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Música

A dimensão espiritual de Palestine em Lisboa, Barcelos e Guarda

Há cerca de dez anos, em 1999, no âmbito do programa de dança e música paralelo à exposição “Circa 1968”, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, o compositor Charlemagne Palestina (Nova Iorque, 1947) realizou dois concertos memoráveis, tendo sido acompanhado pela coreógrafa Simone Forti no segundo dos espectáculos, preenchido por “Illuminations”, peça para som e movimento. As prestações do músico, ao piano, eram já então caracterizados pelos adereços de que se rodeava, sobretudo uma enorme colecção de coloridos bonecos de peluche, os quais contrastavam com o tom minimal, repetitivo, ressonante, dos temas interpretados – durante as suas performances costuma ter a companhia de uma garrafa de cognac, sendo habitual fumar kretek, cigarros aromatizados com cravo-da-índia consumidos sobretudo na Indonésia.

Palestine, filho de judeus russos, teve as suas primeiras experiências musicais no coro de uma sinagoga de Brooklyn, onde por vezes, tal como é hábito nos templos hebraicos, se cantava durante horas seguidas – esse «drone» sagrado [«drone»: nota ou acorde tocado continuamente, a partir do qual se constrói uma peça] irá repercutir-se, nos anos seguintes, na música composta pelo pianista, que também teve experiências significativas quer enquanto intérprete de carrilhão na igreja episcopal de St. Thomas, situada na vizinhança do Museum of Modern Art, quer, aos 11 anos, como tocador de conga nas actuações de Tiny Tim em clubes de Manhattan. Em 1971, uma viagem á Indonésia irá fazê-lo interessar-se pela tonalidade e ritmos do gamelão, junutando-o a outras influências exóticas, que descobriu no catálogo da Folkways Records, editora fundada, em 1948, por Moses Asch e Marian Distler.

Cartaz do Concerto na Sé de Lisboa

De trabalhos em órgãos de igreja, pianos Böesendorfer, sintetizadores ou carrilhões, o "som dourado" a que tantas vezes se refere - o momento espiritual, metafísico, transcendental de contínua revelação do domínio de outros poderes inefáveis - é a razão de ser das suas extremas buscas, tanto do foro estético, como do sensorial, como religioso, como puramente do espírito. Uma figura chave das vanguardas da música e do som dos últimos 50 anos.

É a dimensão espiritual, ritualística, das peças para órgão de Palestina, que ecoará na quinta-feira na Sé de Lisboa (21h00, € 10,00), num concerto que conta com actuações a solo de Colleen (viola de gamba) e David Maranha (órgão Hammond). O compositor norte-amerciano irá interpretar “Schlingen Blängen”, editada recentemente pela New World – a gravação foi realizada, em 1988, numa igreja holandesa próxima do Mar do Norte, dez anos após a sua primeira apresentação pública. Com cerca de 70 minutos de duração, esta obra constitui “um trabalho microscópico de ressonância e harmonia que requer total dedicação física, mental e espiritual”. O transe na linha do horizonte.

A presença de Charlemagne Palestine em Portugal é motivo para outras iniciativas e concertos, que se iniciam, dia 9, no Espaço Oporto, em Lisboa, com a projecção do vídeo “Island Song”, filmado no Havai, em 1976. Barcelos (dia 17, Auditório da Biblioteca Municipal, 21h45, vídeo e concerto) e a Guarda (dia 18, Teatro Municipal, 21h30, € 5,00) completam o programa dos eventos. (…)

 

Veja o fragmento de uma peça tocada na Catedral de S. Pedro, Genebra

 

Conheça o «site» de Charlemagne Palestine.

Óscar Faria | SNPC

in Público (Ipsilon), 04.04.2008

07.04.2008

 

 

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