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Culturas

Mia Couto: A mestiçagem é a nossa própria condição

Em entrevista ao Jornal de Letras, Mia Couto fala do seu último romance, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, sobre o encontro e desencontro de culturas, que gera sínteses e aproximações, mas também estranheza e incompreensão.

 

Quando se fala de África, dá-se muitas vezes o exemplo do autocarro que só parte quando está cheio. Mais no sentido do pitoresco, do que da exacta compreensão. É isso que está em causa?

Quando se reconhece a diferença a primeira tentativa é folclorizá-la. Basta ver a maneira como se reduzem os componentes religiosos da africanidade a um pensamento mágico, com umas cerimónias, sem se entender que se trata de um sistema integrado e filosófico. Se calhar não devem ser chamadas religiões, são percepções totais do mundo. Não é possível compreender Moçambique sem o perceber. tal como não é possível perceber Portugal sem conhecer o catolicismo, no qual, segundo um estudo recente, a grande maioria dos portugueses reconhece a sua identidade, mesmo que nem todos sejam católicos.

 

Com essa mensagem subliminar pretende desmistificar uma certa imagem de África?

É esse o objectivo. África não é uma coisa assim tão estranha, mas tem de ser percebida. Não basta pedir aos europeus que a entendam. Também os africanos têm de se revelar para além das ideias feitas que importaram sobre si próprios. O drama é mais profundo porque os africanos se revêem numa identidade que foi construída. Uma ideia de África exótica que foi avançada, como uma essência, para responder à tese segundo a qual não temos história ou cultura. Mas uma nova geração está a nascer e a trabalhar de uma outra maneira, afirmando-se sem bandeiras nem pressas.

 

Na Europa, 2008 é dedicado ao diálogo intercultural. A ideia de multiculturalismo agrada-lhe?

Agrada-me se a minha cultura não for vista como a cultura do outro. E se se entender que dentro de cada um de nós existem culturas diversas. Não há culturas puras. A ideia de mestiçagem também me agrada, mas há sempre o perigo de se pensar que ela surge porque há duas linhas puras que depois se misturam. Mas essas linhas puras já estão misturadas. A mestiçagem é a nossa própria condição. O multiculturalismo é muito mais antigo do que pensamos.

 

A sociedade consumista e capitalista tende a anular essa diversidade?

Sem dúvida, mas não se pode culpar só um sistema económico ou político. Provavelmente, há qualquer coisa que está para além dos sistemas em que nos arrumamos: sou homem, branco, europeu, está aqui a minha cultura. Ser europeu, por exemplo, já é um produto histórico com muitas misturas. Ainda mais em Portugal.

 

Mas não lhe faz confusão ver pessoas com os mesmos hábitos, gostos e comportamentos em todo o mundo, como acontece coma chamada geração MTV?

Tenho sentimentos ambivalentes. Vejo com muita preocupação que os moçambicanos mais jovens queiram as mesmas coisas que a geração MTV e sonhem ser americanos, o que de alguma maneira já são. Também acho, porém, que alguns dos jovens que embarcaram no rap, no hip-hop, se redescobrem depois. Porque também o rap tem elementos cruzados, mestiços. Tem África dentro. Quando aquilo parecia só americano, eles descobrem que os passos do Michael Jackson, ou de outros ícones da NTV, são muito parecidos com os dos seus avós. Tudo se converteu num negócio, mas o aproveitamento comercial e industrial não consegue anular completamente a marca da história.

 

A síntese é mais forte que a tese?

Exactamente. Por muito poderosas – e fracamente empobrecedoras – que sejam essas tendências não são omnipotentes. Também ser-se americano, hoje, não pode ser desligado da herança que levaram os escravos africanos.

 

Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo [último romance do autor] uma personagem diz que quando se construírem mais estradas as pessoas passarão a encontrar-se menos vezes.

Nunca o sentimento de solidão foi tão intenso na Humanidade como hoje e nunca houve tanta comunicação. Nunca houve tantas estradas e nunca deixamos tanto de nos visitar.

Luís Ricardo Duarte

in Jornal de Letras, 18.06.2008

03.07.2008

 

 

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