
Só ouvimos as perguntas a quem somos capazes de achar resposta
Se por vezes somos levados a desconhecer a profundidade das necessidades religiosas dos nossos contemporâneos é – parece-me – porque os homens em quem essas necessidades se encarnam com mais força são aqueles que não encontramos ou aqueles que enfrentamos como adversários. Simplesmente, neste ponto, quanto menos suspeitamos, mais nos julgamos autorizados, pela experiência, a negar: os homens desviam-se instintivamente daquele que sentem não ser para eles portador de luz.
“Só ouvimos as perguntas a quem somos capazes de achar resposta” (Nietzsche).
É indispensável uma continuidade entre o trabalho teológico, a acção apostólica e as correntes de vida espiritual. Esta continuidade não se processa num sentido único: deve haver acção e reacção, permuta. Teologia, apostolado, espiritualidade; cada uma destas três funções é essencial e nenhuma delas se pode exercer autenticamente sem a contribuição e o apoio das outras duas. Um teólogo que, no seu específico trabalho de teólogo, estivesse separado do seu apostolado e da vida espiritual não poderia cumprir perfeitamente o seu trabalho. Por outro lado, quantos perigos existem para a vida de apostolado ou espiritual, se faltasse a formação teológica! Quantos desvios e, acima de tudo, quantas deficiências! O teólogo recebe e, poor sua vez, dá. Exprime e guia.
“Todas as coisas” – disse Pascal – “são causa e são causadas”.
Antes de poder ser adaptado às modernas gerações, na sua apresentação, importa necessariamente que, na sua essência, o cristianismo seja igual a si mesmo. E, uma vez igual a si mesmo, está já muito perto de ser adaptado. Pois que faz parte da sua essência o ser vivo e sempre actual.
O grande esforço consiste, pois, em reencontrar o cristianismo na sua pureza e plenitude. Esforço que sempre e incessantemente se impõe, como sempre e incessantemente se impõe a sua obra de reforma no próprio seio da Igreja. Visto que, se o cristianismo é eterno, nunca somos definitivamente conquistados por ele. Por uma natural inclinação, nunca deixamos de o perder. Como o próprio Deus, o cristianismo está sempre presente e sempre inteiro, mas nós é que estamos também sempre – mais ou menos – ausentes. Escapa-nos na medida em que o julgamos possuir.
Henri de Lubac (1896-1991)
01.10.2008
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