
Beatriz Batarda: A diferença entre cultura e entretenimento
Eu não sou um robot!” E com esta afirmação que Beatriz Batarda explica o que significa ser actriz. Aos 33 anos, o rosto de Berenice, de Racine, ou de Alice, de Marco Martins, está consciente de que a profissão que escolheu implica “uma responsabilidade cívica, social e moral”, que não pode ter como pilar o entretenimento. “O actor não tem só que entreter, tem sobretudo que partilhar. Partilhar o conhecimento que vai procurar em cada dia e em cada ensaio para o oferecer ao público.”
Esse trabalho de bastidores, praticamente invisível para o grande público, requer um envolvimento pessoal que, acredita Beatriz, Portugal despreza: “Existe um paradoxo que ninguém parece quer esclarecer. Por um lado, há o desejo de ter um ‘star system’, ou seja, a necessidade de que haja pessoas que nos façam fantasiar, que idolatremos, que levem a nossa imaginação para um nível quase de conto e nos tirem do nosso rame-rame. Por outro, existe o desprezo total pela profissão de quem lhes permite tudo o resto. O estatuto de intermitente não é devidamente consagrado na lei que rege os nossos contratos de trabalho, continuamos sem regime especial de segurança social... Mas estas questões já não interessam, ninguém quer saber delas”, reclama a actriz. Em cima da mesa, diz, está uma confusão que é urgente desfazer. “Ouvimos dizer à boca-cheia que somos subsídiodependentes, mas ninguém sequer sabe quais são os valores implicados nos subsídios. É bom que o Estado explique que a sua comparticipação é ridícula e não cobre nunca mais de um terço ou de um quarto do custo real de cada projecto”, continua Batarda.
A actriz defende que entretenimento e cultura não são a mesma coisa. E toma para si a batalha de provar que o país tem vários públicos e a obrigação de os satisfazer a todos. Para isso, considera, é preciso que se recorde que os anos 70 foram fulcrais para o surgimento de um teatro alternativo, que possibilitou também ao cinema e às artes do espectáculo em geral, uma participação séria da cultura portuguesa no contexto europeu. A sede do entretenimento, acredita ainda Beatriz Batarda, foi criada de repente, depois de ter chegado a necessidade do teatro comercial. “A existência do teatro não comercial corresponde ao desenvolvimento do pensamento artístico. É o que nos permite ser actores no verdadeiro sentido da palavra, e ser actor não é essa viagem ao ego que o tal ‘star system’ quer fazer passar!”

Cena de "Berenice"
Beatriz Batarda quer que o público saiba que, quando entra em palco ou encarna uma personagem em frente à câmara de um realizador, o seu papel é o de dar o máximo de si ao espectador com a maior generosidade de que é capaz: “É a verdade daquele momento que tenho de oferecer, sem vigarizar nem aldrabar o público e com a consciência de que é à altura dele que tenho que estar.” A razão é simples. Para a actriz, quem paga o bilhete de teatro e de cinema quer sonhar, viver e aprender. “Eu quando vou ao teatro e ao cinema quero ir para casa diferente, quero que aconteça ali qualquer coisa, nem que seja por um segundo, que me mude a mim, uma magia, um som, uma imagem... Para eu ir para casa mais rica. Não quero ir ao teatro e ao cinema para estar distraída e bem disposta e ir para casa sem ter pensado em nada. Isso é o papel que a televisão tomou para si”, conta e adianta: “O teatro é uma experiência, é vida, é calor humano e principalmente conhecimentos. O cinema é uma forma um bocadinho mais fria dessa experiência, mas mais depurada e muito mais intensa”.
É entre estas duas experiências que a actriz se tem movido nos últimos dez anos, mas nunca com uma fronteira tão ténue como actualmente. Beatriz Batarda estreia esta quinta-feira "Rock and Roll", uma peça de Tom Stoppard encenada por João Lourenço no Teatro Aberto, ao mesmo tempo que filma, desde Setembro, "How to Draw a Perfect Hard Circle, uma longa-metragem de Marco Martins, com argumento do realizador em co-autoria com Gonçalo M. Tavares. “Isto só é possível porque prefiro o enriquecimento pessoal, o crescimento profissional e a consequente melhoria da qualidade final do produto artístico-cultural, em detrimento da remuneração. Não há cachê que pague a disponibilidade de um actor, o seu esforço permanente, e o facto de viver sempre com a corda esticada física, mental e financeiramente. Esse preço hei-de pagá-lo eu, mais cedo ou mais tarde.”

Beatriz Batarda com Luís Miguel Cintra em "O Construtor Solness"
Mesmo assim, Beatriz Batarda anuncia que vai explorar ainda mais caminhos ao apostar num projecto pessoal candidato a um subsídio pontual. “Nesta fase do meu percurso profissional, começo a sentir vontade de ser também impulsionadora de outros projectos. Não vou criar, nem encenar... talvez lá chegue”, diz. O monólogo que a levará de volta à Cornucópia, a sua casa mãe, a 11 de Setembro deste ano, uma data escolhida a dedo, junta o encenador espanhol Carlos Alardo (Teatro da Abadia) e o compositor português Pedro Moreira num processo criativo com amplas leituras. O objectivo, afirma, é servir melhor, permitindo vários níveis de entendimento a um público mais alargado. “A intriga e a narrativa, onde entram as emoções, funcionam a um nível mais imediato, o enquadramento histórico garante um nível de pensamento mais profundo, e as questões políticas, sociais e filosóficas que o texto lança permitem a reflexão a um nível mais elaborado", continua. O texto é uma viagem de sobrevivência de uma mulher à procura da sua identidade sexual, política e social, num país em crise, onde o desemprego e a fome obrigam a que ela se preste a tudo. “Acredito neste tipo de textos. Não quero cultivar o facilitismo. Recuso-me admitir que tenha que trabalhar obras que só permitem o primeiro nível de leitura para que o meu trabalho seja entendido e aceite pelo público”, conclui.
Alexandra Carita
in Expresso (Actual), 01.03.2008
04.03.2008
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