
A Bíblia contada pelos sabores
“A revelação bíblica também se apreende comendo. E a sua leitura constitui uma minuciosa iniciação aos sabores: ao recôndito sabor do leite e do mel, ao sabor do trigo tostado, ao motivo trânsfuga dos ázimos, ao riso iluminador que o manjar pascal desperta. As escolhas alimentares fundamentam a identidade cultural e religiosa.” Palavras de José Tolentino Mendonça no prefácio ao livro “A Bíblia contada pelos sabores”, com receitas de Albano Lourenço e fotografias de Valter Vinagre.
Estamos assim diante de um livro que à teologia bíblica adiciona a gastronomia. Na primeira parte da obra – “Deus anda pela cozinha” – fala-se da aproximação do Antigo Testamento às prescrições e normativas culinárias, começando por lembrar que “o primeiro mandato que Deus estabeleceu para Adão e Eva, no relato do jardim, foi de categoria alimentar”. Entre os inúmeros preceitos e proibições alimentares cresce a certeza da centralidade do tema.
Com Jesus, as refeições ampliam a sua importância, a começar pela Eucaristia, “que condensa, em torno de uma mesa, o seu inteiro destino, como se todos os seus gestos e palavras confluíssem, afinal, para a unidade desse único momento”. Mas além da Ceia, as refeições tornam-se espaço de confronto com as concepções de proximidade e afastamento defendidas pelos fariseus e, não menos importante, ocasião de encontro, perdão e salvação. Jesus come com todos e come de tudo, e por isso “as regras de pureza e os códigos de honra, vitais na estruturação das sociedades mediterrânicas do 1.º século, vão ser abalados pelo desenvolvimento das comunidades cristãs, que absorvem, numa prática fraterna, gentes e costumes das mais variadas procedências.”
A cozinha é também “metáfora da própria existência, pois distingue-nos uma certa capacidade de viver na transformação, numa mobilidade que não é só geográfica, mas total. (...) A cozinha é o lugar da instabilidade, da procura, da incerteza, das misturas inesperadas, das soluções criativas mais imprevistas”. Nela “torna-se claro que a transformação que damos às coisas reflecte aquela que acontece no interior de nós”.
O próprio Jesus preparou para os seus discípulos uma refeição cozinhada sobre “as brasas postas, e um peixe posto nelas, e mais pão” (Jo 21, 1-13). Neste livro não se ensina a assar o peixe à maneira de Jesus. Mas aprende-se que as refeições, lugares de encontro e de união, têm tanto de útil como de fraterno. “Um versículo do Talmud afirma: ‘Antes de comer estamos separados, habitam-nos desejos diferentes, fazemos a experiência da divisão. Depois de comer o homem redefine-se, reencontra-se, confia.’”
Depois do prefácio, as receitas propostas por Albano Lourenço, que conquistou uma estrela Michelin no restaurante São Gabriel em Almancil. Desde o ano 2000 é o Chefe Executivo do Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde voltou a conquistar nova estrela Michelin.
A ementa apresenta seis entradas, igual número de sopas, sete pratos de peixe, treze de carnes e nove sobremesas. Aqui fica a nossa sugestão para uma refeição à imagem da Bíblia: “odorosa, recôndita, vasta como a mesa celeste, íntima como a mesa materna, grata ao paladar, engenhosa, profusa, profícua”.
Entrada
Figos com codorniz e ervas do campo
(Antigo Testamento)
8 figos frescos
4 codornizes
rosmaninho q.b.
4 dentes de alho
2 dl de vinho tinto
4 colheres de sopa de azeite
Limpe as codornizes e abra-as ao meio. Tempere com o vinho, os dentes de alho e o rosmaninho e deixe a marinar alguns minutos. Frite em azeite e corte-as em pedaços. Corte os figos em gomos. Sirva quente.

Sopa
Lentilhas com azeitonas
(Antigo Testamento)
120g de lentilhas
1 cebola
Meio alho porro
1 ramo de salsa
1 colher de sopa de azeite
Sal q.b.
60 g de azeitonas
Demolhe as lentilhas. Leve tudo, menos as azeitonas, a cozer em água. Triture quando tudo estiver cozido. Descaroce as azeitonas e corte-as às rodelas. Salteie-as em azeite. Sirva quente.

Peixe
Robalo com aipo e molho de vinho
(Novo Testamento)
1 robalo de 1,5 kg
1 bola de aipo
4 talos de aipo e folhas
1,5 dl de azeite
Sal q.b.
Tempere o robalo com sal. Salteie em azeite. Coza a bola de aipo e faça puré. Coza os talos em água e salteie.
Molho de vinho tinto:
4 dl de vinho tinto
50 g de mel
50 g de manteiga
Sal q.b.
Reduza os ingredientes, menos a manteiga, até obter cerca de 1 dl de líquido. Junte a manteiga e mexa bem.

Carne
Cabrito novo
(Tradição cristã)
1,2 kg de cabrito tenro e novo
800 g de abóbora em tiras
4 cebolas em quartos
4 dentes de alho
1 raminho de salsa
50 g de azeitonas descaroçadas
1 cabeça de funcho doce
200 g de miolo de noz
2 dl de zeite
Sal
Louro q.b.
Corte o cabrito em pequenos pedaços e leve a cozer com salsa e cebola. Retire o cabrito passado meia hora de fervura. Corte a abóbora em losangos, o funcho em quartos, a cebola às rodelas e pique o alho. Num tacho coloque todos os ingredientes crus em camadas sucessivas até terminar, não esquecendo o cabrito. Adicione água e o azeite, tempere e leve a cozer. Quase no final adiciona as nozes e as azeitonas descaroçadas.

Sobremesa
Coscoreis ázimos
(Antigo Testamento)
500 g de farinha
3 ovos
1,5 dl de sumo de laranja
1 dl de azeite
50 g de manteiga
Azeite q.b.
Mel
Coloque a farinha numa taça e abra uma cavidade. Coloque no meio da farinha os ovos, o sumo de laranja, o azeite e a manteiga. Amasse bem até obter uma massa homogénea. Tenda a massa e corte em pequenos losangos. De seguida frite em azeite. Sirva acompanhando com mel.

Rui Martins
31.07.2008
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A Bíblia
contada pelos sabores
Autor
Albano Lourenço
Editora
Assírio & Alvim
Páginas
128
Ano
2007
Preço
€ 22,50
ISBN
978-972-37-1275-9