
São João de Brito, prisioneiro
Dia de Santo Aleixo, vindo de viagem me prendeu o Padrane de Maravá (isto é, o principal do governo, que nós dizemos privado; em latim secundus a Rege) que se chama Cumara Pilei. Toniou-nos tudo. Quis que disséssemos: Xivá, Xivá (é o nome de um dos principais ídolos que os gentios por ali adoram), que dito esse nome nos largaria, dando-nos tudo; que nos honraria e daria licença para pregar a lei de Deus e me daria uma herdade (ou aldeia, como eles chamam e um cavalo. Respondemos (eu e seis cristãos que foram presos comigo) que não havíamos de dizer tal nome. Eu fui então esbofeteado, atado com dois grilhões e amarrado ao cepo dos párias na rua, aquela noite e o dia seguinte até às duas horas da tarde. Os cristãos, principalmente Xeluem, catequista, e Xurapem, foram espancados tão cruelmente que lhes arrancaram a pele das costas e do peito e todos foram presos ao cepo comigo.
Ao outro dia foram submetidos a tratos de água e receberam muitas pancadas e feridas. Retrocedeu ali um Cule [homem de carreto que parece levava algumas virtualhas do Padre] e era um dos seis; e lago o honraram e o deixaram livre; e nós fomos levados em companhia do Padrane e seu exército à fortaleza de Calincail com notável crueldade. Ali deram cruéis tormentos a Xurapem que se tem havido como glorioso mártir. Nós fomos condenados a ser atenazados: veio fogo, tenazes e os mais aparelhos, mas não chegou a execução por se fazer noite.
A mim lançaram-me dois grilhões e aos outros um só: e fomos metidos em um rigoroso cárcere, onde estivemos até 28 deste e fomos trazidos e amarrados com cordas a este Paganei, onde chegámos mortos de fome e sede e abrasados do caminho; e em chegando nos intimaram sentença de morte se não disséssemos Xivá, Xivá. E como respondêssemos que não havíamos de dizer tal, levámos muitos coices, bofetadas, açoites, pancadas e tratos; e fomos lançados em grilhões; e o Padrane se partiu a confirmar a sentença com o Maravá; e cada hoje esperamos pela resposta, e estamos muito contentes e conformes com a divina vontade, que nos fez tanta mercê como é dar a vida por sua santa lei. Vossa Reverência [Padre Provincial] me lance sua santa bênção e peça aos Padres todos me recomendem muito a Deus, para que me dê a última graça; que eu me lembrarei de todos no Céu.
Julho, 30 de 1686.
Filho em Cristo de Vossa Reverência
João, condenado à morte por Cristo
04.02.2009
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