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Teatro

Moby Dick, Padre António Vieira e trechos da Bíblia no Centro Cultural de Belém

Aviso prévio: “Aos Peixes”, que José Maria Vieira Mendes escreveu a partir de “Moby Dick”, de Hermann Melville (entre outros autores), não encaixa nos cânones do teatro musical. José Eduardo Rocha, autor da música e da direcção musical do espectáculo, prefere designá-la por “cantata cénica” – interpretada por dois actores (Manuel Wiborg e Cláudio da Silva), dois cantores líricos (a soprano Ana Sacramento e o tenor José Lourenço) e uma orquestra de seis músicos.

Segundo a sinopse, "'Aos Peixes' acompanha a viagem marítima de Ismael, o marinheiro que embarca na pesca da baleia como modo de “afugentar o tédio e normalizar a circulação”. Na solidão do azul, no silêncio do mastro, Ismael deixa-se levar pela ausência de tempo e de sequencialidade e constrói uma narrativa fragmentária e permeável que lhe vai dando diversidade aos dias. Um texto a várias vozes, partes talvez de um mesmo discurso irregular, incompleto e contraditório. Escrito à maneira de um livro chamado Moby Dick."

Basta pensar no romance maior de Melville e José Eduardo Rocha faz a analogia: a orquestra em palco é “um barco” (Pequod) e os músicos a sua tripulação. Em nenhum momento, salienta o encenador e actor Manuel Wiborg, a música serve de “cenário” ao espectáculo. Nunca foi isso que José Eduardo Rocha e Wiborg tiveram em mente. Tal como nunca idealizaram transformar a adaptação ao palco de “Moby Dick” (ideia que se arrasta desde 2006) numa “adaptação literal”, num “pastiche”. A fórmula aqui aplicada (e combinada com José Maria Vieira Mendes) foi fazer emergir o “lado épico” e “mais sugestivo” do livro de Melville. Sem obliterar os “grandes momentos” do livro, nota José Eduardo Rocha.

“Moby Dick” é o livro-âncora de “Aos Peixes”, resultado de uma co-produção entre os Actores Produtores Associados e o Centro Cultural de Belém (CCB). Mas, tal como o próprio título sugere, também o “Sermão de Santo António (aos peixes”, do Padre António Vieira, é citado e impregna o texto de Vieira Mendes. Mas não só. A Melville e Vieira, o dramaturgo somou excertos do Eclesiastes, do Livro de Job, do Livro de Jonas, pensamentos de Michel Foucault e um poema de Coleridge. Perante isto, José Eduardo Rocha pensou inicialmente em “musicar tudo”. M;as durante o “difícil” processo de criação da dramaturgia musical, o compositor optou por transformar em canto apenas as citações. Wiborg e Cláudio da Silva (este último, intérprete de Ismael, o narrador de “Moby Dick”) ocuparam-se do “trabalho recitativo”. Que ora alude às ideias do pensamento em deriva e da “coisa inacabada” (o chamado “esboço do esboço”, vai repetindo Wiborg), ora marca passo com a trama narrativa de “Moby Dick” (o fio do enredo é conduzido por Ismael, mas também pela orquestra e pelos cantores).

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Vieira Mendes escolheu Ismael, o que ficou para contar a saga do capitão Ahab, e deu-lhe doses generosas de volubilidade – oscila entre a “representação sincera”, assim define o encenador, e a auto-ironia, aqui recolhida na resposta recorrente de “Bartleby”, de Melville (a famosa frase “preferia não o fazer”). Aliás, a referência a esta personagem criada pelo escritor norte-americano surge igualmente nas notas de Vieira Mendes sobre o espectáculo – a propósito da procura do “leitor ideal” e do “espectador ideal” ou da escrita de “Aos Peixes”, o autor escreve (por quatro vezes) “preferia não escrever, preferia não ter de falar, não explicar”.

Literatura, música e artes plásticas, enumera Wiborg, marcam o compasso deste “Aos Peixes”, no qual se encadeiam diferentes interpretações dramatúrgicas. José Eduardo Rocha, Wiborg e Vieira Mendes, cada um deles trabalhou para uma peça quase sem fronteiras entre a literatura, a música e o teatro. Explica Wiborg que ele e José Eduardo Rocha “fizeram dramaturgia sobre a peça de Vieira Mendes”, tendo o autor, por sua vez, feito “dramaturgia” sobre as diferentes obras que surgem na peça.

Depois da curta temporada no Centro Cultural de Belém (de 28 de Abril a 3 de Maio, às 21h00), o espectáculo será reposto no Teatro Trindade, em Lisboa, entre 3 e 20 de Julho.

 

Ligações

Apresentação animada do espectáculo
Informações gerais

Maria José Oliveira | CCB

in Público (Ípsilon), 25.04.2008

29.04.2008

 

 

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