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Eutanásia: «O insuportável é a ausência dos afetos»

«Não é a dor física que leva ao desespero, pois essa é facilmente superada pelas modernas técnicas de analgia e cuidados paliativos. O que passa todos os limites é o saber-se que muitos “adoram” o cão e o gato, mas nunca visitam a mãe ou o avô. O insuportável é a ausência dos afetos, a fragilidade das relações, o grassar da cultura do “descarte”».

Assim escreve o bispo do Porto, D. Manuel Linda, em texto publicado no semanário “Expresso” de hoje, a propósito da votação sobre a despenalização da eutanásia, marcada para terça-feira no parlamento.

«A submissão ao facilitismo representa sempre uma abdicação perante a sensatez. Pior: começa por ser um “mal que se tolera” e, de abaixamento em abaixamento, chega ao “mal que se impõe”. Até ser tido como um “bem”. É o plano inclinado onde se forma a bola de neve que nunca se sabe onde vai parar», assinala o prelado doutorado em Teologia Moral.

Para D. Manuel Linda, «o problema da eutanásia» reside no facto de «a curto prazo, a “nova” mentalidade da eliminação permitida” passará a “eliminação exigida”. E a sociedade que, mais ou menos, ainda se vai comprometendo com as fragilidades, qualquer dia tentará bani-las, banindo as pessoas». «Os senhores deputados deveriam pensar nisto», conclui.



«Alguém falou em Portugal do “não” que a Finlândia deu à eutanásia há dias? Não, pois não. Mas já se fala da proibição da “eutanásia” para animais imposta pelo PAN, o mesmo PAN que lançou a eutanásia para pessoas»



Ramalho Eanes, o primeiro presidente da República eleito após a revolução de 25 de abril de 1974, considera que se, «em abstrato, fazendo o uso extremo da sua liberdade, o ser humano – detentor da posse exclusiva desse espaço moral, do privado, do íntimo – pode decidir suicidar-se, pelo contrário, seria eticamente inadmissível e legalmente aberrante que, no seu suicídio, outrem pudesse participar, ajudando o suicidário a concretizar esse seu desejo».

«Assim, não se entende que na eutanásia e na “morte assistida” seja aceitável a participação legal de alguém naquilo em que, “moralmente”, participar não deveria», defende em artigo publicado hoje no mesmo semanário. E remata: «Morte assistida, sim, com certeza, pois o amor e a misericórdia, sem os quais a vida é menos vida, devem acompanhar, devem suavizar o drama, o maior drama do ser humano – o da sua finitude».

É no mesmo sentido que se podem ler as palavras de Henrique Raposo no artigo de opinião de hoje do “Expresso”: «Quando uma pessoa pede a morte ao Estado, o leviatã não lhe deve dar uma injeção letal, deve abraçá-la».

«Alguém falou em Portugal do “não” que a Finlândia deu à eutanásia há dias? Não, pois não. Mas já se fala da proibição da “eutanásia” para animais imposta pelo PAN, o mesmo PAN que lançou a eutanásia para pessoas», vinca o cronista, que apela aos deputados do PSD que desviem a agenda «para os cuidados paliativos e para a figura do cuidador».



«Os projetos propostos são, nas suas indicações, muito semelhantes ao modelo holandês, pioneiro mundial, e ao modelo belga inicial os quais, apesar das restrições e garantias iniciais, derraparam de tal modo que hoje as mortes por eutanásia aumentam nesses países em 10 por cento ao ano»



Henrique Raposo recorda que são os médicos e enfermeiros a ter de assumir a responsabilidade de «matar», questão que foi objeto de um texto assinado por Miguel Oliveira da Silva, obstetra e antigo presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, e Germano de Sousa, antigo bastonário da Ordem dos Médicos, a 12 de maio, no “Expresso”.

O que os projetos de lei do PAN, BE e PS propõem «é que possa ser permitido a um médico matar um seu semelhante, a pedido deste desde que sofra de doença incurável, não obrigatoriamente terminal e alegue sofrimento (físico, psíquico ou existencial) “insuportável” (BE e PAN) ou “extremo” (PS), não necessitando o mesmo de ser objetivado».

«Os projetos propostos são, nas suas indicações, muito semelhantes ao modelo holandês, pioneiro mundial, e ao modelo belga inicial os quais, apesar das restrições e garantias iniciais, derraparam de tal modo que hoje as mortes por eutanásia aumentam nesses países em 10 por cento ao ano, aceitando-se cada vez mais indicações (como doença psiquiátrica e demência) inicialmente recusadas, chegando-se ao extremo de praticar a eutanásia em crianças», constatam,

Os signatários chamam também a atenção para «o aspeto formal e de ética política: nenhum partido incluiu a despenalização da eutanásia no respetivo programa eleitoral em 2015. Como podem então saber da vontade do eleitorado? Importa que em campanha nacional, pública, transparente, nas eleições legislativas de 2019 ou em referendo os cidadãos sejam convocados a participar, expressar a sua vontade clara» sobre o assunto.



«Em Portugal só 20 por cento da população tem acesso a cuidados paliativos no serviço nacional de saúde. Garantir uma cobertura total deve ser a grande prioridade, não passar a executar a morte»



Virgínia Cunha, de 78 anos, a recuperar de um cancro e dos efeitos dos tratamentos, trabalha como voluntária há 10 anos em dois centros de cuidados paliativos: «A dor é algo que se apazigua. É possível. Vi doentes que entraram em desespero porque a medicação não estava adequada. É possível estarem bem medicados e acompanhados».

«O que é preciso é dar às pessoas cuidados paliativos. Ajudar uma pessoa a morrer é isso. Não é prolongar-lhe a vida, não se faz hemodiálise a um doente quando se sabe que vai morrer dali a dois ou três dias. Dá-se-lhe um conforto», afirma a autora do livro “O vento sopra onde quer – Encontros em cuidados paliativos” (ed. Paulinas), igualmente no “Expresso” de hoje.

A líder do CDS-PP, Assunção Cristas, reitera, em opinião apresentada hoje pelo "Expresso", que «o progresso da ciência e da medicina» permite «viver com dignidade até ao fim da vida, leia-se sem sofrimento insuportável, com uma equipa pluridisciplinar a acompanhar doente e família em todos os momentos».

«Em Portugal só 20 por cento da população tem acesso a cuidados paliativos no serviço nacional de saúde. Garantir uma cobertura total deve ser a grande prioridade, não passar a executar a morte», salienta a deputada, lembrando que «os últimos seis bastonários da Ordem dos Médicos, incluindo o atual, são firmemente contra e o Parecer do Conselho de Ética para as Ciências da Vida sobre o projeto do PAN é esmagador (19 contra 1) na rejeição da eutanásia», além de que «é muito duvidoso» que a Constituição o permita.



O P. José Tolentino Mendonça qualifica de «estranha a tentativa de ideologizar a morte apresentando-a como um urgentíssimo direito individual a ser conquistado, como pretendem os ativistas da eutanásia, fazendo um apagão sobre a luta a desenvolver pelas garantias do direito à vida»



José Tolentino Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e diretor recém-nomeado da sua Faculdade de Teologia evoca o estudo que Carlos Braz Saraiva, professor da Universidade de Coimbra, tem vindo a realizar sobre o suicídio em Portugal.

«Haverá outros casos e razões, mas o problema maioritário [do suicídio] liga-se à pobreza, ao desamparo, ao esboroar dos laços afetivos, a um quadro endémico e múltiplo de vulnerabilidades mais do que a motivações filosóficas. A verdade é que, como sociedade, temos de reconhecer que a maioria morre porque não lhe damos a assistência humana e política que seria necessária», observa.

O padre e poeta qualifica de «estranha a tentativa de ideologizar a morte apresentando-a como um urgentíssimo direito individual a ser conquistado, como pretendem os ativistas da eutanásia, fazendo um apagão sobre a luta a desenvolver pelas garantias do direito à vida».

Os deputados serão chamados esta terça-feira a pronunciar-se «sobre a vida daqueles que são os últimos», sobre «o destino da população já hoje mais desprotegida», sobre «a existência daquela multidão que rapidamente as lógicas tecnicistas passarão a considerar como excedentária, irrecuperável e sem préstimo».

«Infelizmente o intervalo que separa o reconhecimento do direito a morrer e a imposição do dever de morrer é mínimo. E não por qualquer futurismo sombrio, mas pela interpretação literal do presente. Se formos olhar para os números são sempre os mesmos que morrem. Por isso, não nos iludamos: com a eutanásia não será diferente», conclui.


 

SNPC
Fonte: Expresso
Imagem: D.R.
Publicado em 26.05.2018

 

 
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