
O encontro inesperado do diverso
As celebrações em torno da figura e da obra de Paulo traduziram-se neste mês de Janeiro em
dispositivos diferenciados que dão a ver também os novos campos, linguagens e possibilidades que se abrem à acção pastoral da Igreja: uma peregrinação nacional, jornadas teológicas, um vasto conjunto de publicações endereçado a públicos diversos, formações permanentes do clero, além de um número disseminado de encontros de leitura espiritual dos textos fundadores. É um momento de estimulante
vivacidade que importa registar. Os Seminários diocesanos de Braga e de Almada aventuram-se na
organização de duas exposições, tentando uma ponte oportuna entre a Fé e a Cultura. Em Almada, uma mostra colectiva de artes plásticas agregada pelas palavras da Carta que João Paulo II escreveu aos artistas, e, no Conciliar da Arquidiocese do Norte, um magnífico conjunto de imagens de Ilda David'. São dois testemunhos de que o encontro profundo da Igreja consigo própria supõe, também, uma abertura a
isso que, numa formulação exigente, mas irrecusável, Maria Gabriela Llansol chamava “o encontro
inesperado do diverso”.
A Platão devemos o sintagma tantas vezes reproposto pela tradição cristã, “a beleza é o esplendor da verdade”. Já no Mundo Antigo, o estatuto da beleza é deslocado do mero plano estético e imanente. De uma poética da imitação sonda-se uma poética da presença, que é mysterium tremendum, não só invisível, mas infigurável: o mistério da própria verdade. Mas o contributo da teologia cristã leva esta questão ainda mais longe (e a um longe vertiginoso). Por exemplo, a Patrologia Oriental, devotada a esclarecer a função teofânica do ícone, operará desenvolvimentos que ninguém presumia: a imagem deixa de ser puramente visual e sensitiva (isto é, inscrita no território que em grego se diz fantasia), e torna-se, também ela, densidade invisível que a sua matéria visível, contudo, como que dá a ver. Na leitura apofática, cultivada por leitores tão extraordinários como Palamas, Gregório de Nissa ou Basílio, esse informulado pode, de facto, ser contemplado. “Felizes os vossos olhos, porque vêem”, garante a dado passo a Escritura. A imagem alcança a condição de profeta e vidente.
O encontro inesperado do diverso, que a Cultura incessantemente traz à Fé, é uma coisa muito séria.
José Tolentino Mendonça
in Página 1, 29.01.2009
30.01.2009
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