
Artes e ofícios ao vivo: produtos tradicionais, música, teatro e gastronomia
Já sabíamos, à partida, que seria inevitável e não demorou mais que cinco minutos para o começarmos a constatar. A palavra “crise” parece estampada na cara de quase todos, e é recorrente sair das suas bocas. Estamos na 45.ª FIARTIL – Feira Internacional de Artesanato da Costa do Estoril – onde cerca de 300 artesãos expõem a sua arte.
Há os que se vão lamuriando: "antes esta feira dava para pagar as contas do ano todo, agora não”; “as pessoas compram muito pouco e só as peças mais baratas”; desde que entrou o euro isto ficou pior”. Os que vão torneando as dificuldades: “Arranjo aqui trabalho para o ano inteiro”; este quadro [no valor de € 300] já está reservado e tive mais três encomendas de outros semelhantes a este”. Aqueles que vão arranjando negócios paralelos: “Agora dedicamo-nos mais à conservação de tapetes de Arraiolos do que ao fabrico”. E os que já não vêem, sequer, esperança na continuidade: “Isto está em vias de extinção, já ninguém quer aprender a fazer mobiliário alentejano”; “só querem os computadores e o surf”.
Mas, então, o que fizeram as mais de 40 mil pessoas, segundo o Turismo do Estoril, que desde o dia 26 de Junho (a feira termina a 31 de Agosto e está aberta das 18 à meia-noite, a partir das 17h00 ao fim-de-semana), já visitaram a feira? Segundo alguns dos artesãos com que falámos, “vêm jantar”. E vão mesmo. Mal a hora da dita refeição se aproxima comprovamos sentença. Os restaurantes enchem, de facto.
Mas não será só para isso. Até porque a programação da feira com momentos de teatro e de música – ranchos folclóricos e grupos corais, fado e música ligeira e diversas bandas – e o espaço “Lugar dos Sonhos”, que faz as delícias das crianças que se divertem nas actividades nos ateliês.
Mas esta, além de tudo, é uma feira de artesanato com “gentes” que trabalham ao vivo para os outros testemunharem como se faz a sua arte. Olaria, tapeçaria, carpintaria, tecelagem, bordados, pintura de quadros ou azulejos e muita, muita dedicação a cada um dos objectos que vão saindo das suas mãos.
E, passando pelo recinto, coberto pelas copas dos pinheiros que lhe dão sombra e deixam um agradável cheiro no ar, podemos assistir à minúcia, ao engenho e ao talento de quem faz do artesanato uma profissão ou um «hobby».
“Trabalho nisto desde os 16 anos e gosto muito, mas é só um «hobby», conta José Serra, enquanto empalha mais uma cadeira que alguém lhe deixou para arranjar. Mais à frente, e de olhar desalentado, Luís Ourives fuma um cigarro encostado à porta da sua barraquinha recheada de pelas de mobiliário alentejano. O colorido das cadeiras e das arcas não combina com o semblante carregado. À pergunta “o negócio corre mal?”, franze os olhos azuis e abana a cabeça. “Faço isto há 51 anos, venho para aqui há 45, mas isto nunca esteve tão mal de vendas”, diz.
Já Paulo Narciso não parece nada entediado. A concentração nos acertos finais do monte alentejano que está a pintar absorve-o do que se passa à volta. Pousa o pincel, contempla a obra de longe e lá nos diz que tem “o coração no Alentejo” e que a pintura é um «hobby» que lhe dá “muito prazer”.
E porque esta feira é internacional, encontrámos Alesya, uma artesã de dupla nacionalidade alemã e russa que, juntamente com o marido, faz quadros a três dimensões. Seja uma tasca, uma adega ou uma farmácia, os dois fazem tudo em ministura – os bonecos, por exemplo, têm o tamanho de uma cotonete e são vestidos e pintados ao pormenor – e “põem” dentro de uma moldura de madeira protegida com vidro.
Talvez os visitantes não comprem muito porque as carteiras não andam abonadas, mas o artesanato não parece ter perdido o interesse das pessoas que comentam, assistem às demonstrações ao vivo, falam com os artesãos, só... não compram.
Vila do Conde
Em Vila do Conde evita-se falar de crise, embora não se escondam as dificuldades num sector cuja rendibilidade tem vindo a diminuir. “Mais do que ser rentável, dá prazer”, confidencia Abílio Cardoso, 53 anos. É com orgulho que deixa escapar o convite do Museu da Presidência, em Lisboa, no qual tem alguns trabalhos. Objectos feitos à mão, gastronomia e folclore continuam a ser o cartão de visita da FNA – Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde. A iniciativa, organizada pela Associação de Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde e pela Câmara Municipal, continua a mobilizar artesãos, mas também visitantes. Este ano, a 31.ª edição conta com mais de 200 artífices, grande parte mostrando ao vivo a sua arte. É por eles que até 10 de Agosto cerca de 400 mil pessoas terão passado pelos jardins da Avenida Júlio Graça, no centro da cidade.

A maioria dos artesãos dedica-se em exclusivo, quase desde a infância, à arte de moldar o ferro, o vidro, o barro, a madeira e a lã. A tecedeira Fátima Gomes, 52 anos, nunca fez outra coisa na vida. Nem durante a feira abandona o tear e lá vai dizendo, entre risos, que “sempre vai pingando qualquer coisa”. Filha de barristas, Maria Luísa Conceição, 74 anos, também seguiu a tradição familiar. Só lamenta não ter quem lhe siga os passos. Faz tudo sozinha, desde moldar o barro até à pintura final. “Isto não é coisa para aprender, tem de se ter sensibilidade para o ofício”, nota. Sozinho também trabalha Manuel Frutuoso, 77 anos. Em Ribeira de Nisa, onde vive, houve tempos em que havia mais de 50 artesãos, “hoje somos apenas dois”, lamenta. Cristina Cavalheiro, 36 anos, concorda que “as coisas não estão fáceis”, mas “vai dando para superar”. Há 15 anos que a Casa dos Sabores d’Óbidos monta praça por aqui. A empresa, que existe há mais de 50 anos, é um negócio de família, e está certificada como unidade produtiva artesanal. Se há 30 anos Adriano Mesquita, 67 anos, da Marinha Grande, não tinha mãos para dar resposta às encomendas, nos últimos tempos os pedidos mudaram. Assim, em 2003, optou por criar uma linha de bijutaria em vidro, a par com uma colecção de miniaturas de animais. “Temos de evoluir para ir ao encontro do consumidor”, justifica. Maria Celeste Alves, 58 anos, concorda. O fecho das fábricas de cerâmica em Alcobaça levou-a a criar o seu próprio ateliê. “Não é uma área fácil, mas dentro do estilo ainda é possível inovar”, nota. Assim, além de louça tradicional, desenvolveu uma linha mais moderna de pratos e tigelas, a partir de desenhos criados pela filha, «designer». E, como os pedidos não param de chegar, trouxe consigo não só a bancada onde pinta mas também o forno.
À medida que se espreita cada um dos espaços, pode ver-se de perto o engenho, o talento e dedicação. “Trabalho nisto há 16 anos, mas infelizmente não passa de um «hobby», conta Tozé Vale, 34 anos. É com perícia e a ajuda do formão e da faca que transforma troncos de madeira em caretos. “Tentei fazer uma máscara para mim e desde aí nunca mais parei”, lembra. No entanto, e apesar da crescente procura, este “continua a ser apenas um complemento”.

Esse não é o caso de Isabel Gomes, 48 anos, 24 dos quais dedicados a bonecos de pano. Conta com a ajuda da família não apenas no trabalho mas também na criação de novas peças. Mais à frente, o sorriso de João Clara deixa adivinhar que as vendas correm bem. Com sede em Manteigas, na serra de Estrela, a Ecolã “é uma microempresa de sucesso” que trabalha “para um nicho de mercado muito especial”. A utilidade das peças que produz (vestuário, mantas, sacos e acessórios) aliada ao preço acessível parece ser a base do êxito. Do mesmo lado da rua, o casal Helena Santos, 57 anos, e Elmano Lima, 63 anos, de Sever do Vouga, adiantam que “o trabalho vai dando para viver”. A atenção dada aos acabamentos de mais uns chinelos quase não deixa margem para grande conversa. Sacos, sandálias, chinelos e botas em vinte modelos originais ocupam, por completo, os dias do casal.
De Felgueiras, António Faria Vieira, 55 anos, trouxe tudo o que é necessário para dar forma a instrumentos tradicionais. Em exposição tem violas, bandolins, braguesas, rabecas chuleiras (espécie de violino) e cavaquinhos, sendo este último o mais vendido. “A facilidade em aprender e o preço acessível motiva a compra”, diz o artesão que há 35 anos se dedica ao ofício.
E há ainda as iguarias regionais. Não em Vila do Conde, que já terminou, mas numa das inúmeras feiras que por estes dias expõem o melhor do artesanato português.
Sara Rodrigues | Susana Silva Vieira
Fotografia: José Caria
in Visão, 07.08.2008
14.08.2008
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