
O irmão é protegido pelo seu próprio irmão
Diziam também os padres que havia um irmão asceta e de vida mortificada que queria ir à cidade para vender o seu próprio trabalho e comprar o necessário. Chamou um irmão e disse: “Vem comigo, iremos e voltaremos juntos”.
Quando chegaram às portas da cidade, o irmão mortificado disse ao seu companheiro: “Senta-te aqui, irmão, e espera por mim enquanto eu vou tratar dos meus assuntos, que não levarão muito tempo”. Entrou na cidade e vagueou pelas ruas. Uma mulher rica bajulou-o dizendo-lhe que casaria com ele se ele deixasse o hábito. Depois de ouvir isto, ele mandou a seguinte mensagem ao companheiro: “Regressa à tua cela, porque nunca mais me verás”.
O mensageiro contou ao irmão tudo o que tinha acontecido, mas o irmão respondeu-lhe: “Não agrada a Deus que se digam tais coisas do meu venerável irmão e eu não me irei embora deste lugar antes de ele voltar, como me prometeu”.
Ficou ali durante muito tempo, rezando e chorando sem tréguas, noite e dia, e a sua voz difundiu-se por toda a cidade. O clero, os monges, os governadores da cidade, incitavam-no para que regressasse ao seu mosteiro, mas ele não queria ouvir o pedido deles e respondia: “Farei o que me disse o meu irmão; não posso ir-me embora daqui; só quando regressar com ele ao mosteiro”. E ficou ali durante sete anos, queimado pelo calor do verão, empedernido pelo frio e pelo gelo do Inverno, sofrendo a fome e a sede, sem nunca deixar de chorar e de esperar, rezando pelo seu irmão.
Finalmente o companheiro acabou por vir um dia vestido com fatos caros e disse-lhe: “Irmão, eu sou aquele que veio contigo, o tal que era frade; levanta-te e regressa ao teu mosteiro”. O irmão olhou para ele e disse: “Tu não és esse tal, porque esse era monge, e tu és um leigo”.
Deus viu a pena daquele irmão, e ao fim de sete anos a mulher morreu; o irmão que a tinha desposado arrependeu-se, retomou o hábito monástico e partiu para se juntar ao companheiro aflito. Quando o viu, este levantou-se, tomou-o nos seus braços, abraçou-o, acolheu-o com alegria, e regressaram juntos ao mosteiro. Então o irmão retomou o trabalho da sua primeira ascese e conseguiu alcançar de novo os cumes da perfeição. Assim a paciência dum homem salvou um outro, e aquilo que foi dito aconteceu: “O irmão é protegido pelo seu próprio irmão, como uma cidade pela sua própria fortaleza”.
in Ditos e feitos dos Padres do Deserto, ed. Assírio & Alvim
25.11.2008
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