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Em memória de Júlio Pomar (10.1.1926 - 22.5.2018)

«O espanto ou a frustração que diante do quadro sente o contemplador não informado são, no fundo, muito compreensíveis: ele acha-se diante da última imagem de um filme de que ignora tudo o resto. E quando se tenta fazer passar esse filme para a palavra, quando se tenta uma apresentação ou uma decifração – mais ou menos antecipadamente votadas ao fracasso – recorre-se à palavra como o cego se socorre da bengala, isto é, à custa de um desvio fundamental.»

 «O que é próprio do pintor é ver.
Há duas famílias de fazedores de imagens: aqueles para quem ver é sobretudo ver alguma coisa — alguma coisa de atordoador, diria Dali; e aqueles para quem ver é puro ver-estar a braços com a sua pequena sensação, diria Cézanne.
Este ver situa-se num domínio que é exterior ou anterior à palavra, domínio em que o representado, se existe, se apre­senta como engodo do visto, como duplo, como escrínio do que é mostrado.
Para os primeiros, o quadro está terminado no momento em que o espectáculo se encerra, em que acaba a narração; para os outros, a obra tende a permanecer aberta, na medida em que o olhar interroga e trabalha o visto.»

«O pintor não vê para além, vê o que está ali. A vidência manifesta-se na assunção da presença. Do que está presente (mesmo que essa presença seja apenas uma marca na memória): do que o acto de pintar produz; do que se produz apesar de, ou for a de, ou paralelamente a esse acto. O ver do pintor dá-lhe o que ele produz, o que vai acontecer durante esse acto que em parte acompanha e em parte ultrapassa a sua vontade.»



«Por muito minuciosa que seja, a descrição de um quadro não ajuda a penetrar no seu enigma, não permite identificar o que vive no coração da obra. Perdoem-me os estudiosos, os amantes do rigor, os guardas fiscais da razão: na obra de arte existe contrabando»



«O que conta, o que faz o olhar do pintor, não é tanto fazer um quadro, como ver: ver o que se passa sobre a tela. Ali onde o quadro se faz, e durante este fazer do quadro.»

«É com este real, sua obra, que o pintor se mede antes de mais nada. É este real que ele opera. Ali vão expor-se dúvidas e fraquezas ou façanhas que é preciso descascar ou deitar abaixo. “Se acontecer fazeres alguma coisa que te agrade logo, apaga”, dizia Picasso. E Matisse: “Aprendi a desconfiar do primeiro jacto” (cito de memória).»

«É pela escolha da imagem que o poeta ou o pintor usam o quotidiano. E o destino da imagem torna-se outro, desneutraliza-se, e daí o espanto das pessoas que nela já não reconhecem o que é de todos os dias. E não estão enganadas. Rápido olhar ou fixação no quotidiano, a imagem abre-o ou volta-o contra si próprio, na medida em que é o reverso do inesperado. Este quotidiano, tido por neutro, ou nulo, e cuja banalidade já não detém a atenção, torna-se então peça e lugar de arquitectura, trama que vem do fundo do tempo e que se lança para o desconhecido — esse desconhecido com o qual o homem sempre tem de conformar-se.»

«O que é próprio do visto, sofrido e vivido no acto de ver, forma a essência da pintura, e não é susceptível de ser posto em palavras. Escrever sobre o visto é lançar o pregão de um vendedor de espelhos para cegos de nascença.»

«Por muito minuciosa que seja, a descrição de um quadro não ajuda a penetrar no seu enigma, não permite identificar o que vive no coração da obra. Perdoem-me os estudiosos, os amantes do rigor, os guardas fiscais da razão: na obra de arte existe contrabando e, no fim de contas, é esse contrabando intemitente de uma mercadoria cujas caracteristicas não conhece integralmente, e de que lhe escapa muitas vezes tudo o que lhe diz respeito.»

«A pintura é áfona, não usa som nem palavras. Daí a afinidade com o instante de morte: na fixidez do olhar que precede a cegueira definitiva.»



«Sonho quadros que nunca terminariam, cuja natureza seria justamente a impossibilidade de chegarem ao fim. (...) um quadro, seja qual for o seu formato, é uma aposta. Considerá-lo, ou não, acabado implica outra aposta»



«A pintura é táctil, é um convite à mão. Quer o quadro tenha que ver com imagens conhecidas, com um «visto» anterior, quer a profundidade seja simulada ou dada por alusões, a matéria da pintura impõe-se como realidade principal. Por muito ilusionista que seja a representação, o corpo do representado só será visto depois da pele da superfície. A espessura ou a transparência do óleo, o mate do fresco, a consistência da parede ou o grão da tela: esta escassa realidade basta para pôr a nu a ambiguidade das núpcias do olhar e da mão. (...)
O meio em que se insere a pintura é um corpo oco, habitado pelo espectador que se desloca.»

«No ateliê faço e refaço — por vezes sem sequer me dar ao trabalho de desfazer. Não só para fazer melhor. Mas também por necessidade de destruir, de remastigar uma dada experiência que não me matou a fome.
Estaria eu a estender a minha pintura de uma ponta à outra da tela sem me interrogar? O meu trabalho não consiste em acrescentar, dia após dia. Não segue um esquema pré-estabelecido, como o que serve para a construção de uma casa: as paredes depois das fundações, o tecto depois das paredes. O meu trabalho alimenta-se daquilo que despedaça. (...)
Procedo por destruições sucessivas. Rasuro. E estou em crer que a rasura dá o (não) sentido à frase, dá o nervo à forma, dá a vertigem ao espaço.»

«O dito e feito e logo esquecido não me estimula. Um quadro não me interessa senão enquanto se faz, durante o corpo-a-corpo com o que parece indizível. Sou avaro do meu prazer. Sonho quadros que nunca terminariam, cuja natureza seria justamente a impossibilidade de chegarem ao fim. (...) um quadro, seja qual for o seu formato, é uma aposta. Considerá-lo, ou não, acabado implica outra aposta.»



«Muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero. E lá me encontrei: situação sem conforto, de que há que partir. Isto vale para a pintura e para o resto»



«Apetece-me chamar odisseia a essa viagem que é a execução de cada quadro. (...) Chamo-lhe odisseia ou via-sacra, com as suas estações em que o protagonista cai e torna a levantar-se. Mas o cenário é o da solidão, não há público à volta, nem centuriões, nem mulheres em pranto, nem Verónica, nem Pilatos. Atribui-se a Picasso a qualificação da pintura como um desporto mais perigoso que a tauromaquia, porque o pintor não é estimulado pela presença do touro nem pela do público, e não poderá ser salvo pelos “peones” da “quadrilla”. O pintor desempenha o papel do “diestro” na praça silenciosa que é o seu atelier, sem direito a ovações ou assobios.»

«Para me sentir em boa companhia, os quadros meus preferidos são os que conservam vestígios dos acidentes da sua gestação, os que não escondem chagas nem feridas. (..)
Balzac foi capaz de conceber, antes de Cezanne, Picasso, Duchamp e companhia o inacabamento como chave de um certo tipo de obra, mais inacabável que inacabada – o inacabamento como paradigma da verdade em pintura, o inacabamento como abertura ao mundo.»

«Muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero. E lá me encontrei: situação sem conforto, de que há que partir. Isto vale para a pintura e para o resto.»


Imagem D.R.


 

Excertos de textos de Júlio Pomar para o filme "A cegueira do pintor", de Catarina Mourão e Paulo Pires do Vale
Imagem: Júlio Pomar | D.R.
Publicado em 22.05.2018

 

 

 
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