
Quando aceitamos o próprio sofrimento
Quando aceitamos o próprio sofrimento, quando com ele consentimos, quando o procuramos, quando o amamos, quando ele se nos torna o próprio sinal e o próprio objecto do amor generoso e desinteressado, quando transfiguramos a dor na acção perfeita, quando levamos a acção até ao momento da morte, quando a cada acto morremos e quando a morte é o acto por excelência, então, através deste triunfo da vontade que desconcerta a própria natureza, suscitamos no homem uma vida nova, uma vida sobre-humana.
Conhecemos o coração do homem pelo modo como recebe o sofrimento: o sofrimento é em nós a marca duma presença estranha. E mesmo quando se nos escapa para se introduzir, com seu aguilhão penetrante, na consciência, há sempre algo que de nós não depende, algo que se opõe ao espontâneo desejo e ao ímpeto primeiro da vontade. Por mais prevenidos que nos encontremos, por mais resignados que nos entreguemos a seus golpes, por mais ligados que possamos estar à sua austera e vivificante sedução, nem assim o sofrimento deixará de nos surgir como um estranho e um importuno; é sempre diferente do que esperávamos; e ao seu peso, mesmo aquele que o enfrenta, que o deseja e que o ama, não pode deixar de o odiar; destrói algo em nós, que substitui por algo que não é de nós. E eis porque só o sofrimento nos revela o escândalo da nossa liberdade e da nossa razão: não somos aquilo que queremos; e para querer tudo o que somos, tudo o que devemos ser, é preciso que saibamos compreender, que saibamos aceitar a lição e as graças que encerra.
O sofrimento é, para nós, como que uma sementeira: através dele algo entra em nós, sem nós e apesar de nós; saibamos aceitá-lo antes mesmo de o conhecer. Quando o lavrador lança à terra o seu mais precioso grão, esconde-o e disfarça-o até que dele nada parece restar. E, no entanto, é porque, precisamente, a semente foi lançada que ela resta sem poder ser arrebatada; tem que apodrecer pura ser fecunda. A dor é essa decomposição necessária ao nascimento duma mais plena obra. Aquele que não sofreu por determinada coisa não a conhece nem a ama. E tudo o que o sofrimento nos ensina cabe numa só palavra, mas só os que guardaram seu coração entendem: o sentido da dor é a revelação de tudo o que escapa ao conhecimento e à vontade egoísta; é a abertura da via do amor real, exactamente porque só ela nos pode desprender de nós próprios, para nos dar aos outros e para nos solicitar que nos demos aos outros.
O sofrimento impede-nos a aclimatação a este mundo e deixa em nós um mal-estar que não mais se apaga. Porque não sendo a adaptação mais do que um conseguido equilíbrio no restrito meio em que vivemos para fora de nós, é sempre uma novidade a afirmação que nos lembra que a dor nos acompanha aonde quer que vamos. É bom podê-lo sentir, porquanto o pior seria não sofrer, como num equilíbrio já encontrado, como num problema já resolvido. Por vezes, por entre a calma duma vida mediana ou por entre o abrigo das especulações, a vida parece seguir seguramente o seu caminho; é então que surge, real, a dor, e perante ela as mais belas teorias revelam-se inúteis ou absurdas. Logo que atingimos algo de vivo e de dorido, os sistemas caem por si, surge a nenhuma eficácia dos sistemas. O sofrimento é o elemento novo, inexplicado, desconhecido, infinito, que atravessa a vida como gume revelador.
Tal como ninguém pode amar Deus sem sofrer, ninguém vê Deus sem morrer. Nada vai até ele que não tenha ressuscitado primeiro; porque nenhuma vontade é boa se não soube sair de si própria para deixar o campo aberto à total invasão da Sua.
Maurice Blondel (1861-1949)
10.02.2009
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