
A verdadeira libertação do tempo
A reflexão sobre os tempos livres tem de ser reconduzida necessariamente a um horizonte antropológico (...) que englobe as concepções de homem e de existência.
A alegria não é uma distracção: é, antes, uma forma radical de atenção àquilo que somos. A alegria não é um produto de consumo rápido, nem é uma questão cuja procura se possa substituir ou calar no coração humano, deixando-a apenas à estratégia comercial das indústrias do entretenimento. “Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: ‘Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos’” (Lc 10, 21). Na experiência da alegria joga-se a revelação do sentido profundo e mais absoluto de todas as vidas. Não é simplesmente uma forma de bem-estar. Dir-se-ia, antes, uma arte de bem-ser. Jesus, no mistério da sua Encarnação (mistério que nos provoca para um espanto sem fim!), escolheu a condição humana. Tomou a sério e com realismo as várias situações históricas em que a nossa humanidade se desenvolve, apresentando-Se, desde o princípio, como Rosto da alegria que Deus, face às nossas declarações de impossibilidade, torna possível: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4, 18-19).
Um dos dramas da hora presente é que é tão estreito o cânone da felicidade. Os modelos propagados deixam de lado a maior parte de nós. Jesus, porém, ousou ler o tempo do Homem, este tempo quebradiço e opaco que por vezes parece ser o do nosso destino comum, como desenho de uma plenitude maior. A verdadeira libertação do tempo é a que permitir o Homem.
in Do tempo livre à libertação do tempo
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
© SNPC | 29.07.2008
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