
Da purificação
Convém aqui anotar que este conhecimento de amor e purificação, ou luz divina, age na alma, purificando-a e dispondo-a a unir-se consigo perfeitamente, do mesmo modo que o fogo age na madeira para a transformar em si mesmo. Porque o fogo material, ao aplicar-se à madeira, começa por a fazer secar, expulsando-lhe a humidade e fazendo-a chorar a água que em si contém. Assim a vai pondo negra, escura e feia e mesmo de mau odor, e à medida que a pouco e pouco a seca, vai-a puxando para a luz e expulsando todos os acidentes, feios e escuros que, contrários ao fogo, ela contém. E, finalmente, começando a inflamá-la por fora e a aquecê-la, acaba por transformá-la em si e por fazê-la formosa como o próprio fogo. Nesse ponto, já da parte da madeira nenhuma paixão ou acção própria há, salvo o peso e quantidade mais espessa que a do fogo, porque tem em si as propriedades e acções dele: está seca, e seca; está quente e aquece; está clara, e esclarece; está leve muito mais do que antes; e foi o fogo que nela fez estas propriedades e efeitos.
Pois deste mesmo modo devemos filosofar acerca desse divino fogo do amor de contemplação, que antes que una e transforme a alma em si, primeiro a purga de todos os seus acidentes contrários. Faz vir à superfície as suas fealdades e põe-na negra e abominável, tal que parece pior assim, e mais feia e abominável do que antes costumava ser. Porque, como esta divina purificação anda removendo todos os males e humores viciosos, que, estando mais arreigados e assentes na alma, não se deixavam ver por ela, de tal modo que ela não sabia que tinha em si tanto mal - agora, para que os expulse e aniquile, põem-se-lhe diante dos olhos e claramente os vê, alumiada esta obscura luz de divina contemplação. E ainda que não seja pior do que antes, nem em si nem para com Deus, como vê em si o que dantes não via, parece-lhe claro que está em estado tal que não é digna de que Deus a veja, como ainda merece que Deus a deteste; e parece-lhe que Ele a detesta já.
S. João da Cruz
20.11.2008
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