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Leitura: "Linhas tecidas com tempo"

«Dias como este, estremecem-nos o coração.// Porque se somos filhos de um pai e de uma mãe,/ também somos do país onde nascemos,/da língua que falamos, da história e das memória do povo que somos.// Como falar de Portugal, sem pensar no mar imenso,/ nas searas douradas, nas hortas com roseiras bravas?// Como falar de Portugal sem pensar na poesia cantada/ em ruelas das cidades, nas velas das caravelas, em todos os oceanos,/ no trabalho duro das obras, das fábricas, das estradas de todo o mundo?// Como falar de Portugal, sem pensar que a coroa do nosso reino/ foi entregue à Rainha do Céu?// Hoje, dia da nossa terra, da nossa língua, dia de passado, de presente e de futuro, eu Te peço, Jesus, por este nosso país.»

São estas as primeiras palavras de "Dia de Portugal", uma das orações da manhã que Isabel Figueiredo escreve semanalmente para a antena da Renascença, e que foram agora publicadas no livro "Linhas tecidas com tempo" (142 págs.). Oferecemos seguidamente o texto de apresentação do volume da Paulinas Editora, lançado este sábado na Feira do Livro de Lisboa.

 

Apresentação
Pedro Gil, diretor do Gabinete de Imprensa do Opus Dei em Portugal
In "Linhas tecidas com tempo"

E de repente... o livro já estava feito. Só foi preciso pedir o prefácio, que foi escrito por D. Manuel Clemente. É a recolha de cento e dezanove textos que a Isabel Figueiredo preparou para a rubrica diária “Oração da Manhã” da Rádio Renascença.

Não se trata de uma simples reflexão, ou simples pensamento, ou simples silêncio vazio. É uma conversa com Deus. Cada página tem a sua oração. E cada oração percorre-se tranquilamente num minuto. Não é preciso mais. A mestria da Isabel Figueiredo, que qualquer leitor pode notar e agradecer, tem vários aspetos: conhece aquele a quem fala, sente vivamente as preocupações humanas, escreve de forma luminosa e pacificadora.

Há dias falei deste livro a um amigo. Ele ouvira várias vezes esta oração na rádio, que acha «simplesmente espetacular!». Mas podemos perguntar: será que hoje em dia muitas pessoas achariam “espetacular” essa estranha ideia da oração?



«É preciso convencermo-nos de que Deus está junto de nós continuamente. - Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. E está como um pai amoroso - quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos»



Se quisermos ser realistas, não faltariam pessoas – talvez uma maioria – que teriam várias objeções à ideia da oração. Uns diriam: «Não há Deus, logo... rezar é fictício e inútil». Outros: «Mesmo que Deus exista, ele é absolutamente transcendente; pode ter arquitetado o mundo, mas foi à sua vida e é alheio a este mundo». Outros ainda: «Embora Deus exista, e continue a governar o mundo e todas as coisas e seres, não tem simplesmente vagar para cuidar de mim nem para me ouvir». E não faltaria quem dissesse: «Embora Deus exista e esteja disponível... eu é que não tenho tempo nem vagar, ou não tenho "pachorra"».

Este “Linhas tecidas com tempo” não foi feito para abordar essas objeções, mas trabalha sobre uma base de convicções que são resposta a essas objeções: 1. Deus existe, criou e governa o mundo, não só no início mas agora, neste preciso momento; 2. além disso, Deus está perto e interessado por cada um e por cada acontecimento, acompanha a história, as notícias e cada pessoa; 3. está tão perto que se fez homem sem deixar de ser Deus, é Jesus Cristo, e, por isso, o Deus transcendente passou a ter um rosto humano. Já não se pode continuar simplesmente a dizer de Deus que ele é o totalmente inacessível; 4. além de ser próximo e ter rosto humano, Deus é um Deus bondoso ainda que exigente. Não é vingativo nem castigador.

Situo o livro na linha de um pensamento que na minha juventude me marcou e ajudou a olhar para Deus de modo diferente: «É preciso convencermo-nos de que Deus está junto de nós continuamente. - Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. E está como um pai amoroso - quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos - ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando... e perdoando. (...)  É necessário que nos embebamos, que nos saturemos de que é Pai e muito Pai nosso, o Senhor que está junto de nós e nos Céus» (S. Josemaria, "Caminho", 267).



Embora o tema primário seja o quotidiano, como efeito colateral aparece o retrato de Deus: um Deus artista criador das coisas belas; um Deus formador que molda para a grandeza; um Deus "coach" que aconselha; um Deus "personal trainer", que desafia a exercícios difíceis que às vezes parecem impossíveis, mas que robustecem



Estamos perante uma coleção de orações, mas não perante um catálogo de fórmulas ou de mantras. São recados escritos para Deus sobre pessoas, situações e acontecimentos, com uma nuance especial: a de tentar ver e avaliar com o olhar ou a sensibilidade de Deus. Entre a pessoa que ora e o Deus a quem se ora há uma relação de amizade já construída, e uma afinidade, e, por isso, é como se os textos fossem o resultado de uma coautoria.

Vou destacar os aspetos que mais me impressionaram:

1. O tema são acontecimentos quotidianos e de atualidade. Não é uma conversa abstrata. Nem é uma oração diretamente a partir das Escrituras. É uma oração a partir da vida: da vida pessoal, da vida dos amigos, da vida da Igreja.

2. Embora o tema primário seja o quotidiano, como efeito colateral aparece o retrato de Deus: um Deus artista criador das coisas belas; um Deus formador que molda para a grandeza; um Deus "coach" que aconselha; um Deus "personal trainer", que desafia a exercícios difíceis que às vezes parecem impossíveis, mas que robustecem; um Deus solidário, que também sofreu sem ter culpa.

3. Neste livro, quem fala, fala como filho, um filho, que pode ter à vontade, confiança, descaramento, e pode até protestar.

4. Todas as páginas são escritas com grande beleza formal e com muita sensibilidade sobre as pequenas situações da vida.

5. Aparece como muito grande o valor da amizade, por Deus, por Maria, e pelas pessoas.

As “Linhas tecidas com tempo” balizam um bom caminho para ser andado por todos. Mas julgo que há dois tipos de pessoas que vão saborear melhor este caminho: - as pessoas que gostariam de aprender a falar com Deus, com o coração, no meio da confusão da vida diária; - as pessoas que gostariam de reatar as relações com Deus mas têm medo de Deus.



«Seria errado pensar que o comum dos cristãos se pode contentar com uma oração superficial, incapaz de encher a sua vida. Sobretudo perante as numerosas provas que o mundo atual põe à fé, esses cristãos seriam não apenas cristãos medíocres, mas "cristãos em risco"»



A arte da oração é uma arte acessível a todos, que se pode aprender. Mais: é necessária para todos. João Paulo II escreveu um documento programático sobre o que deveria ser a Igreja no 3º milénio. E disse: «As comunidades cristãs devem tornar-se autênticas "escolas" de oração»; uma oração que não se exprima apenas «em pedidos de ajuda», mas também em agradecimento, elogio, «adoração, contemplação, escuta, afetos», até se chegar a um coração verdadeiramente «apaixonado».

«Seria errado pensar que o comum dos cristãos se pode contentar com uma oração superficial, incapaz de encher a sua vida. Sobretudo perante as numerosas provas que o mundo atual põe à fé, esses cristãos seriam não apenas cristãos medíocres, mas "cristãos em risco": com a sua fé cada vez mais debilitada, correriam o risco de acabar cedendo ao fascínio de sucedâneos, aceitando propostas religiosas alternativas e acomodando-se até às formas mais extravagantes de superstição» ("Novo millenium ineunte", 34).

O livro da Isabel Figueiredo é um bom manual para essa “escola de oração”. Veja-se, como amostra, o texto “O poder da oração”:

«O grande desafio deste momento de encontro
é conseguir torná-lo verdadeira oração.
Na corrida dos dias ou prisioneira de um tempo fugidio,
sei que é possível encontrar-Te, sentir a tua companhia...

Os grandes Santos, homens e mulheres iguais a nós,
mas transbordantes da tua presença,
deixaram palavras que iluminam os nossos dias.
Foi Santa Teresinha quem escreveu:

«Como é grande o poder da oração!
Sinto-me como uma rainha
que tem livre acesso ao rei, a cada instante,
e que pode obter tudo quanto pede.»

Mas a verdade é que me falta tantas vezes a decisão firme
de ir ao teu encontro, confiante no poder da oração...
Ajuda-me a ter consciência da extraordinária possibilidade
que é estar contigo, ainda que seja um breve momento...»

As cento e dezanove orações foram agrupadas em três grandes conjuntos: “rostos”, “momentos”, “expressões”. Os temas das várias orações são diversos e o título claramente o indica, habitualmente com uma só palavra, por exemplo: “Limites”, “Incêndios”, “México”, “Partem”, “Mesmo”.  Os títulos mais extensos são mais extensos mas habitualmente não trazem com isso mais informação, mas mais suspense: “Não lhe seques as lágrimas”, “A chave na fechadura da porta”, “Sem sol, sem sorrisos”, “Murta pelos campos”, “Quando olhei para trás”, “Não consegui”, “O meu lenço ficou guardado”.

Agora, uma dupla mensagem final: a todos, “vale a pena a ler o livro”; à autora: “valeu a pena ter publicado o livro”. Estas Linhas foram tecidas com tempo, e estão maduras, ligadas entre si com consistência, e podem traçar uma linha de orientação libertadora para muitas pessoas.

Obrigado Isabel, muito sinceramente, por ter acreditado nas pessoas que teimaram em que era preciso publicá-las e pelo despojamento que certamente significou o tornar pública esta experiência, resgatando-a do espaço mais reservado da existência onde ela na origem se dá.


 

Edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 11.06.2018

 

 

 
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