
A normalidade portuguesa
Uma vez encontrei à venda, numa estação de serviço, alguns volumes da maravilhosa colecção de Patrologia Grega e Latina que a Faculdade de Teologia e a Editora Alcalá editam. Tratando-se de Portugal, achei que estava a sonhar. E estava. Durou menos que nada aquela visão do Pastor de Hermas e de Tertuliano entre os mapas estradais, verde e laranja, e os best-sellers do momento. A felicidade também pode ser embaraçosa, e foi isso que senti, a olhar repetidamente para aquele cenário, nos antípodas dos embaraços da dita normalidade.
A normalidade portuguesa é, salvo excepções, remeter para a mais estrita clandestinidade cultural esse tipo de literatura. Podíamos pensar que a grande tarefa seria, por exemplo, colocar o Apologético de Tertuliano (esse grandioso autor, acreditem) numa das livrarias de maior circulação. Afinal é aí que a carga dos trabalhos começa. Por uma razão insondável, há livreiros que decidiram juntar à religião uma área que lhes parece afim. Se não passa pela cabeça de ninguém compor uma secção com “Filosofia & Parapsicologia”, “História & Estórinhas de Contar”, ou “Biografias & Romance Policial”, o mesmo não se diga de “Religião & Esoterismo” ou “Religião & Ciências Ocultas” (para citar a bizarra catalogação de duas grandes cadeias livreiras do nosso país). São Paulo, Tertuliano, Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Guardini, Teresa de Jesus, Inácio de Loyola, o Padre Chardin, Bonhoeffer, o Mestre Eckhart quando existem é a paredes meias com uma literatura delirante, que ocupa o triplo do espaço e exige uma respiga bibliófila aturada, a que a maioria não se dá.
Mas a responsabilidade é de todos. É dos livreiros que colocam justamente num sítio prestigiante e acessível as obras de George Steiner, mas nunca leram o que ele escreveu: «Paulo de Tarso é simplesmente um dos maiores escritores da tradição ocidental». Ou olham com interesse (merecidíssimo, aliás) para uma novela de Flannery O’Connor, desconhecendo, porém, que é no relegado volume de Teillard Chardin que ela tem a sua chave. Mas a responsabilidade é também do catolicismo português, acomodado numa suave iliteracia.
José Tolentino Mendonça
in Página 1 (Rádio Renascença)
09.05.2008
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