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Sim, cremos: O Credo comentado pelos Padres da Igreja

A Universidade Católica Editora lança esta sexta-feira (15 de novembro), em Lisboa, a obra "Sim, cremos: O Credo comentado pelos Padres da Igreja", de Isidro Pereira Lamelas, especialista em Patrologia e professor da Faculdade de Teologia.

«Tem sempre presente a tua fé, examina-te a ti mesmo; que o Símbolo da fé seja para ti como um espelho. Olha-te nele para ver se realmente crês em todas as verdades que professas acreditar e alegra-te todos os dias na tua fé, pois esta é a tua grande riqueza» (Santo Agostinho, Sermão 58,11,13).

«Estas palavras de um dos autores mais citados nesta obra traduzem bem o intuito da mesma: dar a conhecer com a merecida profundidade a “grande riqueza” da fé da Igreja (sim, cremos) que cada cristão faz sua no dia do baptismo (sim creio)», assinala a nota de apresentação do volume.

O livro contém «os melhores textos» redigidos pelos Padres da Igreja» - escritores que, a seguir à geração dos apóstolos e até ao séc. VIII, se notabilizaram pela santidade de vida e pela sintonia com o pensamento da Igreja - sobre as grandes afirmações da fé que ficaram condensadas no Credo.

O lançamento, previsto para as 17h00 na Universidade Católica (edifício da Biblioteca, 2.º piso, Sala de Exposições), insere-se na celebração conclusiva do Ano da Fé organizada pela Faculdade de Teologia.

O Credo foi um dos eixos do Ano da Fé, que se encerra a 24 de novembro, último domingo deste ano litúrgico.

Apresentamos, seguidamente, um excerto da obra.

 

Sim, cremos

É conhecida a axiomática afirmação de Tertuliano: Fiunt, non nascuntur christiani (Tertuliano, Apologeticum, XVIII). Não se nasce cristão, nem se é cristão por herança, mas tornamo-nos cristãos pela fé e pelo segundo nascimento batismal. Ou, como ensina Agostinho, «não é a geração que faz os cristãos, mas a regeneração» (christianos non facit generatio, sed regneneratio; Agostinho, De peccatorum meritis et remissione et de baptismo parvulorum, 3,9). É, pois, através do batismo, isto é, pela fé batismal que se nasce verdadeiramente.

Com base nesta convicção, a Igreja desenvolveu ao longo dos séculos todo um caminho de iniciação e formação que visava gerar “o homem novo”. Esta nova identidade era assinalada nomeadamente através do Credo ou Símbolo da fé que sempre foi considerado como um resumo do Evangelho e a cédula de identidade do cristão.

Por isso, Santo Agostinho e os demais Padres da Igreja repetem muitas vezes palavras como estas: «Tem sempre presente a tua fé, examina-te a ti mesmo; que o Símbolo da fé seja para ti como um espelho. Olha-te nele para ver se realmente crês em todas as verdades que professas acreditar e alegra-te todos os dias na tua fé, pois esta é a tua grande riqueza» (Santo Agostinho, Sermão 58,11,13). Ou ainda:

«O Símbolo é, pois, a regra da fé, compendiada de forma breve, para instruir sem sobrecarregar a memória. Com poucas palavras dizem-se coisas com as quais muito se alcança. Chama-se Símbolo, porque com ele se reconhecem os cristãos» (S. Agostinho, Sermão 213, 2).

Sabemos que o Credo que hoje professamos nasceu no contexto da tríplice interrogação batismal: Crês em Deus Pai; Crês em Jesus Cristo, Crês no Espírito Santo. A partir desta confissão trinitária desenvolveram-se ao longo dos séculos diversas fórmulas de Credo que respeitaram sempre esta fórmula trinitária e os conteúdos fundamentais da fé da Igreja. Por isso, é tão correto e necessário dizer “sim, creio”, como confessar “sim, cremos”.

S. Ireneu exprime bem esta ideia quando afirma que «a Igreja, embora dispersa por todo o mundo até aos confins da Terra, tendo recebido dos Apóstolos e dos seus discípulos a fé, [...] guarda [esta pregação e esta fé] com tanto cuidado como se habitasse numa só casa; nela crê de modo idêntico, como tendo um só coração e uma só alma; prega-a e ensina-a e transmite-a com voz unânime, como se tivesse uma só boca» (Ireneu, Adv. Haer. I,10,1-2).

Com base na fé trinitária professada no Baptismo, desenvolveram-se, primeiro as chamadas Regras da fé que compendiavam a doutrina apostólica revelada nas Escrituras. Por isso Tertuliano pode sentenciar que «a fé repousa numa regra» (fides in regula posita est, Tertuliano, De praescriptione haereticorum, XIV,4). As expressões “regra da fé” e “regra da verdade” eram já no século II para designar os conteúdos fundamentais do cristianismo, isto é, a doutrina dos Apóstolos recebida e transmitida pela “Grande Igreja”.

Eis um exemplo de fórmula dessas “Regras de fé”, professadas pelos primeiros cristãos dos primeiros três séculos:

«A regra da fé é absolutamente una, só ela é imutável e irreformável, segundo a qual acreditamos num só Deus omnipotente e criador do mundo, e no seu Filho, Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, crucificado sob Pôncio Pilatos, ressuscitado dos mortos ao terceiro dia, subido ao céu, que agora está sentado à direita do Pai e virá julgar os vivos e os mortos, depois de ter ressuscitado também a carne» (Tertuliano, Virginibus velandis,1,3).

Estas “Regras da fé”, enquanto memorando dos pontos capitais da doutrina revelada, constituiam, como diz Ireneu, «o fundamento do edifício e o que confere firmeza à conduta» cristã. Como tal, são a regra dos que «têm como regra a própria verdade».

A partir das referidas “Regras de fé” foram surgindo fórmulas de profissão de fé mais elaboradas ou desenvolvidas, dando lugar aos Credos. Desde o antiquíssimo Credo Romano, considerado realmente “apostólico”, até ao Credo Niceno-constantinopolitano que nós hoje professamos nas eucaristias solenes, a história do anúncio e defesa da fé católica ao longos dos séculos constitui uma aventura realmente admirável e apaixonante. Pela fé professada no Credo deram a vida miríades de mártires, à reflexão e aprofundamento da fé batismal dedicaram todo o seu tempo e inteligência grandes sábios e santos, na fé da Igreja viveram gerações e multidões de crentes que com a vida e a palavra procuraram ser fieis ao que professaram no batismo. Na verdade, o Credo foi sempre concebido como programa de vida a ser escrito no coração e na mente, conforme ensinavam os bons catequistas:

«Quero que tenhais clara noção de que o Símbolo não deve ser escrito, uma vez que o deveis restituir (non debet scribi, quia reddere illud habetis). Que ninguém o escreva. Mas porque razão? Recebémo-lo com a condição de não ser escrito. Mas então que fazer? Memorizá-lo. Mas tu perguntas: ‘como pode ser recordado, se não se escreve?’ Melhor se pode recordar se não se escrever. Mas como? Escutai: quem escreve, como está seguro de reler não medita todos os dias no que escreve. Ao contrário, quem não escreve, receia esquecer e, por isso, repete-o todos os dias» (S. Ambrósio, Explanatio Symboli, 9).

A interdição de “escrever” o Credo não era motivada apenas pelo cuidado de evitar que ele caísse nas mãos dos não iniciados, mas tinha sobretudo a ver com a essência da fé e seu processo de transmissão. Como diz Paulo, a fé nasce da escuta (Rm 10,17). E não esqueçamos que o Símbolo deriva directemente do diálogo original que tinha lugar no baptismo (crês?... Creio!). Fica assim claro que a fé não resulta nem de uma locubração individual de alguém que sozinho toma a resolução de aderir a uma doutrina ou modo de vida; mas também não é uma filosofia; não é uma opção de escola nem resulta da leitura de livros ou da reflexão racional ensimesmada, mas nasce da audição. Não é, como diz o anónimo A Diogneto «resultado de conquista do génio irrequieto de homens curiosos, nem uma doutrina humana» (A Diogneto, V,3.), mas algo que vem de fora e me é anunciado e testemunhado oral e vitalmente.

Quando, mormente a partir do século IV, começam a adensar-se os debates teológicos motivados pelas heresias ou deficientes interpretações do legado apostólico, foram-se adotando cada vez mais fórmulas de Credo comuns às diversas Igrejas. É nesta fase que se passa do Credo obrigatoriamente oral ao Símbolo escrito e alargado a outros usos. Esta passagem da profissão de fé oral ao seu registo escrito é ainda vista por S. Hilário como indício de uma crise: «Não deve parecer-nos estranho que com frequência as profissões de fé tenham começado a ser expostas por escrito: é a heresia que impõe tal necessidade. Quando a fé se encontra em perigo, é necessário algo de escrito [...] nem seria necessário ler aquilo que desde o baptismo se conserva na mente. Mas a necessidade tornou costume que as profissões de fé sejam expostas e subscritas»» (S. HILÁRIO, Sínodos e fé dos orientais, 63).

Isto é, os cristãos sempre entenderam a sua fé como algo de vital e não como uma doutrina do âmbito concetual. Em rigor, o Credo não é para se escrever mas para se viver e cuidar como grande tesouro que a Igreja quer partilhar com todos:

«Para o cristão, a fé antecede tudo o demais. Por isso mesmo, em Roma, são chamados “homens de fé” os que foram batizados. Também nosso Pai Abraão foi justificado pela fé, e não pelas obras. Concluiremos, pois, assim: recebestes o batismo, tendes fé. Não seria justo que eu julgasse de outro modo, pois não terias sido chamado à graça, se Cristo não te tivesse julgado digno por sua graça… Por conseguinte, tu que deves a fé a Cristo, guarda esta fé, muito mais preciosa que o dinheiro. De facto, a fé equivale a um património eterno; enquanto o dinheiro é um património temporal. Lembra-te, pois, também tu continuamente, daquilo que prometeste» (S. AMBRÓSIO, De sacramentis, I,1; II,8).

Mas não vale o mesmo qualquer “fé” ou “credo”. A verdadeira fé é, de facto, um dom de Deus e é, ao mesmo tempo, uma exigência de frutos:

«Que é crer em Deus? Amá-lo acreditando, ter amizade confiando nele, ir ao encontro dele com a fé e incorporar-se nos seus membros. Esta a fé que Deus nos pede e não acha o que Ele pede se Ele mesmo não der o que pede. Que é a fé, senão o que o Apóstolo define noutro passo, dizendo: Nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa, mas a fé que opera pela caridade (Gl 5,6). Não vale, pois, qualquer fé, mas a que age pela caridade. Possui tu esta fé e entenderás sua doutrina; isto é, entenderás que Cristo é Filho de Deus, que é a Doutrina do Pai, e não é de si mesmo, mas Filho do Pai» (S. Agostinho, In Iohannis Evangelium tractatus, 29, 6).

Por isso, os Padres da Igreja falam da fé como um “Edifício em construção” sobre a Pedra que é Jesus Cristo:

«A fé é pois composta por muitas coisas e está embelezada com muitas cores. Ela é realmente semelhante a um edifício construído com muitos materiais, e cuja fábrica/máquina se eleva até ao alto. Fica a saber, meu caro, que tal como nos fundamentos de um edifício se colocam pedras e depois, sobre as pedras, se eleva toda a construção até que esteja completa: assim também o fundamento de toda a fé é aquela pedra firme que é nosso Senhor Jesus Cristo. Sobre esta pedra apoia-se a fé; e sobre a fé levanta-se todo o edifício até que esteja ultimado. O fundamento é o princípio de toda a construção. Quando, de facto, o homem se aproxima da fé, apoia-se sobre esta pedra que é Nosso Senhor Jesus Cristo. E o seu edifício não é abanado pelos vendavais nem afectado pelos ventos, nem derrubado pelas tempestades, porque a sua construção se eleva sobre o alicerce da pedra firme. O facto de eu chamar “pedra” a Cristo, não é invenção minha, mas são os próprios profetas que o chamaram antecipadamente “pedra”.

Mas para já, escuta algo mais acerca da fé que se apoia sobre a pedra, e acerca do edifício que se eleva sobre a pedra. Em primeiro lugar, o homem acredita; e quando acredita ama; e quando ama espera; e quando espera, é justificado; e quando é justificado é realizado; e quando é realizado é consumado. Quando se elevou toda a construção e fica consumada e completada a obra, então torna-se casa e templo para morada de Cristo, conforme disse o profeta Jeremias: Templo do Senhor, templo do Senhor! o templo do Senhor sois vós, de endireitardes vossos caminhos e vossas acções (Jr, 7,4-5). E como disse ainda Deus por meio do profeta: Habitarei entre eles e caminharei entre eles (Ex 25,8). Também o bem-aventurado Apóstolo fala deste modo: Vós sois o templo de Deus e o Espírito de Cristo habita em vós (1Cor 3,16). E também nosso Senhor falou desta maneira aos seus discípulos: Vós estais em mim e eu em vós (Jo 14,20).

Mas quando a casa se tornou lugar de habitação, então o homem começa a pensar no que é necessário a quem habita o edifício. É como se um rei ou personagem ilustre tomasse morada numa casa dando-lhe um nome régio: a este rei são necessários todos os objetos relativos à realeza e todos os serviços requeridos para a dignidade real. De facto, o rei não toma morada numa casa desprovida da devida comodidade nem nela habita, mas antes exige o completo ornamento da casa, para que nada lá falte. E se na casa onde mora o rei falta algo, o mordomo da casa será punido de morte por não ter preparado o serviço do rei. Do mesmo modo o homem que se torna casa e lugar de habitação de Cristo, veja o que é devido ao serviço de Cristo que nele mora e que tipo de decoração lhe agrada. Ele, de facto, construiu já o seu edifício sobre a pedra que é Cristo: sobre a pedra está apoiada a fé e sobre a fé se levanta todo o edifício.

Mas para morar na casa requer-se o verdadeiro jejum que se apoia sobre a fé, a oração pura que pela fé se torna aceite e a caridade que é composta de fé; é também necessária a esmola que pela fé é distribuída, a humildade de que é adorno da fé; quem aí habita prefere a virgindade que na fé é amada e a santidade que pela fé se consolida; busca ainda a sabedoria que na fé se reencontra, e pratica a hospitalidade que pela fé se excede; busca a simplicidade que se mistura com a fé e a paciência que na fé se cumpre; é sábio na mansidão que na fé se conquista e amante da paz que na fé se ostenta; requer ainda a pureza que na fé se guarda. Todos estes elementos são requeridos pela fé a qual se apoia sobre o alicerce da pedra firme que é Cristo. Essas são as obras que se requerem para o rei Cristo, que mora nos homens que são construídos com tais obras.

Mas tu talvez me digas: “Se Cristo é colocado como fundamento, como é que o mesmo Cristo habita no edifício quando este está acabado?” Ambas as coisas foram garantidas pelo bem-aventurado Apóstolo, quando afirma: «eu como sábio arquiteto coloquei o fundamento», indicando com isso exatamente o fundamento, como quando diz: «ninguém pode colocar um outro fundamento fora deste que foi estabelecido, porque esse fundamento é Jesus Cristo» (1Cor 3,1011). Que Cristo habita no edifício é a palavra de Jeremias já citada o qual chama templos aos homens e diz que Deus habita neles. Por seu lado, o Apóstolo diz: «O Espírito de Cristo habita em vós» (1Cor 3,16); e nosso Senhor disse: «Eu e meu Pai somos um» (Jo 19,14-15). É pois pacífica a sentença que afirma que Cristo habita naqueles homens que creem nele que é o fundamento sobre o qual se eleva todo o edifício» (Afraates, Demonstração da fé, 24).

«Se permanecerdes constantes na fé que começou em vós que acreditais, onde não chegareis? Toma atenção ao início e onde te conduz. Amaste o alicerce, contempla agora o cume, e de cá de baixo eleva o teu olhar às alturas. A fé implica um certo abaixamento; na visão, na imortalidade e na eternidade não há lugar para abaixamento: tudo é grandeza, elevação, segurança plena, eterna estabilidade, sem ameaças de inimigos ou que tenha fim. É grandioso aquilo que começa a partir da fé e, contudo, é desprezado, do mesmo modo que numa construção, os não entendidos costumam dar pouca importância aos alicerces. Cava-se um grande fosso, amontoam-se lá pedras sem ser trabalhadas nem embelezadas; nada há nisto de belo como nada de belo há na raiz de uma árvore. Porém, tudo o que numa árvore te agrada veio das suas raízes. Olhas para a raiz e não te agrada, contemplas a árvore e ficas admirado. Insensato! Tudo o que admiras veio do que não te agrada. De igual modo, parece-te sem grande valor a fé dos crentes, porque não tens balança para a pesar. Mas escuta onde ela conduz e verás medir o seu valor. O próprio Senhor, noutra circunstância, diz: Se tivésseis fé como um grão de mostarda (Mt 17, 19). Que há de mais humilde e ao mesmo tempo de mais enérgico? Que há de mais pequeno e ao mesmo tempo mais fecundo? Portanto, também vós – diz o Senhor – se permanecerdes na minha palavra, em que acreditastes, até onde podereis crescer? Sereis realmente meus discípulos e conhecereis a verdade (Jo 8, 31-32) (S. Agostinho, In Iohannis Evangelium tractatus, 40,8).


 

Isidro Pereira Lamelas
In "Sim, cremos: O Credo comentado pelos Padres da Igreja", ed. Universidade Católica Editora
Publicado em 14.11.2013 | Atualizado (mudança de grafismo da página) em 09.06.2025

 

 

 
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