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Portugal

O atropelamento dos peregrinos, ou da relação com Deus, Fátima e a Igreja

O atropelamento de nove peregrinos a caminho de Fátima, um deles em estado grave, suscitou mais de uma centena de comentários no «site» do Público, na sequência das três notícias que foram publicadas sobre o assunto.

A notícia da Lusa referia que “o acidente ocorreu cerca das 05h30, quando o condutor de um veículo ligeiro, que terá adormecido, galgou o passeio e atropelou os peregrinos que iam a caminho de Fátima para as celebrações do 13 de Maio.”

Os peregrinos, que "circulavam na faixa dos peregrinos, usando um colete reflector, um boné e uma t-shirt”, eram oriundos de Cabeceiras de Basto, Fafe e Famalicão.

Ao final do dia de ontem era possível ler diversas opiniões motivadas pela notícia. Muitas referiam-se à inexistência de Deus e à falta de instrução dos peregrinos; outras, mais relacionadas com o sucedido, criticavam a ausência de caminhos próprios para as peregrinações; houve também quem mencionasse a responsabilidade da Igreja no acidente.

Ou de como um atropelamento pode ser revelador da relação entre os portugueses, Deus e a Igreja, mesmo considerando que a qualidade e a quantidade dos comentários não constituem uma amostra científica.

Para não poucos leitores, a causa deste acidente, e também de Fátima e das peregrinações, reside na ignorância e na falta de cultura de muitos.

“É a crise, é o Medo, é a ignorância Secular e a incapacidade de utilizar o raciocínio. Tudo isto junto cria as condições ideais para manter a Fábula.”

Outro comentário refere que “Se esta gentinha fosse mais culta, não acreditava em milagres. Já alguém viu um padre indo a pé por esses caminhos? Se Deus existe, agradeçam-lhe terem ido parar ao hospital. Ou então...tal foram os pecados, para merecer tal castigo. Tenham juízo!”.

O acidente é considerado noutro comentário como “mais uma prova, entre centenas, de que Deus não existe. Se existisse não deixaria o condutor adormecer e desviaria o carro dos peregrinos que iam Adorá-lo. Mas como não existe.... Nada pode fazer.”.

Para outro leitor, Deus, Fátima e o clero não passam de farsas que enriquecem a Igreja e exploram os ignorantes: “Tenho pena que a maioria das pessoas que vão a pé para Fátima não imaginam sequer que tudo é uma farsa... Que não existe ninguém lá em cima que as proteja e muito menos, que Fátima é alguma coisa... Temos em Portugal a maior mentira "política"... Fátima não passa de uma farsa que alimenta (e de que maneira, vejam os lucros que o dito clero esta a ter...e não paga impostos!) um bando de gordos que só querem é lucro e dinheiro... E o coitado do povo é que paga! Abram os olhos... Se Deus realmente existisse não queria que os mais pobres dessem o seu dinheiro para os ricos comerem e beberem! Se a igreja fosse digna, daria todos os seus milhões para os mais carenciados do nosso pais! Mas não o faz! E porquê? Será que é pecado??????”

A peregrinação é vista por alguns comentadores como uma actividade inútil e que atrasa a produtividade do país: “Estes peregrinos não têm mais nada do que fazer? Vão trabalhar e não atrapalhem quem anda na estrada a contribuir para o país...”. Ou “uma Fátima que nem o próprio papa actual acredita muito que tivesse existido? Das negociatas dos bispos e padres que estão em Fátima a lucrar com a estupidez dos seus crentes? De uma 'visionária' irmã Lúcia cheia de contradições que dizia que o 'Salazar era o salvador da pátria' e que Fátima estava preocupada com o 'comunismo na Rússia'? (...) As pessoas precisam é de deixar de palermices e andar pelas estradas feitas tontas, e sim trabalhar porque é o que o país precisa!”

Por isso, refere outro leitor, “o governo deveria proibir estas peregrinações que são uma ameaça à segurança das pessoas, já que a igreja católica não o faz preferindo alimentar a superstição religiosa que lhe dá bons lucros. Se lessem o novo testamento saberiam que Fátima e as outras todas são uma fraude ou então Cristo não veio fazer nada. Pobre país; Fátima, fado e futebol! Daí a miséria em que está há séculos.”

Uma opinião mais compreensiva, ainda que descrente, revela-se neste comentário: “Na maior parte das vezes, quase sempre, caminham entre o passeio e a estrada, guiados pela fé ou pela vontade de fazerem algo em grupo. Todos os anos há acidentes a caminho de Fátima, que, para mim, é um grande negócio. Mas enfim, cada um acredita no que quer.”.

Não faltam as ironias: “Valem mesmo a pena as peregrinações. Para alimentar o estado católico.”; “Será que Deus quis que eles andassem no meio da estrada quando têm passeios e bermas para isso?”. E ainda: “Ninguém nota a ironia? Acidentes com este, como o do autocarro em Novembro de 2007 na A23, em que tanta gente morreu, intempéries que destroem igrejas... Estará Deus demasiado ocupado? A descansar no 7º dia? A optar por uma política não intervencionista? A ignorar as muitas preces dos seus seguidores? Claro, os crentes vão preferir ignorar tais eventos.”. Em resumo: “A explicação é simples: eram pecadores.”.

A nível racional, o não acreditar potencia as capacidades humanas: “Não acho que seja muito fácil de acreditar em deus. Talvez seja por não acreditar. Tive uma educação católica e desde pequeno "ensinaram-me" a acreditar, e a ter de acreditar ainda mais sempre que surgia uma dúvida. Quanto maior a dúvida, mais a fé devia sair reforçada. A partir de certa altura pus em causa esta premissa. É realmente mais fácil não acreditar, e não perdi nada quando deixei de acreditar... até ganhei uma maior capacidade de questionar, não no que respeita à fé, mas relativamente a tudo.”

Porque é que Deus permite o sofrimento? Um mistério que muitos ainda não conseguem decifrar: “De facto estes acidentes que vitimam peregrinos em missão de agradecimento, homenagem, de entrega, de devoção a deus e sua mãe deixa-nos a pensar sobre os tais ‘desígnios insondáveis’ de tal deus. Será que deus quis por à prova a fé desses infelizes, fazendo-os gemer de dor física a que se junta a dor da vida que, por regra, essa pobre gente já carrega desde que nasceu? Então mas não nos dizem que ele já sofreu por nós todos ao deixar-se crucificar na cruz? Para quê, então, mais sofrimento? Por último, qual o verdadeiro objectivo do sofrimento voluntário? Será deus um sádico que se diverte com os nossos ais e gemidos de dor? Não é mais saudável o sorriso feliz de uma criança que vê-la contorcer-se com dores de carne rasgada em homenagem a qualquer deus? Nunca entendi este deus do sofrimento! Ou Deus não existe ou não é como no-lo pintam.”

Perante o sofrimento e a injustiça, como é concebida a acção de Deus? “No que ficamos: [Deus] intervém ou não? Dizem-me, intervém só quando lhe pedimos muito e o merecemos! Então ele não sabe das nossas necessidades? E se intervém pontualmente, não será responsável, por omissão, de todas as desgraças da humanidade – desde catástrofes naturais, morte pela fome e doença não tratada, etc. Não lhes parece caricato deus intervir para nos sarar as maleitas e nos arranjar bom emprego e deixar, entretanto, morrer inocentes à fome e de catástrofes? Reflictam s.f.f.”

Até que ponto é que o sofrimento, aparentemente sem sentido, pode ser revelador? “É impressionante como a primeira 'palavra' que nos vem à cabeça quando nos deparamos com o sofrimento é Deus! Porque será?? Ao mesmo tempo que desejamos prescindir d'Ele em nome da ciência, da técnica, da liberdade, Ele ‘impõe-se-nos’ quando nos deparamos com os limites da nossa condição humana. O que é que Ele tem a ver com um acidente, as más condições da estrada, o cansaço de quem vai ao volante, o desejo de cumprir uma promessa, uma doença... a morte? Pode não ter nada. Para mim tem tudo! Mas daí a fazer d'Ele o bode expiatório do mal, vai uma grande diferença. Eu acredito que Ele é bom e me quer bem. O resto é comigo e com cada um de nós.”

Um dos leitores interroga-se sobre o silêncio de Deus: “Se deus existe, de facto, não percebo muito bem por que motivo anda permanentemente escondido. Da mesma forma, não percebo que mal lhe fiz eu, dado que não o sinto de qualquer forma. Como ouço tanta gente a ‘provar-me’ que ele existe, fico com esta sensação de patinho feio. Se não consigo acreditar nele o que devo fazer? Ir a Fátima? Papar hóstias? O que é preciso para acreditar? Como acreditar não é uma atitude voluntária, gostava mesmo de saber que raio têm os outros que eu não tenho. Bem, se somos todos filhos, talvez ele tenha preferências, por isso não me venham falar em bondades extremas, porque isso, está visto, é só para alguns. E agora venha de lá o chumbo grosso daqueles que me querem fazer acreditar em coisas que não vejo nem sinto.”

Muitos comentários lamentam a falta de sensibilidade daqueles que não compreendem a fé e as opções dos peregrinos.

“O Teu comentário é de quem nem tem consciência do que diz... É triste as pessoas brincarem com Deus”. Outro leitor escreveu que “há pessoas absolutamente insensíveis, que não conhecem nem respeitam os sentimentos, a fé, os dramas dos que sofrem, ou peregrinam... (...) Culpar Deus pelo condutor que adormeceu? Quer um Deus tipo manipulador de marionetas? Seguramente, que Deus esteve presente no apoio solidário de quantos ajudaram, no carinho que estas pessoas recebem, e na peregrinação que um dia provavelmente retomarão... Peço a Deus que os ajude na recuperação, que nos ajude a aceitar o que não compreendemos, e a mudar o que podemos mudar...”.

O excesso de algumas opiniões motivou a intervenção de uma leitora: “Sou uma pessoa de fé, mas podia não ser, o que eu não posso ser (como já vi em alguns comentários anteriores), é uma pessoa com mau fundo, comentários do tipo 'foram atropelados porque eram pecadores' e outros comentários do género é de pessoas mal formadas e com uma grande falta de respeito pelos outros. Como Católica que sou, respeito aqueles que não o são, assim como gosto que as pessoas que não praticam nenhuma religião ou não têm fé, me respeitem a mim e a todos aqueles que acreditam e têm fé. Determinado tipo de comentários, infelizes e inapropriados, não são pessoas que não têm fé, mas sim de pessoas com um coração pequeno, com pouco espaço para o respeito pelos outros. Pensem bem naquilo que disseram, é tão incorrecto e fica tão mal que até arrepia. Espero que um dia destes quem o escreveu ponha a mão na consciência e pense com respeito pelos outros. As melhoras para os peregrinos acidentados e uma boa viagem para todos aqueles que se encontram a caminho.”

Face à inexistência da acção de Deus apontada por muitos leitores, outros justificam: “Deus é Pai (ou Mãe), não manipula fantoches. O Homem é livre, pois apenas sendo livre pode ser responsabilizado e ter mérito pelas suas boas acções. Se Deus tomasse conta de tudo e todos, impedindo o mais pequeno mal, o Homem deixaria de ser livre. Os comentadores que se servem deste drama para pôr em causa a existência de Deus fazem tanto sentido como aqueles que dizem que a Sida é um castigo divino aos pecadores.”

Será que a Criação se baseia no facto de “Deus (...) [ter] que proteger os que acreditam nele de todos os males? Então a ser assim, os crentes nunca morriam e os outros eram uns desgraçados. Por favor, vejam um pouco mais longe do que isso... Deus criou, ponto final. O resto é folclore. Fez-nos diferentes e sempre o havemos de ser. Fez um universo imprevisível e sempre o haverá de ser. Morrem os bons e ficam os maus. Se assim não fosse éramos todos (hipocritamente) bons e justos. Morrem crianças e inocentes? pois morrem. Morrem os que rezam? Claro. O Estaline morreu de velho? pois foi. É assim mesmo. Sempre há-de ser. Nada disto tem a ver com a existência ou não de Deus. A existência de Deus explica-se pela necessidade de compreensão do universo, do infinito, do antes e do depois. Chamem-lhe o que quiserem mas não estão sequer perto de o explicar pelo acaso. Na realidade, só conseguimos ver uma pequena ponta do iceberg.”

Por isso, “ser cristão não nos protege de sofrer um acidente, como não nos protege de ter uma dor de dentes ou de cabeça. É-se atropelado por se ir a caminho de Fátima como se é atropelado por se ir a caminho de um estádio de futebol, do supermercado, da casa da vizinha, da escola, do trabalho… Acontece todos os dias.”

“Em relação aos insondáveis desígnios de Deus”, refere outro leitor, “apraz-me escrever que certamente Ele, na sua infinita sabedoria, resolveu colocar à prova a fé destes peregrinos. Certamente sairá reforçada, aliás a fé caracteriza-se mesmo por se reforçar contra todas as evidências.”

Estão também presentes opiniões de peregrinos: “Tenho 37 anos. Em 2003 fiz a peregrinação a Fátima, sozinho. Do Porto a Fátima em 5 dias. E o que vi só tenho um comentário a fazer. Por fé não há sofrimento/limite. E quem chega lá e olha para a Cruz Alta fica com uma energia que move o mundo. Aprendi algo - Por fé não falo. Saúde.”

“Não sei se eram pecadores” – refere outro leitor – “Mas lembro Jesus Cristo (‘deixou-se’) foi crucificado e não era pecador... Foi o que ficou para a história, que se revoltou, lutou contra as injustiças.”

Alguns comentários reflectem sobre as formas de evitar acidentes similares. É o caso desta opinião, entre muitas, relativa à incúria dos peregrinos: “De um momento para o outro surgem grupos de pessoas na berma da estrada, a andar em pares lado a lado, muitas vezes no sentido do trânsito e sem qualquer colete reflector.”. Ou: “Surpreende-me que não hajam mais fatalidades nestas peregrinações. Aparentemente não foi este o caso, mas veêm-se peregrinos a fazer a sua viagem sem o mínimo de cuidado, passando em estradas onde é proibida a circulação de peões, indo lado a lado em grupos de 3, 4 ou até 5 pessoas, mesmo em curvas sem visibilidade... enfim... Irresponsabilidades...”

Muitos leitores são da opinião que a Igreja deveria ter gasto parte dos seus recursos em caminhos pedestres: “em vez de investirem tanto no santuário propriamente dito, criem condições para que os crentes possam fazer a sua viagem espiritual em paz, nomeadamente através de caminhos pedestres pelo campo tal como os que levam a Santiago, evitando estes acidentes para os peregrinos e automobilistas... O que se passa no IC 1 é um crime. Talvez seja uma prova de fé... Deus dá e Deus tira, e se as pessoas são crentes o suficiente para ir a pé, também o serão para justificar estes desígnios de Deus...”.

Opinião semelhante em relação à responsabilidade da Igreja é partilhada neste comentário: “Sou um caminheiro e não peregrino. Tenho 65 anos e vou a Fátima desde há alguns anos, tendo regressado neste dia 5 a casa. O que é preciso é dizer que a hierarquia religiosa esqueceu-se dos peregrinos a pé, porque esses não dão dinheiro. Como teria sido bonito, em vez de terem feito uma obra megalómana para ricos, aplicado esses milhões de euros na recuperação dos caminhos e atalhos que existiram e que se perderam por culpa da própria Igreja e dos ICs e IPs, e de criarem condições de dignidade mínima para a gente humilde que com muita dificuldade chegam a Fátima, depauperadas física e psicologicamente, que nem um banho quente têm à sua espera, quanto mais uma cama.”

As condições para os peregrinos têm de ser melhoradas, dado que os acidentes são comuns: “Por aquilo que me é dado ver nas estradas e caminhos, não temos para Fátima percursos adequados e seguros. Estradas sem bermas forçam os peregrinos a andar em constante perigo. Serão os caminhos de Santiago de idêntica qualidade? Goste-se, acredite-se ou não, Fátima merece no que toca ao humilde e esforçado peregrino, um melhor tratamento pela Igreja e Estado e não tudo ao molho e seja o que Deus quiser.”. Em síntese, este leitor refere que “os peregrinos mereciam outra atenção...”.

rm

08.05.2008

 

 

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