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O salto do vidente cego

Às vezes, é quando menos se espera. Nem mais nem menos. É naquele momento, completamente fora do programa, que acontece o extraordinário, como na história do Evangelho.

«É possível um cego deixar de ser cego?», terão perguntado, «conta-nos como foi». A testemunha desse tempo assinalou alguns detalhes a partir dos quais desenharam os contornos de um episódio invulgar: «À saída de Jericó, ele, o pobre cego, viu primeiro e pôs-se a vociferar, “Filho de David, tem piedade…”. Não se calava, atrapalhou a procissão dos muitos fiéis, ele, o vidente cego, pouco depois deu um salto para espanto dos que viam sem ver, deixando, como se fosse lixo, a capa com a qual tinha sobrevivido.

A testemunha de hoje: «Em nós há uma apetência para a escuridão. É simples ver, custa pouco, é natural, mas deslizamos com facilidade para o emaranhado de raciocínios através dos quais percorremos, como cegos, labirintos infinitos sem esperança deles sair. Cedemos à tentação de fechar os olhos ou, sobre eles, colocar as velhas palas, restringindo o campo de visão, e, com pesar, não enxergamos o fim para o qual fomos criados».

O grande teólogo canadiano B. Lonergan, enumera três entraves que impedem o homem de ver e aprofundar a «orientação inata para o divino». Em primeiro lugar, a «disposição individual». Facilmente nos auto-enganamos, fugimos às perguntas que possibilitam a autotranscendência, pomos uma venda sobre os olhos como receio de ver o que nos inquieta.

Em segundo, a «disposição de grupo», isto é, a pressão da cultura dominante que distorce a perspetiva da realidade. Aqueles que se atrevem a falar do que veem, são colocados à margem, rotulados depreciativamente e, em alguns casos, julgados nos modernos pelourinhos públicos das redes sociais.

Finalmente, a preferência pelo modo de vida regulado por um espírito «pragmático» com vantagens imediatas. A preocupação pelo pão, pela manteiga, a roupa e o carro confortável, entre outras, forma um ciclo interminável de rotinas diárias que nos impedem de levantar a cabeça e olhar para o céu.

Talvez um dia demos um salto como na história antiga. A fé é o antídoto para a miopia espiritual.


 

P. Nélio Pita, CM
Imagem: "Cristo cura o homem cego" (det.) | Eustache Le Sueur (1616-1655)
Publicado em 27.10.2018

 

 
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