
Programação da Cinemateca para Setembro: uma selecção
Da programação da Cinemateca Portuguesa para Setembro, destacamos o ciclo “Ruy Belo e o cinema”, que se associa ao 3º.º aniversário da morte do poeta, ocorrida no passado dia 8 de Agosto. Será apresentado um conjunto de filmes que, mais do que se relacionarem directa ou indirectamente com a sua poesia, foram importantes para ela, ou foram temas dela.
“Splendor in the grass” e “Muriel foram filmes a que Ruy Belo dedicou extraordinários poemas. “In a lonely place” e “Niagara” tiveram como protagonistas actores especialmente queridos do poeta: o "meu irmão Humphrey Bogart" e Marilyn, "a mais bela mulher do mundo", "Eu aprendi a ver a minha infância", escreveu Ruy Belo.
“Niagara” (de Henry Hathaway, 1953, 92 min.) é um famosíssimo filme, que bastaria para "imortalizar" as cataratas do Niagara... Um dos primeiros papéis dramáticos importantes de Marilyn Monroe, numa história com ecos de "film noir": Monroe, cansada de um marido mentalmente instável (Cotten), planeia com o amante fazê-lo desaparecer, utilizando para isso todas as possibilidades oferecidas pelas cataratas. A fotografia de Joseph MacDonald faz maravilhas com a espectacular paisagem. Dia 9, às 15h30, na Sala Dr. Félix Ribeiro.
“In a lonely place” (“Matar ou não matar”), de Nicholas Ray (1950, 90 min.) foi produzido pela sua estrela, Humphrey Bogart, e tem o cinema como pano de fundo. Bogart interpreta o papel de um argumentista suspeito de ter assassinado brutalmente uma jovem empregada de um restaurante, mas é essencialmente um testemunho sobre a violência que todos temos dentro de nós. "Não se perde um olhar / não é verdade meu irmão Humphrey Bogart?". Dia 8, às 21h30, na Sala Dr. Félix Ribeiro.
Através da história de uma jovem viúva que vai em busca do homem que amara durante a adolescência e de uma segunda história, de um jovem perseguido por lembranças atrozes da Guerra da Argélia, Resnais realizou um filme extremamente elaborado a nível da montagem e do contraponto entre som e imagem. Em “Muriel”, o tema da memória junta-se ao do amor: "Como chegar ao amor sem reminiscências, livremente, seja através de uma memória que foge, seja através de uma memória que se impõe?" (Resnais). “Muriel” (“Muriel ou O tempo dum regresso”, de Alain Resnais, França, 1963, 115 min.) é também o título de um dos mais belos poemas de Ruy Belo. "Sou muito pobre tenho só por mim / no meio destas ruas e do pão e dos jornais / este Sol de Janeiro e alguns amigos mais". A 10 de Setembro, 22h00, Sala Luís de Pina.
“Splendor in the grass” (“Esplendor na relva”, de Elia Kazan, EUA, 1961, 124 min. - Legendado em espanhol) adapta uma peça de William Inge que gira à volta dos recalcamentos sexuais. Neste caso, as personagens são dois adolescentes à descoberta do amor no fim da década de 20 do século passado. Kazan construíu um dos mais belos e dilacerantes poemas de amor no cinema, dando os papéis das respectivas vidas a Warren Beatty e a Natalie Wood (esta no papel de Deanie Loomis, que Ruy Belo tão extraordinariamente cantou). A sequência com o poema que dá o título ao filme é um dos momentos mais perfeitos da história do cinema, com essa mulher que " à imaginação pura resiste". Dia 12, às 19h00, na Sala Dr. Félix Ribeiro.
Não-lugares
Outro ciclo a apresentar este mês tem por título “Não lugares – A viagem do cinema nos ‘lugares’ da modernidade”. Os "não-lugares" é um conceito proposto por Marc Augé, antropólogo francês, para designar um espaço de passagem, incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade.
Os "não lugares" são representados, principalmente, pelos espaços públicos de circulação rápida, como aeroportos, estações de metro, auto-estradas, grandes cadeias de hotéis, supermercados, parques de recreio. Lugares difusamente frequentados mas nunca habitados, lugares criados só para desempenhar uma função precisa. Os "não lugares" são os efeitos visíveis e topográficos de aquilo que Augé chama a "sobremodernidade", um conceito antropológico que caracteriza o mundo contemporâneo pela super-abundância de imagens, informações e sugestões. Augé define este conceito utilizando três figuras: o excesso do tempo, de espaço e de identidade. Figuras que serão vistas nas obras de Zhang Ke Jia (o autor que, mais que todos, conseguiu contar-nos a época da transformação política e social da China moderna), e nas fantasias tecnológicas de Herzog. Estas obras são a introdução de uma panorâmica sobre a forma de como o cinema representa os "não lugares", individualizando-os tanto nas metrópoles e nas periferias, como nos hotéis e nos terminais dos aeroportos. "Lugares" que foram sempre elementos fundamentais nas histórias e nas paisagens do cinema. O cinema sendo, provavelmente, um dos meios mais eficazes para a difusão da modernidade, ter-se-á tornado também num dos principais pontos de observação sobre o mundo contemporâneo.
Serão exibidos, entre outros, “Terminal de Aeroporto” de Steven Spielberg (dia 9, 21h30, Sala Dr. Félix Ribeiro); "Dias de Cão", de Ulrich Seidl (dia 15, 22h00 Sala Luís de Pina); “Estrada Perdida”, de David Lynch (dia 16, 19h00, Sala Dr. Félix Ribeiro); “A Última Oportunidade”, de Pawel Pawlikowski (dia 17, 19h30 Sala Luís de Pina); “Fim de Semana”, de Jean-Luc Godard (dia 17, 21h30 Sala Dr. Félix Ribeiro); “Natureza Morta”, de Zhang Ke Jia (dia 23, 19h30 Sala Luís de Pina); “A Vida Futura”, de William Cameron Menzies (dia 26, 19h30 Sala Luís de Pina).
Traços da cultura e do cinema portugueses
“Trás-os-Montes”, de António Reis e Margarida Cordeiro (1976, 100 min.). Sobre “Trás-os-Montes”, canto de amor a uma região e uma das obras máximas do cinema português, observou Fernando Lopes: "É talvez a primeira vez no cinema português que um filme estabelece uma síntese dialéctica ambiciosa quanto ao que os sociólogos chamam de cultura popular". Foi o primeiro filme assinado pelo casal António Reis e Margarida Cordeiro. A abrir a sessão, um curto excerto inicial da velha cópia que a Cinemateca tem do filme, datando da sua distribuição. A nova cópia que será vista resulta do trabalho de preservação e ampliação para 35mm efectuado em 2007, no laboratório da Cinemateca. A exibição será no dia 9, às 19h30, na Sala Luís de Pina.
“Falamos de Rio de Onor”, de António Campos (1974 - 63 min). A par de “Vilarinho das Furnas”, “Falamos de Rio de Onor”, é um dos mais divulgados filmes de António Campos. A existência da aldeia transmontana, fronteiriça a Espanha, foi-lhe indicada em 1971 por Jorge Dias e o projecto nasce da vontade de comparar as comunidades de Vilarinho das Furnas e de Rio de Onor, exemplares de um regime comunitário então em extinção em Portugal. O filme é rodado entre Outubro de 1972 e Agosto de 1973 (numa altura em que o comunitarismo de Rio de Onor se encontrava já em decadência), mas, por dificuldades de post-produção várias, foi exibido uma única vez em Outubro de 1974, só tendo uma difusão mais alargada dois anos depois. A abrir a sessão, um curto excerto inicial da velha cópia que a Cinemateca tem do filme, depositada pela Gulbenkian. A cópia nova é resultado do trabalho de preservação realizado em 2000, no laboratório da Cinemateca. Dia 12, 19h30, Sala Luís de Pina.
“Juventude em Marcha”, de Pedro Costa (Portugal/França/Suíça, 2006, 155 min.). Pedro Costa voltou à comunidade do Bairro das Fontaínhas, depois de “Ossos” e “No quarto da Vanda”. O bairro está já destruído e a narrativa segue um dos seus residentes, Ventura. É um filme sobre um homem que carrega um passado, um homem com fantasmas. O filme também lida com a relação filial (…). É uma história de fidelidade ao nascimento de um bairro, e Ventura contribui muito para esta história de fidelidade". Dia 8, 22h00, Sala Luís de Pina
“Xavier”, de Manuel Mozos (1992-2003, 100 min.). Uma das melhores primeiras-obras portuguesas dos anos 90, que, por vicissitudes várias, só pôde ser concluída e estreada mais de dez anos depois da rodagem. Numa Lisboa que, directa ou indirectamente, dialoga com a de “Os verdes anos” (de Paulo Rocha), “Xavier” é um belíssimo filme sobre uma juventude de identidade dividida entre os mundos urbano e rural, vista com profunda doçura. Dia 19, 19h30, Sala Luís de Pina.
Durante o mês é assinalado o centenário do realizador António Lopes Ribeiro, que, dos cineastas da sua geração, foi aquele que mais se bateu pela criação de uma Cinemateca em Portugal. Serão exibidos “Gado bravo”, “O pai tirano” e “A vizinha do lado”.
O programa comemorativo dos 50 anos da actividade pública da Cinemateca ocupa expressivamente a programação de Setembro, mês em que se conclui a evocação da efeméride. A 29, data das primeiras sessões autónomas da Cinemateca, no Salão Foz, em 1958, o dia será de festa.
Conheça aqui a programação integral
04.09.2008
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