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Natureza, cultura, pecado

É muito frequente a confusão entre natureza e cultura. Por exemplo, publicita-se um empreendimento turístico agradável para se passar férias ou simplesmente descansar afirmando que tal é um sítio em que se pode contactar com a natureza. Ora, sítios realmente naturais, isto é, em que não houve qualquer contaminação direta da ação humana são extremamente raros.

Se se quiser exacerbar o rigor ao ponto de incluir também as influências indiretas, será muito difícil encontrar algum lugar no ecossistema Terra em que não haja, já, uma qualquer forma de contaminação cultural indireta, pois, dadas as circulações gerais da atmosfera e das massas de água marítimas, só mesmo sítios extremamente recônditos se podem considerar como eventualmente incontaminados. No entanto, qualquer tentativa de contacto com finalidade probatória contaminará tal sítio supostamente prístino.

A noção de cultura aqui em causa não é, certamente, a supostamente elitista, na realidade sans noblesse (porque etnocêntrica), que equipara a cultura a supostas grandes produções da humanidade, relegando as não-grandes-produções para um limbo que não é natureza, mas que também não pode ser cultura.

Cultura é o imenso conjunto integrado de toda a ação humana desde que há humanidade. Este «desde» é literalmente improvável. No entanto, em termos gerais, o «desde» e o «sempre» da humanidade coincidem com o que esta é como «ato cultural»: antes de haver cultura, não havia seres humanos. Cultura e humanidade, deste ponto de vista puramente ativo, coincidem. Se há des-coincidência esta reside na parte não-ativa da humanidade, quer dizer, na sua parte passiva ou, se se quiser, passional.



Nada há no ser humano que não seja cultural, no sentido de que nada há nele que não seja culturalmente modelado, de algum modo. Apenas um primeiro ser humano – até agora meramente postulado – que fosse inteiramente produto de atos prévios totalmente não-humanos poderia ser considerado como um ser humano natural. À parte este, todos os outros são entidades culturais



Esta passionalidade constitui necessariamente o que, na humanidade, é natureza. No entanto, sendo o ser humano um ente sempre político, e não havendo propriamente geração espontânea, todo o comum ser humano, nascendo de um ato político – o ato sexual fértil –, é, assim, mesmo na passionalidade do seu ato pré-primeiro, uma entidade fruto da cultura, logo, uma entidade dada culturalmente, posta culturalmente no ser.

Neste sentido, nada há no ser humano que não seja cultural, no sentido de que nada há nele que não seja culturalmente modelado, de algum modo. Apenas um primeiro ser humano – até agora meramente postulado – que fosse inteiramente produto de atos prévios totalmente não-humanos poderia ser considerado como um ser humano natural. À parte este, todos os outros são entidades culturais.

Neste sentido, então, pode dizer-se que a natureza própria do ser humano é cultural: a natureza do ser humano é a cultura. Não é que esta cultura dispense algo como isso que macroscopicamente em termos gerais consideramos como «matéria»; mesmo tal matéria, em cada ser humano, desde que há humanidade, é dada, é um dado. Também ela é culturalmente modelada: se houver um interdito cultural relativamente à procriação com elementos da “tribo” X, tal impede que a matéria dos filhos de quem assim é proibido de procriar partilhe da matéria própria das pessoas de tal tribo. Os exemplos podem multiplicar-se, mas este é bastante.

Ora, é esta relação lógica – natural, em termos lógicos, dado que a lógica é estrutural do universo, antes de ser a ciência fundada por Aristóteles – fundamental entre natureza e cultura, cósmica e antropologicamente universal e perfeitamente “laica”, que se encontra plasmada de forma cultural religiosa no mito genesíaco da criação de Adão e Eva.



Como estamos longe de uma hermenêutica vil em que o ato de criação da humanidade faz desta uma vítima inicial de proibições sem fim. Bem pelo contrário, a natureza humana é um esplendor de possibilidades: de possibilidades de ser a concretizar por cada ser humano



Na sua grandeza poética, que simboliza a realidade, procurando encontrar o seu «logos», bebendo em todos os pormenores, numa realidade intelectual intricada, os mitos fundamentais constroem-se sempre em torno de eixos estruturais simples. No mito da criação da humanidade do Génesis, encontramos de forma claríssima a distinção entre o que é «natureza» e o que é «cultura» em termos da ontologia fundante do próprio da antropologia: a natureza corresponde ao absoluto do dom que o criador dá como ser próprio à criatura humana, dom que é natureza como possibilidade; a cultura é tudo o que a humanidade faz a partir de tal mesmo dom inicial.

A cultura é, assim, um permanente movimento – na realidade, um ato – dialético entre as possibilidades próprias que constituem a natureza humana e a concretização de tais possibilidades, precisamente em ato. No entanto, cada nova concretização – e é este facto que implica uma estrutura dialética irredutível – é, imediatamente, um dom, cultural, que serve de base ontológica para que possa haver outro – outros – atos culturais; e, assim, até um virtual infinito teórico, salvo aniquilação, auto ou hétero operada, de tal dialética.

No Génesis, a natureza humana surge não como algo de pétreo e de determinado, como se de um molde mecânico se tratasse, mas como um absoluto de possibilidades próprias e irredutíveis de ação, ação esta que é o que determinará o que cada ser humano é, e, com todos os seres humanos em interação sincrónica e diacrónica, também o que a humanidade como um todo é.

No que diz respeito à parte natural do ser humano, o mito genesíaco é muito claro: as possibilidades outorgadas pelo ato de criação são infinitas. Como se sabe, há apenas uma proibição, a de se comer de uma certa árvore, que corresponde ao acesso a uma forma de discernimento própria não da criatura, mas do criador, assim imprópria para a criatura. No entanto, há que lembrar que «infinito menos um» é, ainda infinito.



Um termo tão negativamente ligado à religião, afinal, revela-se como um termo que mais não faz do que simbolizar realisticamente o que é a mais laica das negativas verdades: que há atos culturais que constituem o que em termos culturais é a negatividade ontológica do mundo humano



Deste modo, o que constitui a natureza humana, quer dizer, o que na humanidade não depende de um ato cultural, de um ato de um ser humano, é um infinito de possibilidades. Como estamos longe de uma hermenêutica vil em que o ato de criação da humanidade faz desta uma vítima inicial de proibições sem fim. Bem pelo contrário, a natureza humana é um esplendor de possibilidades: de possibilidades de ser a concretizar por cada ser humano; são estas possibilidades que constituem a natureza incoativamente dada; são as possíveis realizações concretizadas que constituem a cultura.

Note-se que, a partir do momento em que a humanidade passa a ser produto da humanidade, na sucessão das gerações, a própria natureza humana como possibilidade passa a ser mediada por atos humanos, isto é, culturais. Percebe-se, assim, que a criação da humanidade corresponde ao ato primeiro de possibilidade de criação da cultura.

A cultura, neste mito, não é obra de Deus, mas obra humana, a partir de uma possibilidade outorgada por Deus. Tal permite perceber melhor a grandeza quer divina quer humana de todos os atos em que Deus se manifesta no seio do mundo cultural, sobretudo a grandeza cultural da incarnação de Deus que é a presença carnal de Cristo, de que o útero de Maria é o veículo de metamorfose em cultura: não da natureza em cultura, mas do espírito em cultura. Ora, que é, desde o seu primeiro possível momento a cultura senão a possibilidade e, depois, a realidade da manifestação material do espírito, do «logos»?

Repare-se, também, que não há, neste mito, qualquer forma de maniqueísmo, o que é raro, mas não surpreende, dado o mito que é.



O pecado não é uma invenção judaico-cristã – ignorante tolice –, mas a constatação cultural de que, na cultura, existem atos que aniquilam possibilidades culturais. Se se preferir, pode dizer-se que o pecado é o ato cultural que usa as possibilidades da cultura para aniquilar a possibilidade da cultura



O mal, segundo o Génesis, não tem realidade própria como natureza, mas tem-na de forma muito clara, como ato cultural. A escolha de vontade que levou à manducação do «fruto proibido» é um ato cultural – mesmo que se queira classifica-lo como «anticultural», é cultural precisamente como anticultural –, não é um «ato natural», pois, a este nível, não há atos naturais: no que diz respeito à humanidade, todos os seus atos são não-naturais porque são todos culturais, sob pena de não haver humanidade em tais atos.

O culminar, breve, da introdução cultural do mal é atingido quando Caim mata o seu irmão Abel, no que é o ato cultural mais significativo em termos negativos de todos, a morte de um ser humano às mãos de outro ser humano. Corresponde tal ato à negação cultural da possibilidade própria do outro, isto é, funciona como uma forma de «des-criação»: Deus dá o absoluto da possibilidade de se ser em termos humanos; um ser humano aniquila tal dom.

É isto o «pecado». Nada de estranho ou sobrenatural. Claramente, negando a natureza – mesmo que cultural – de um ser humano, é, por tal, «antinatural». Mas o que o pecado é, radicalmente em sua ontologia, é um ato cultural.

O pecado é a parte ontologicamente negativa da cultura.

Um termo tão negativamente ligado à religião, afinal, revela-se como um termo que mais não faz do que simbolizar realisticamente o que é a mais laica das negativas verdades: que há atos culturais que constituem o que em termos culturais é a negatividade ontológica do mundo humano, a imundície deste mundo.

Afinal, o pecado não é uma invenção judaico-cristã – ignorante tolice –, mas a constatação cultural de que, na cultura, existem atos que aniquilam possibilidades culturais. Se se preferir, pode dizer-se que o pecado é o ato cultural que usa as possibilidades da cultura para aniquilar a possibilidade da cultura: é esta a mensagem do mito, também genesíaco, das cidades de Sodoma e Gomorra (psicologicamente apetecíveis pormenores escabrosos à parte).

Mas o mal, na sua relativa facilidade de colher o fruto roubável, parece fascinar mais do que o, por vezes, dificultoso bem. Tudo isto faz parte da nossa natureza como possíveis, da nossa cultura, como reais. Entre uma e a outra, está isso que somos como ato de escolha: e isto é tudo o que somos. Graças a Deus.



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: AlexKozlov/Bigstock.com
Publicado em 06.08.2018

 

 
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