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As grandes festas do Bom Jesus de Matosinhos

Pelo número de ex-votos se vê a devoção dos homens do mar pelo Senhor de Matosinhos. Em muitas situações de tormenta - remotas, outras mais recentes -, a evocação do seu nome aplacou a fúria das águas e dos ventos. Milagres de que os pescadores de Matosinhos e redondezas não duvidam e milhares de forasteiros, todos os anos, agradecem, num longa celebração, onde o sagrado e profano partilham o tempo e espaço. O Senhor de Matosinhos, uma das maiores romarias do Norte, que o ano passado recebeu 1 milhão de visitantes, começou a 1 de Maio e prolonga-se até ao dia 18.

Em termos de calendário, é uma festa móvel: o dia grande é sempre a uma 3.ª feira, sete semanas depois da Páscoa (ou a 3.ª feira a seguir ao Domingo de Pentecostes). Este ano será a 13 de Maio. Neste dia, feriado municipal, a Missa Solene será presidida por D. João Miranda Teixeira, Bispo Auxiliar do Porto.

No altar-mor da Igreja do Bom Jesus de Matosinhos encontra-se aquele que, segundo a lenda, é um dos mais antigos crucifixos do mundo.

Impressionado com os sofrimentos de Jesus, Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21) fez cinco imagens do Santo Crucifixo em outros tantos madeiros da Judeia, simbolizando assim as cinco chagas do Mestre. Ao que se julga, a primeira dessas imagens está no santuário de Matosinhos, outra encontra-se em Berio, na Síria, uma terceira em luca, na Itália, ainda uma outra em Burgos, na Espanha, e a quinta em Ourense, na Galiza. Conforme a lenda, Nicodemos auxiliou a descida de Cristo na Cruz; daí o rosto dessas cinco imagens seja o único verdadeiro retrato, pois foi copiado do real ou guardado numa memória devota.

A lenda conta que, perseguido pelos judeus, depois de ter executado as suas imagens do Mestre, Nicodemos decidiu lançá-las ao mar. Alguém as recolheria, confiou ele. Ora esta de que tratamos, sem ser notada, pelas águas passou do Mediterrâneo ao Atlântico através do estrito de Gibraltar. Daí, as correntes trouxeram-na à costa de Matosinhos. Recolheram-na os pescadores, num gesto que ficou assinalado pelo Senhor do Padrão, monumento erigido junto àquela praia, à volta do qual ainda hoje, a 1 de Novembro, se iluminam com velas em prece por aqueles que perderam a vida no mar.

Voltando à lenda, os pescadores ficaram tristes por faltar um braço à imagem. Procuraram-no durante dias pelos areais. Em vão. Encarregaram então sucessivos carpinteiros de fazer um braço que encaixasse. Sem sucesso. Porém, uma tarde, andando uma mulher ao marisco e à lenha ao longo da praia, recolheu um pedaço de madeira que parecia o braço de uma imagem, mas a que não deu importância. Com outros cavacos, pô-lo ao pé da lareira e na sua vez para as chamas o lançou. Aconteceu então algo surpreendente. O braço foi arrojado pelas chamas para o meio da sala.

Igreja do Bom Jesus de Matosinhos

A mulher olhou melhor o braço e foi mostrá-lo aos pescadores que tinham guardado a imagem. Quiseram experimentar se servia e mal o encostaram pegou-se tão bem que nem sinal ficou de colagem e nunca mais saiu. E assim começou, desde o séc. XVI, o culto do Senhor de Matosinhos.

Francisco Mangas, Amin Chaar in Diário de Notícias
Carlos Pereira Santos in Sexta, 24.04.2008
Viale Moutinho, in Lendas de Portugal

07.05.2008

 

 

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