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O homem e a máquina: Relevância antropológica do prestador de cuidados de saúde

Um bom prestador de cuidados de saúde, independentemente da sua especialidade, do seu estatuto profissional, do seu estatuto social, exatamente por ser um bom prestador de cuidados de saúde, terá a sua existência, como tal prestador, sempre justificada.

Um mau prestador de cuidados de saúde, independentemente da sua especialidade, do seu estatuto profissional, do seu estatuto social, exatamente por ser um mau prestador de cuidados de saúde, não terá a sua existência, como tal prestador, justificada. Será facilmente substituído por uma máquina.

Uma máquina prestadora de cuidados de saúde – e já existem, em formas não de substituição pura, mas de complementaridade de ação – tem sobre o mau prestador de cuidados humano a vantagem de ser mecânica, isto é, funciona sempre bem até se avariar; o ser humano, também se “avaria”, mas, podendo, funciona ou funciona bem apenas quando quer.

A máquina não tem caprichos, o ser humano tem, e tais caprichos afetam negativamente a qualidade da sua prestação de cuidados de saúde. A máquina não tem interesses, o ser humano tem, muitos dos quais contraditórios com a finalidade do seu labor como prestador de cuidados de saúde.

A máquina não tem os chamados «estados de alma», o ser humano tem, o que interfere, por vezes, negativamente com a qualidade do que é suposto que seja o seu trabalho, indiscernível da finalidade do mesmo: cuidar de outras pessoas que, precisamente, necessitam de tais cuidados.



É verdade que as máquinas poderão, porque são produto da inteligência humana e, assim, extensões mecânicas da própria humanidade através da inteligência que para elas foi transferida, imitar em tudo os seres humanos. No entanto, exatamente pela mesma razão de origem, o que for o produto de tal imitação corresponde ao que os seres humanos nelas colocaram



As máquinas não têm opções ideológicas, todas elas discutíveis, os seres humanos têm, podendo algumas delas, levadas ao extremo, não apenas prejudicar o que deveria ser a boa qualidade de prestação de cuidados de saúde, mas direta ou indiretamente causar danos propositados quer a seres humanos necessitados de cuidados de saúde, quer a seres humanos não necessitados de tais cuidados, sendo todavia postos sob o alcance da perversidade das opções ideológicas de tais prestadores de cuidados de saúde.

O caso mais extremo, mas longe de ser único, é o dos aberrantemente famosos «médicos nazis», expressão que deveria ser mudada para «técnicos de saúde nazis», pois não foram apenas médicos os intervenientes em tais hediondos casos de perversão das ciências e das artes de saúde.

Outras comparações poderiam ser feitas, dentro do mesmo teor, demonstrando a relativa superioridade das máquinas sobre os seres humanos, precisamente porque as máquinas não são humanas. Acrescente-se o argumento económico-financeiro, segundo o qual as máquinas ficam mais baratas ao dono do sistema de prestação de cuidados de saúde.

Um contraditor inteligente certamente afirmará que as máquinas poderão também atingir um ponto tal de autonomia em termos de programação e de reprogramação, até própria, que poderão também elas vir a ter todos os defeitos acabados de assinalar aos seres humanos.



Se a máquina ou a pessoa, no caso vertente da prestação de cuidados de saúde, desvirtuar a sua ação por desvio relativamente ao fim que deve servir, é nesta desvirtuação que reside o problema, não no facto de se ser pessoa ou máquina



Tal é, do ponto de vista das possibilidades, perfeitamente verdade. É, aliás, provável que tal venha a acontecer. O desenvolvimento da chamada «inteligência artificial» para tal aponta e num prazo que não será muito dilatado. Provavelmente iremos ter máquinas tão avançadas que irão até ser semelhantes aos seres humanos no melhor e no pior da sua ação, sendo, se devidamente condicionadas para isso e se tal condicionamento for possível, muito melhores do que os seres humanos no desempenho de muitas tarefas.

Esta situação já ocorre nos tempos atuais, em que há máquinas que executam incontáveis tarefas, em muitos setores de atividade, de forma muito mais capaz do que os seres humanos. Tal significa que os seres humanos já foram, em muitas atividades, ultrapassados pelas máquinas.

No entanto, esta lição já poderia ter sido aprendida há muito tempo, porque há já muito tempo que qualquer máquina, desde as mais simples, pode superar, e, de facto, supera os seres humanos em muitas tarefas: lembremos as máquinas simples, a alavanca, o plano inclinado e a roda, que ajudaram o ser humano a superar as suas comuns capacidades.

Todas as outras máquinas são compostas por variadas formas combinatórias entre estas máquinas simples. Todas as máquinas foram construídas para, de algum modo, ajudar o ser humano a substituir as suas incapacidades por meios externos de auxílio. Do arco e flecha, ao míssil balístico ultracomputadorizado; da faca de vidro vulcânico primitiva, ao bisturi tecnologicamente mais avançado dos dias de hoje; do primeiro sistema de rolos para fazer deslizar carga, ao último modelo automóvel Tesla, tudo são máquinas, todas avançadíssimas para o seu respetivo tempo, todas feitas para que se conseguisse fazer o que o ser humano, em si mesmo e por si só, não conseguia e não consegue.



Houve e há seres humanos prestadores de cuidados de saúde que têm o mesmo nível ético de tais eventuais máquinas, isto é, nenhum, prestando-se ao que de mais desumano se possa imaginar em termos de perversão da sua ação



Note-se que, ainda hoje, os instrumentos antigos a que aludimos têm perfeito cabimento, continuando todos a ser usados ou podendo ser usados, com altíssimo desempenho: o arco ainda é uma das “melhores” formas de matar alguém a uma distância razoável e de forma discreta, alguns dos melhores bisturis são feitos de material vítreo semelhante ao do dos antigos, para fazer rolar um bloco de pedra de vinte toneladas os velhos rolos dos egípcios são muito melhores do que o último e mais caro modelo de automóvel mais dispendioso.

Todos estes instrumentos existem ainda porque são exatamente aquilo para que foram criados: são, cada um a seu modo, úteis; úteis no seu máximo.

As máquinas são assim porque são uma reserva, mais ou menos ativa, de inteligência humana ao serviço da mesma humanidade.

A partir desta constatação, podemos responder à pessoa inteligente que levantou a questão: é verdade que as máquinas poderão, porque são produto da inteligência humana e, assim, extensões mecânicas da própria humanidade através da inteligência que para elas foi transferida, imitar em tudo os seres humanos. No entanto, exatamente pela mesma razão de origem, o que for o produto de tal imitação corresponde ao que os seres humanos nelas colocaram.

Se as máquinas forem, por exemplo, caprichosas, tal forma mecânica de capricho será um prolongamento do capricho humano. É necessária uma qualquer base humana para que algo como o capricho possa ser introduzido como possibilidade ou como realidade propositadamente programada numa máquina. O mesmo pode dizer-se dos outros exemplos acima apresentados.



Por enquanto, o ser humano que é fiel à finalidade do seu labor como prestador de cuidados de saúde ainda supera facilmente as máquinas. Supera também o outro ser humano que não é fiel a tal finalidade, esse que, em vez de cuidar do único bem, quer dizer, da pessoa entregue ao seu cuidado, dá a sua preferência a algo como a «carreira profissional», exerce as suas funções como mercenário



Isto significa que o que está mal quer nestas possíveis máquinas quer nos reais seres humanos é a parte em que existe um disfuncionamento na relação com a finalidade da ação, humana ou mecânica.

Se a máquina ou a pessoa, no caso vertente da prestação de cuidados de saúde, desvirtuar a sua ação por desvio relativamente ao fim que deve servir, é nesta desvirtuação que reside o problema, não no facto de se ser pessoa ou máquina.

A opção entre a utilização de máquinas ou de seres humanos como prestadores de cuidados de saúde pôr-se-á sempre, de facto, nos seguintes moldes, tendo em conta que não faz qualquer sentido racional escolher entre realidades em que manifestamente uma é pior do que a outra, estando aí a escolha como que já feita pela própria relação de qualidade, preferindo-se sempre a melhor: escolher entre dois seres humanos bons prestadores de cuidados de saúde; escolher entre duas máquinas boas prestadoras de cuidados de saúde; escolher entre um ser humano e uma máquina bons prestadores de cuidados de saúde.

Estas são as possibilidades de escolha racional. Recapitulamos: escolher entre dois seres humanos, entre duas máquinas, entre um ser humano e uma máquina que estejam ao mesmo nível de boa qualidade de prestação de cuidados de saúde. A isto se adiciona o reconhecimento, sancionado com a preferência, de casos em que há superioridade de uns sobre os outros em termos de prestação de cuidados de saúde.

Ora, paralelo a um aceleradíssimo avanço na melhoria da qualidade das máquinas em termos de auxílio à prestação de cuidados de saúde praticada por seres humanos, a que há que somar os desenvolvimentos relativos à chamada inteligência artificial, constata-se um retrocesso na qualidade de prestação de cuidados de saúde por parte de seres humanos.



Se as boas características que definem um bom prestador de cuidados de saúde desaparecerem e surgirem máquinas aperfeiçoadas que o possam substituir com vantagem para as pessoas com necessidade de tais cuidados, o que deve ser feito, em benefício de tais pessoas, é substituir tais seres humanos maus prestadores de cuidados de saúde por máquinas boas prestadoras dos mesmos cuidados



Metaforicamente, pode dizer-se que, enquanto as máquinas se humanizam e podem mesmo vir a tornar-se proximamente humanas através do uso da inteligência artificial, os seres humanos se mecanizam, estando cada vez mais dependentes das máquinas, não apenas como meios diferenciados de auxílio ao diagnóstico e tratamento, mas como autênticos entes propriamente diagnosticantes e quasi-curadores, em sentido lato.

Faz parte de um imaginário utópico, perverso, do comum ser humano ocidental a imagem de uma máquina em que se meta, numa das suas extremidades, a pessoa, doente ou não, emergindo, após ter passado no seu interior algum tempo e ter ouvido uns ruídos mais ou menos estranhos, do outro lado, não apenas diagnosticada, mas curada, restaurada, revivificada, renovada, podendo, mesmo, tal máquina atuar como substituto de uma vida eterna, assim obtenível através de sucessivas passagens «por dentro da máquina».

Milagre mecânico, magia mecânica ou possibilidade bem real e concretizável num futuro talvez não muito distante?

Que tal uma máquina quer de prestação de cuidados de saúde quer de criação de novos seres humanos que funcione ao modo das impressoras 3D, a partir de códigos genéticos integrais, devidamente purificados de qualquer defeito de programação genética?

Um doente com cancro, que tenha o seu código genético aperfeiçoado e limpo, guardado num banco de dados, pode ser «recriado» deste modo? Pode ser recriada a sua parte enferma, substituindo tudo o que no organismo está mal, guardando o restante que está bem?

Poderá fazer-se uma infinidade de cópias materiais de «alguém» a partir de um tal banco genético? Dez mil Paul Newman ou Meryl Streep, ou, então, dez mil cópias de um novo Hitler?



Se, em defesa do bem da própria humanidade, por causa de um retrocesso antropológico ao nível dos prestadores de cuidados de saúde, por opção destes, pois nada verdadeiramente os obriga a que se degradem, tiver de ser tomada uma tal decisão, tal decisão deve ser tomada



De notar que houve e há seres humanos prestadores de cuidados de saúde que têm o mesmo nível ético de tais eventuais máquinas, isto é, nenhum, prestando-se ao que de mais desumano se possa imaginar em termos de perversão da sua ação. Tudo o que se possa imaginar em termos de ofensa de base ética ao sentido profundo que define o que é um ser humano em sua essência antropológica já foi feito por algum prestador de cuidados de saúde. Ou, se se quiser ser mesmo rigoroso, por alguém que exibe tal título, sem o merecer.

Ora, substituir tais pessoas por máquinas será sempre um bem, pois, se fizerem o mesmo serviço, qualquer seja, tal será mais barato – passe o cinismo da afirmação –, e se forem mesmo prestadores de cuidados de saúde, isto é, agentes que antropologicamente fazem o bem, então, a substituição será um indiscutível bem em termos éticos, políticos, e, sobretudo, antropológicos.

Neste horizonte, o especial relevo próprio positivo do prestador de cuidados de saúde humano residirá, como sempre residiu, no que tem de diferente em termos de relação com as pessoas de quem cuida. O mais, qualquer máquina poderá fazer.

Se algum dia uma qualquer máquina for capaz de prestar cuidados de saúde que incluam o que anteriormente de bom era próprio apenas dos seres humanos, então, essa máquina será indiscernível, em termos de relação política, de um ser humano. A máquina ter-se-á humanizado, como se pode ver, em contexto não tão diferente quanto possa parecer, no filme de Spielberg adequadamente chamado Artificial intelligence.

A similitude fundamental consiste em que a máquina que se humaniza, o robot David, ter sido criada como «filho substituto», forma de cuidado psicoemocional para pais que em tais níveis necessitassem de uma forma de tratamento adequada. David faria parte dessa forma de tratamento, era algo como uma máquina cuidadora. O irónico e talvez profético do filme reside em que David se humaniza e a humanidade desaparece, sendo substituída por «máquinas-humanas» muito mais próximas de uma possível perfeição, porque não fazem, como os seres humanos, mal.



Se o médico ou o enfermeiro ou qualquer outro técnico de prestação de cuidados de saúde nem toca no ser humano sob o seu cuidado, se não lhe fala ou se lhe fala com maus modos, para que servirá, quando houver uma máquina que será programável para fazer bem o que estes seres humanos não querem fazer bem?



Por enquanto, o ser humano que é fiel à finalidade do seu labor como prestador de cuidados de saúde ainda supera facilmente as máquinas. Supera também o outro ser humano que não é fiel a tal finalidade, esse que, em vez de cuidar do único bem, quer dizer, da pessoa entregue ao seu cuidado, dá a sua preferência a algo como a «carreira profissional», exerce as suas funções como mercenário – não confundir com «devidamente bem pago» –, não respeita a pessoa de quem cuida como pessoa, etc.

No entanto, se as boas características que definem um bom prestador de cuidados de saúde desaparecerem e surgirem máquinas aperfeiçoadas que o possam substituir com vantagem para as pessoas com necessidade de tais cuidados, o que deve ser feito, em benefício de tais pessoas, é substituir tais seres humanos maus prestadores de cuidados de saúde por máquinas boas prestadoras dos mesmos cuidados.

A escolha, note-se, não é das máquinas. É humana. Mas se, em defesa do bem da própria humanidade, por causa de um retrocesso antropológico ao nível dos prestadores de cuidados de saúde, por opção destes, pois nada verdadeiramente os obriga a que se degradem, tiver de ser tomada uma tal decisão, tal decisão deve ser tomada.

Não há, por exemplo, necessidade de médicos que nem se dignam olhar para os doentes que tiveram a infelicidade de lhes ser atribuídos: para isso, uma máquina serve. Se o médico ou o enfermeiro ou qualquer outro técnico de prestação de cuidados de saúde nem toca no ser humano sob o seu cuidado, se não lhe fala ou se lhe fala com maus modos, para que servirá, quando houver uma máquina que será programável para fazer bem o que estes seres humanos não querem fazer bem?

Os prestadores de cuidados de saúde humanos não são um luxo necessário. O luxo nunca é necessário, por isso é propriamente luxo. Tais prestadores ou são antropologicamente relevantes positivamente, precisamente, em termos das necessidades a que devem servir ou, então, tornam-se redundantes, um luxo que deve ser eliminado.

Está nas mãos de tais prestadores a decisão relativamente a um futuro que não será assim tão remoto: ou querem ser antropologicamente relevantes ou são substituíveis e substituídos efetivamente por máquinas capazes de fazer o seu trabalho de forma muito mais eficiente, económica e, se devidamente programadas para tal, antropologicamente muito melhor.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: leaf/Bigstock.com
Publicado em 02.07.2018

 

 
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