | 1465-70 | Museu Nacional d'Art de Catalunya, Barcelona, Espanha
Publicado em 06.10.2018

 

 
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