
Bento XVI e o pedido de perdão às vítimas da pedofilia nos Estados Unidos
A referência ao problema da pedofilia foi uma constante nas intervenções e num dos gestos de Bento XVI aquando da sua viagem aos Estados Unidos.
Em Portugal, para além do relato dos acontecimentos nos meios católicos e na imprensa generalista, alguns comentadores publicaram artigos de opinião sobre o pedido de perdão dirigido pelo Papa às vítimas da pedofilia.
No Diário de Notícias, João Miguel Tavares considera que a Igreja Católica se rendeu à moda do perdão. "Perdão aos muçulmanos, perdão aos judeus, perdão a Galileu, perdão a todos os que foram ofendidos nos últimos 20 séculos, perdão a tudo o que mexe e, sobretudo, perdão aos que já não mexem. A humildade fica sempre bem e está de acordo com metade da mensagem de Jesus: pedir desculpa e desculpar os outros. Só que - parte chata - o homem continuou a falar, e é na outra metade que mora a verdadeira ética cristã. Alguém se lembra da história da mulher adúltera? 'Vai, e de agora em diante não tornes a pecar', diz-lhe Jesus. O pedido de perdão e o reconhecimento do erro só têm valor se a partir daí houver mudanças na nossa vida. Ora, a Igreja Católica pede perdão com muita facilidade, mas tem muita dificuldade em emendar-se. E é por isso que o encontro de Bento XVI com vítimas da pedofilia nos Estados Unidos não me impressiona por aí além. Pode ser bonito - lá saiu mais um perdão, agora para os abusados de Boston - mas não muda coisa nenhuma."
Sobre os montantes avultados que a Igreja continua a pagar de indemnizações, o colunista propõe o seguinte exercício: "Imaginem um católico a pôr uma moedinha no cofre da igreja cheio de vontade de ajudar os pobres e depois ver esse dinheiro ser desviado para o bolso de uma das 13 mil vítimas que foram abusadas por padres em criança."
Depois de lembrar que os comportamentos foram abafados por parte da hierarquia, João Miguel Tavares defende que "é preciso reflectir. Encontrar causas. Mudar tudo. A Igreja pode pedir os perdões que quiser, mas enquanto não olhar realmente para dentro de si são apenas palavras vãs. Mesmo que saiam da boca de um papa."
Em artigo inserido no Público (24.04.2008), Miguel Gaspar considera que foi "surpreendente ver este Papa intelectual assumir o poder público do gesto, enfrentando de frente um dos problemas mais graves do catolicismo: a pedofilia, que durante mais de meio século minou a Igreja católica norte-americana. O gesto de Ratzinger consistiu em enfrentar essa mancha de forma implacável. Não terá a capacidade de João Paulo II em projectar para fora a Igreja, mas conseguiu algo mais difícil: atacou a ferida à frente de todos, de forma pública, repetidamente e sem a esconder atrás de meias palavras."
Miguel Gaspar refere ainda que "depois desta viagem, nenhum membro da Igreja poderá pactuar com a pedofilia. E [o Papa] provou que a Igreja consegue olhar para si própria de forma crítica - e nisso foi coerente com a sua própria convicção de que a religião pode ser purificada pela razão crítica."
O artigo termina com a convicção de que "Bento XVI difilmente poderá ser visto como capaz de renovar e modernizar a Igreja, mas conseguirá pelo menos colocá-la num lugar onde dialogue com o Outro e seja crítica com os seus próprios demónios".
No blogue "avatares de um desejo", Bruno Sena Martins refere que "ao contrário de muitos, não consegui ficar particularmente comovido ao ver o Papa pedir desculpa pelas situações de pedofilia dos padres americanos. Primeiro, porque há ali uma ardilosa 'estratégia localizante' no pedido de desculpas. Bento XVI quer fazer supor que as situações de pedofilia episcopal são uma excentricidade americana, assim pôde reforçar o estatuto de excepção desses casos no mesmo momento em que deles se retractava.
Segundo, porque as 'condições de possibilidade' para a elevada prevalência de pedofilia entre os padres não estão, a meu ver, nas práticas pérfidas de uns poucos como nas regras austeras que a todos regulam. Na maior parte dos casos a pedofilia acontece não tanto porque os padres sejam pedófilos undercover, acontece, isso sim, porque são sujeitos sexualmente descompensados que vão tirar partido, ora da vulnerabilidade de menores como hipótese sexual, ora da vergonha que neles se gera como garantia de silêncio. Não querer perceber isto é assobiar para o lado.
Num "post" do blogue "Blasfémias" comentado por 47 leitores, CAA manifestou o seu agrado pelo facto de Bento XVI, antes de aterrar nos Estados Unidos, se ter declarado 'envergonhado' pelos numerosos casos de pedofilia, "factos que até muito tarde foram negados pela Igreja que protegeu os padres pedófilos até ao limite. Ainda me lembro de ler, há tempos, em blogues que insultam o liberalismo por se dizerem afins, que este caso nada mais era do que uma 'ofensiva ateísta contra a Igreja Católica'…
Para que a Igreja seja coerente, "só falta que o cardeal Bernard F. Law, que já foi de Boston, seja demitido dos vários altos cargos que ocupa no Vaticano. É que Law foi o principal agente encobridor e protector dos padres pederastas.". Retomando uma ideia partilhada por João Miguel Tavares, CAA pergunta-se "se a 'vergonha' de Bento XVI é capaz de passar das palavras aos actos.". E conclui: "Mas eu, também aqui, sou incréu…".
No blogue "Arre Macho": "Bento XVI que desde o dia de S. Francisco Sales, padroeiro dos Jornalistas, anda preocupado com a falta de Infoética - foi aos Estados Unidos lamentar a má gestão do Vaticano no escândalo pedófilo e pedir perdão às vitimas do doentio Clero que dirige. Sem acreditar que tamanha blasfémia mereça a bênção de Deus, o certo é que foi isto que foi divulgado, foi isto que o Papa lá foi fazer.". O comentador acrescenta que há vários padres da América Latina a viver "protegidos em Roma", não sendo extraditados para os seus países.
Um elogio ao gesto do Papa pode ser lido no "Rouxinol de Bernardim": "Ter a humildade e a coragem de pedir perdão às vítimas da pedofilia nos USA, em nome da Igreja Católica, foi um acto que define um verdadeiro líder espiritual. Foi gratificante assistir à postura do papa Bento XVI no tocante aos actos de pedofilia que ensombrara a IC nos Estados Unidos. Ele assumiu a responsabilidade pelos desmandos praticados pelos pastores. Ele arcou sobre si a carga negativa daqueles actos hediondos.".
No entanto, questiona o comentador, "não seria oportuno analisar as causas profundas dessa patologia? De mãos dadas com a ciência era bom que se debruçasse sobre o tema sexualidade. Não será esse 'desvio' fruto do celibato? Não terão direito a uma sexualidade sadia e natural os padres e freiras? Os apóstolos eram casados. Porquê condenar estes agentes da fé a uma situação contra-natura? (...)".
No «site» da IOL, o encontro do Papa com algumas vítimas da pedofilia foi destacado pela positiva: "Ao atender a um pedido de um grupo de seis pessoas vítimas de abusos sexuais, recebendo-as na Embaixada do Vaticano em Washington, durante 25 minutos, Bento XVI ouviu as dores, pediu desculpa, mas fez muito mais do que isso, demonstrou humildade e tornou-se pequeno perante o sofrimento. Aliás, houve quem só conseguisse segurar-lhe nas mãos e chorar."
'Nenhuma palavra minha pode descrever a dor e o mal infligidos por estes actos', afirmou depois o Sumo Pontífice. É claro que não, mas o Papa, ao insistir todos os dias no tema tentou reconciliar-se com os Estados Unidos da América, tentou sarar feridas, tentou redimir-se, tentou apontar o caminho da esperança."
rm
09.05.2008. Actualizado em 12.05.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()
