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Papa alerta para perigo de cristãos passarem de «residentes» a «turistas» da fé

«A nossa fé não está destinada a ficar escondida, mas a fazer-se conhecer e ressoar em vários contextos da sociedade, para que todos possam contemplar a sua beleza e ser iluminados pela sua luz», frisou hoje o papa, na Letónia.

No terceiro dia de visita aos estados bálticos, Lituânia, Letónia e Estónia, por ocasião do centenário da sua independência, Francisco dirigiu-se a uma assembleia de cristãos evangélicos reunidos na catedral luterana de Riga.

Nesta catedral encontra-se um dos órgãos mais antigos da Europa e que foi o maior do mundo ao tempo da sua inauguração. Podemos imaginar como acompanhou a vida, a criatividade, a imaginação e a piedade de todos aqueles que se deixavam envolver pela sua melodia. Foi instrumento de Deus e dos homens para elevar o olhar e o coração. Hoje é um emblema desta cidade e desta catedral», afirmou o papa.

Para o «residente» na cidade capital do país, o instrumento «representa mais do que um órgão monumental, é parte da sua vida, da sua tradição, da sua identidade. Para o turista, por seu lado, é naturalmente um objeto artístico a conhecer e fotografar», observou.



«Poderemos afirmar que toda a nossa tradição cristã pode sofrer o mesmo destino: acabar reduzida a um objeto do passado que, fechado entre as paredes das nossas igrejas, deixa de entoar uma melodia capaz de mover e inspirar a vida e o coração daqueles que a escutam»



«Este é um perigo que sempre se corre: passar de residentes a turistas, fazer daquilo que nos identifica um objeto do passado, uma atração turística e de museu que recorda a gesta de um tempo, de alto valor histórico, mas que cessou de fazer vibrar o coração de quantos o escutam», vincou Francisco.

«Com a fé pode suceder-nos exatamente a mesma coisa. Podemos deixar de nos sentir cristãos residentes para tornarmo-nos turistas. Mais, poderemos afirmar que toda a nossa tradição cristã pode sofrer o mesmo destino: acabar reduzida a um objeto do passado que, fechado entre as paredes das nossas igrejas, deixa de entoar uma melodia capaz de mover e inspirar a vida e o coração daqueles que a escutam», advertiu.

As palavras de Francisco:

«Se a música do Evangelho deixa de ser seguida na nossa vida e se se transforma numa bela partitura do passado, deixará de saber romper as monotonias asfixiantes que impedem animar a esperança, tornando assim estéreis todos os nossos esforços.

Se a música do Evangelho deixa de vibrar nas nossas entranhas, teremos perdido a alegria que brota da compaixão, a ternura que nasce da confiança, a capacidade da reconciliação que encontra a sua fonte nos sabermo-nos sempre perdoados-enviados.



«Alguns poderão dizer: são tempos difíceis, são tempos complexos estes que nos cabe viver. Outros podem pensar que, na nossa sociedade, os cristãos têm cada vez menos margem de ação e de influência por causa de inumeráveis fatores, como por exemplo o secularismo ou as lógicas individualistas. Isto não pode conduzir a uma atitude de fechamento, de defesa e nem sequer de resignação»



Se a música do Evangelho deixa de tocar nas nossas casas, nas nossas praças, nos lugares de trabalho, na política e na economia, extinguiremos a melodia que nos provocava a lutar pela dignidade de cada homem e mulher de qualquer proveniência, enclausurando-nos no “meu”, esquecendo-nos do “nosso”: a casa comum que diz respeito a todos.

Se a música do Evangelho deixa de tocar, perderemos os sons que conduzirão a nossa vida ao céu, entrincheirando-nos num dos piores mal do nosso tempo: a solidão e o isolamento. A doença que nasce em quem não tem qualquer laço, e que se pode encontrar nos idosos abandonados ao seu destino, como também nos jovens sem pontos de referência e oportunidade para o futuro.

Pai, “que todos sejam um só, (…) para que o mundo creia”. Estas palavras continuam a ressoar com força entre nós, graças a Deus. (…) É o murmúrio constante desta oração que traça o caminho e nos indica a estrada a seguir. Imersos na sua oração, como crentes nele e na sua Igreja, desejando a comunhão de graça que o Pai possui desde toda a eternidade, encontramos nela a única via possível para todo o ecumenismo: na cruz do sofrimento de tantos jovens, idosos e crianças expostas muitas vezes à exploração, ao não sentido, à falta de oportunidades e à solidão. Enquanto olha para o Pai e para nós, seus irmãos, Jesus não cessa de implorar: que todos sejam um.

A missão, hoje, continua a pedir-nos e a reclamar de nós a unidade; é a missão que exige de nós que deixemos de olhar para as feridas do passado e larguemos toda a atitude autorreferencial para nos centrarmos na oração do Mestre. É a missão a reclamar que a música do Evangelho não cesse de tocar nas nossas praças.



«De cada vez que procuramos regressar à fonte e recuperar a frescura original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras repletas de significado renovado para o mundo atual»



Alguns poderão dizer: são tempos difíceis, são tempos complexos estes que nos cabe viver. Outros podem pensar que, na nossa sociedade, os cristãos têm cada vez menos margem de ação e de influência por causa de inumeráveis fatores, como por exemplo o secularismo ou as lógicas individualistas. Isto não pode conduzir a uma atitude de fechamento, de defesa e nem sequer de resignação.

Não podemos deixar de reconhecer que certamente estes tempos não são fáceis, especialmente para muitos dos nossos irmãos que vivem hoje na sua carne o exílio e até o martírio por causa da fé. Mas o seu testemunho conduz-nos a descobrir que o Senhor continua a chamar-nos e a convidar-nos a viver o Evangelho com alegria, gratuidade e radicalidade.

Se Cristo nos considerou dignos de viver nestes tempos, nesta hora – a única que temos –, não podemos deixar-nos vencer pelo medo nem deixar que passe sem a assumir com a alegria da fidelidade. O Senhor dar-nos-á força para fazer de cada tempo, de cada momento, de cada situação uma oportunidade de comunhão e reconciliação com o Pai e com os irmãos, especialmente com aqueles que hoje são considerados inferiores ou material de descarte. Se Cristo nos considerou dignos de fazer ressoar a melodia do Evangelho, deixaremos de o fazer?

A unidade a que o Senhor nos chama é uma unidade sempre em chave missionária, que nos pede para sair e chegar ao coração da nossa gente e das culturas, da sociedade pós-moderna em que vivemos, onde se formam as novas narrativas e paradigmas, chegar com a Palavra de Jesus aos núcleos mais profundos da alma da cidade. Conseguiremos realizar esta missão ecuménica se nos deixarmos impregnar pelo Espírito de Cristo, que é capaz de romper os esquemas aborrecidos nos quais pretendemos aprisioná-lo e nos surpreende com a sua constante criatividade divina. De cada vez que procuramos regressar à fonte e recuperar a frescura original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras repletas de significado renovado para o mundo atual.

Queridos irmãos e irmãs, continuai a tocar a música do Evangelho no meio de nós. Não cesseis de ressoar o que nos permite ao nosso coração de continuar a sonhar e a tender para a vida plena a que o Senhor a todos nos chama: ser seus discípulos missionários no meio do mundo em que vivemos.»


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: Catedral evangélica luterana de Riga, Letónia | 24.9.2018 | Sala de Imprensa da Santa Sé | D.R.
Publicado em 24.09.2018

 

 
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