
Ecos da apresentação da Paixão de Jesus Cristo segundo S. João, do Cón. António Ferreira dos Santos
Tivemos oportunidade de participar na Igreja da Lapa na primeira apresentação na cidade do Porto (dado que a estreia absoluta se verificou em Braga), da Paixão de Jesus Cristo segundo S. João (2008), do Cónego António Ferreira dos Santos. A expectativa era justificada: tratava-se da primeira Paixão musicada em língua portuguesa. Vinha na esteira das grandes Paixões do período barroco, que deram origem a obras-primas da música e da humanidade, como a de S. João e de S. Mateus de J. S. Bach.
O texto está construído sobre a tradução do Missal Romano. Apenas inclui alguns momentos de reflexão sobre os acontecimentos, de interiorização das palavras e do relato, meditações em busca de sentidos. O relato é apresentado por um Narrador (neste caso o próprio autor). Apenas algumas passagens são “contadas” à maneira das Paixões clássicas, por um tenor. O baixo expunha apenas as palavras de Cristo, com todo o dramatismo e mistério que elas contêm nesta passagem evangélica. O coro tinha duas funções: as intervenções do povo e da multidão e o canto dos temas de meditação.
Estes temas, todos retirados da Liturgia da Horas ou dos textos litúrgicos, recuperaram ou adaptaram, aprofundando, como aliás fizeram os compositores clássicos, outras composições já publicadas, neste caso no Boletim de Música Litúrgica. Entre elas, o motete “Se o grão de trigo lançado à terra” e o inspirado e belíssimo hino para a adoração da cruz da Sexta-feira Santa, “Ó cruz fiel, árvore entre todas a mais nobre”, repleto de uma poesia simbólica digna dos maiores mestres da poesia de todos os tempos. Este hino, inicialmente composto para coro uníssono, surgiu aqui harmonizado, numa harmonização muito sugestiva e de belo efeito, onde a orquestra sublinhava as vozes e as palavras.
Pessoalmente, perdoem-se a subjectividade da apreciação, considero esta melodia uma das mais belas coisas que se fez de música para a liturgia entre nós (ou mesmo fora de nós). Na sua aparente simplicidade, possui uma construção musicalmente complexa e de grande expressividade. Veja-se (ou ouça-se) sobretudo a magnífica passagem, de um lirismo absolutamente arrebatador, que se segue a uma intervenção orquestral violenta, simbolizadora da elevação da cruz, e depois acompanhada pelas cordas de forma lírica, como de quem compreendeu o mistério:
Verga os ramos, nobre lenho
Dá repouso ao corpo cansado
Suaviza a dureza do teu natural rigor
E prepara nos teus braços
Um leito mais brando ao grande Rei.
Subjectivamente, foi este o momento mais impressivo de todo o conjunto, completado com vários corais de clara influência bachiana, sobretudo o último, com texto da autoria do compositor.
O autor realizou aqui aquilo que nunca lhe disse, mas que muitas vezes formulei propósito de lhe dizer: que com as numerosas e ricas composições para a liturgia compusesse uma obra temática e estruturada em que pudessem ficar plastificadas de forma evoluída e nobre, composições concebidas para o quotidiano das celebrações litúrgicas.
Eis que esta é uma delas. Pode surgir depois uma Cantata de Natal, uma Lamentação para a Quaresma, uma Exaltação Pascal, um Canto Glorioso e triunfal...
Regressemos pois à Paixão. Penso ser uma Paixão que pretendeu ser de inspiração claramente litúrgica: ela reúne a narrativa, a meditação, a oração, a aclamação, a acção de graças. Claro que necessita de um suporte musical que raramente poderá ser reunido para ser apresentada liturgicamente: bons solistas, um coro com potencialidades, uma orquestra capaz. Mas quem a ouviu não pode deixar de pensar que seria a plenitude para uma acção litúrgica de sexta-feira santa.
Alguns pormenores de interpretação: a obra agora composta parte do modelo clássico e situa-se naquela concepção intermédia que procura responder a alguma estética ou gosto moderno (a abundância da percussão, o recurso insistente aos metais na orquestração). Resulta daqui que muitas vezes há excesso de sobreposição da orquestra quer ao coro quer aos solistas. A dinâmica do jogo canto/comentário orquestral sublinhando momentos narrativos ou situações mais emotivas resulta bem, mas em certos momentos pareceu faltar algum encadeamento mais dinâmico.
De resto, o Coro Polifónico da Lapa, que se desenvencilhou bravamente das dificuldades da construção musical, sobretudo nas partes mais vivas da multidão (por exemplo, o “crucifica-o crucifica-o”) e a Orquestra Sine Nomine (um dia por certo virá a ter nome), com os solistas Pedro Telles, barítono (um Jesus talvez denso de mais) e um narrador, o tenor Vítor Sousa, de quem se ficou a esperar que lhe seja confiado mais texto narrativo, constituíram um conjunto, sob a direcção de Filipe Veríssimo, que bravamente lançou nos ouvintes a primeira audição de uma Paixão composta em português.
Já é mérito, e não é pouco.
C.F.
17.03.2008
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