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Para uma Igreja a duas vozes

Estamos a assistir a um enorme terramoto, que faz prever réplicas do que já aconteceu num país como a Irlanda. Desta vez em grande escala, a credibilidade da Igreja corre o risco de colapsar, tornando ao mesmo tempo invisível o sinal do Evangelho levado por incontáveis cristãos comprometidos em todo o mundo em obras fundamentais de compaixão, mediação, humanização. Mas o que está aqui em discussão não é só uma questão de sexualidade desviada no clero católico. É a própria instituição que se revela nas suas deficiências e nas suas derivas.

Neste sentido, a franqueza da carta que o Papa Francisco dirigiu recentemente ao «povo de Deus» não derroga a clareza da Palavra de Deus. O papa confirma a visão recentemente exposta na “Gaudete et exsultate” quando recorda uma verdade fundamental, mas obstinadamente diminuída, malgrado a “Lumen gentium”: o apelo à santidade consubstancial ao Batismo, portanto universal, portanto transversal a todas as vocações, para além das distinções hierárquicas multiplicadas no curso da história. A expressão «povo de Deus», muitas vezes olhada com suspeita após o seu regresso nos textos do concílio Vaticano II (1962-1965), recupera agora todo o seu peso e premência.

E é precisamente essa realidade teológica que o papa Francisco considera que deve recordar hoje com urgência, porque é o antídoto exato para o veneno do clericalismo que está por trás dos abusos criminosos do poder.

Este diagnóstico, que aponta para a fonte dos dramas atuais, para a responsabilidade de uma autoridade desviada numa instituição eclesiástica principalmente masculina, conduz a ver nas mulheres, no seio do «povo de Deus», as primeiras interessadas no apelo do papa para reagir.



Sem se mostrarem, desde o início do Evangelho, seguem Cristo gratuitamente com afeto incondicional. Tudo isto confere-lhes um papel insubstituível na conjuntura atual, na qual para a Igreja se trata de reencontrar uma inteligência realmente evangélica do poder como serviço



São elas, com efeito, as primeiras a saber o que são os abusos do poder eclesial. Religiosas ou não, conhecem demasiado bem o olhar altivo, condescendente, de desprezo a elas dirigido, a obediência imposta por homens que guardam ciosamente para si o prestígio do saber e a autoridade da decisão. É uma experiência que fazem todos os dias. Uma experiência que confirma a memória coletiva de uma palavra que pretendeu controlar a sua consciência e o seu corpo e que preferiu sempre falar no seu lugar, em vez de as escutar.

É claro que há, à margem, mulheres prontas a adotar atitudes clericais. É claro que há, em algumas comunidades, personalidades femininas predatórias, capazes de arruinar vidas como fazem os homens perversos. Mas, na maior parte dos casos, as mulheres têm um relacionamento diferente com o poder. Um certo sentido feminino de liberdade liberta-as dessa obsessão pelo poder que atormenta tantos homens. Elas têm uma boa capacidade de considerar com divertido desprendimento o jogo masculino dos títulos, das honras, das cores dos solidéus na instituição eclesial.

As mulheres estão, em geral, mais interessados ​​nas surpresas da vida, nos seus apelos e nos seus imprevistos, do que projetos de carreira. E, sem se mostrarem, desde o início do Evangelho, seguem Cristo gratuitamente com afeto incondicional. Tudo isto confere-lhes um papel insubstituível na conjuntura atual, na qual para a Igreja se trata de reencontrar uma inteligência realmente evangélica do poder como serviço.

Tudo isso proporcionou, contudo, que uma tradicional desconfiança clerical conceda às mulheres aquela atenção e aquela consideração que até agora lhes foram negadas. E também proporcionou que a eclesiologia [tratado sobre a identidade, missão e orgânica da Igreja] deixe de ser pensada, formulada e implementada apenas pelos homens, que são quase sempre clérigos.



O terramoto que sacode hoje a Igreja deve indubitavelmente resultar o mais depressa possível em disposições disciplinares e jurídicas radicais. Mas, a mais longo prazo, deve realizar-se uma revisão de fundo na inteligência que a Igreja tem de si mesma e, portanto, no seu governo



Porque, mesmo acreditando a existência neles da reta vontada de conhecer a Igreja segundo Cristo, é impossível evitar o filtro de uma visão masculina adotada por homens celibatários, educados na ideia do primado do sacerdócio ministerial, que os legitima no terrível poder de ter direitos particulares sobre outros. Daí a premente necessidade de integrar hoje a inteligência que as mulheres têm da Igreja, a partir da sua experiência do apelo evangélico e da sua fidelidade a Cristo.

Por outras palavras, a eclesiologia deve agora formular-se a duas vozes, conjugando o masculino e o feminino. Só assim se podem realizar verdadeiramente mudanças, só assim a instituição eclesial poderá desvincular-se da representação de um sacerdócio ministerial que continua sempre, em maior ou menor medida, a arrogar-se hierarquicamente a identidade sacerdotal de toda a Igreja. É assim que o sacerdócio batismal poderá encontrar a sua plena existência e o seu pleno exercício no seio da Igreja. Correlativamente, o sacerdócio ministerial será restituído à sua verdadeira grandeza, a do serviço da vida e da santidade do povo dos batizados, vivido numa fidelidade humilde e devota, à imagem de Cristo que «veio para servir, e não para ser servido».

O terramoto que sacode hoje a Igreja deve indubitavelmente resultar o mais depressa possível em disposições disciplinares e jurídicas radicais. Mas, a mais longo prazo, deve realizar-se uma revisão de fundo na inteligência que a Igreja tem de si mesma e, portanto, no seu governo. A Igreja católica terá a coragem de operar esta revolução espiritual? Disso depende evidentemente a sua credibilidade, ou seja, o seu tosto futuro no meio do mundo. Nenhuma cedência, nenhuma infidelidade pode desencorajar a fidelidade de Cristo à sua Igreja. Mas a Igreja deve hoje ter a coragem de romper com os hábitos de poder que fazem a terra fugir debaixo dos pés.


 

Anne-Marie Pelletier
Teóloga
In Donne, Chiesa, mondo (suplemento do jornal L'Osservatore Romano)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Homme et femme" (det.) | Pablo Picasso | 1958
Publicado em 03.10.2018

 

 
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