Adriano Moreira
A persistência criativa da valorização essencial das coisas pessoais e colectivas
A justificação do júri é conhecida: premeia-se este ano a personalidade humana e pública do Professor Adriano Moreira, pela consistência própria e pela oportunidade do tempo.
Pela consistência própria, pois não é tão habitual assim verificarmos num longo percurso, entre idades do mundo e mudanças de regime, a continuidade criativa duma linha de pensamento e acção tão juvenilmente definida. Continuidade criativa, como a da terra fecunda que, por isso mesmo, sempre gera.
Na sua A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas, recentemente publicada, lega-nos a revisão geral de muitos anos e a apreciação testemunhal de muitos factos que, sendo particularmente seus, foram e são de nós todos, os portugueses. Aí o encontramos sempre idêntico, aí nos deparamos sempre relatados, no rincão original ou na diáspora que somos.
Pessoalmente, relembrei conversas de há mais de quatro décadas, quando no Colégio Universitário Pio XII o comecei a ouvir com máximo proveito. Portuguesmente, reli-o com total adesão de lembrança passada e cuidado presente, quando, por exemplo, se cita a si mesmo, dum discurso de 1964, referindo os portugueses, mundo fora: “… não é aconselhável desfazer solidariedades forjadas no passado em leal cooperação, não é aconselhável ignorar os interesses fundamentais de todos os que pertencem ao mesmo sistema de cultura geral, não é útil enfraquecer qualquer dos pilares de uma civilização construída e mantida por um trabalho comum. […] A palavra é uma arma que destrói exércitos, e a acção é uma forma de rezar capaz de mover montanhas: pregar os nossos valores essenciais, agir de acordo com eles, não ignorar os desafios ideológicos, esclarecer, reivindicar a integridade de uma concepção de vida, é uma forma, que se afigura importantíssima, de servir as solidariedades que desejamos ver desenvolvidas e fortalecidas com autenticidade” (A Espuma do Tempo, p. 321-322).
E aqui estamos na oportunidade do tempo e do prémio. Globalmente inseridos num mundo ainda mais imediato e próximo, continuamos a ser nós mesmos, precisamente como povo de partilha. Por isso nos mantemos e devemos manter articulados em nexos culturais cuja persistência se garante juridicamente e aviva culturalmente. Como Adriano Moreira e resistentes ao canto da sereia individualista ou libertária, mesmo quando esta apresente como “progressos de civilização” os mais demonstráveis retrocessos, seremos institucionais, para sermos personalistas, livres e solidários. No sentido alargado e transposto destas suas palavras: “De facto, a defesa da dignidade dos homens exige instituições poderosas. Uma Universidade realmente autónoma, científica, cultural e pedagogicamente, com os meios à medida dessas autonomias; as Ordens e Sindicatos verdadeiramente representativos e não meras repartições correspondentes dos Ministérios; as Igrejas independentes e respeitadas; uma administração local que seja o viveiro dos servidores da coisa pública; um empresariado esclarecido, responsável e correndo os riscos; os centros de investigação, em todos os domínios, livres de procurarem alternativas úteis para a nova sociedade; os direitos do homem protegidos por uma jurisdição independente, mesmo quando seja o Estado quem está em causa; uma opinião pública dispondo de um respeitado direito à informação e de uma honesta possibilidade de participação. Um Estado que não pode ser independente da ética, para se limitar a si próprio e para saber os limites que não pode deixar de estabelecer” (A Espuma do Tempo, p. 360).
A citação não é longa. Longo revela-se o caminho para finalmente a cumprir, ainda hoje. O prémio que lhe entregamos, caríssimo Professor Adriano Moreira, assinala o muito que lhe devemos pela persistência criativa com que nos consolidou nesta valorização essencial das coisas, pessoais e colectivas. Essas mesmas que, ensaiadas no passado, nos esperam agora no futuro. Assim tenhamos todos alguma da sua envergadura “trasmontana”, que não parte nem desiste. - Com todos os parabéns dos que continuamos a contar consigo!
D. Manuel Clemente
Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
Acto de Entrega da edição de 2009 do «Prémio
de Cultura Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes»
Fátima, 05.06.200
11.06.09

Foto: António Pedro Monteiro

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