
O Construtor Solness
São várias as ideias que perturbam o leitor/espectador que acaba de ler/ver O Construtor Solness. Enquadrada pelos biógrafos como uma das peças da sua última fase, o drama desperta desde logo a atenção para o confronto entre a velhice de Solness, construtor instalado e bem sucedido, e a juventude de Ragnar e Kaia, seus empregados, em quem o projecta os seus anseios. O remorso e a culpa estão também sempre presentes, sobretudo na relação entre o construtor e a sua mulher, Aline: intui-se ao longo do texto que o sucesso de Solness se ficou a dever, se não exclusivamente, pelo menos em parte a um incêndio na casa dos pais daquela, que por sua vez resultou na morte dos filhos gémeos de ambos. Nem Solness consegue deixar de sentir remorsos, nem Aline de pensar que poderia ter evitado aquela tragédia. E depois, a presença perturbante da jovem Hilde que, como vinda de um sonho, no limiar entre a realidade e o etéreo (será que é mesmo real, Hilde?), agita as bases burguesas da vida do construtor. Todos estes aspectos foram glosados por comentadores da obra de Ibsen, e o que aqui se dissesse ficaria sempre a dever-lhes em conhecimento e profundidade. Gostaria por isso de salientar um outro aspecto, que talvez tenha que ver com todos eles, mas que de certa forma escapa às análises tradicionais desta peça: o tom desesperado que, como um lamento, atravessa todo o texto.
Seria de esperar que a idade de Solness lhe trouxesse – como vemos descrito em outras peças e romances –, uma distância do contingente que preocupa e obceca a juventude. Tendo gozado todas as coisas, tendo alcançado tudo, o Construtor veria que nada do que a sua perseverança lhe trouxe chegara para alcançar a paz de espírito. E verificaria que o sentido que sempre procurou para a sua existência e que continuou a escapar-se-lhe mesmo depois da acumulação de feitos e honrarias, teria de ser encontrado alhures. Solness confronta-se com tudo isto. Mas insiste em procurar sentidos no efémero, não abdica da sua posição, persiste na explicação supersticiosa dos eventos mais perturbantes da sua vida, alimenta as paixões. E assim, numa fase que é comummente associada ao descanso da alma, Solness continua desesperado com a ausência de sentido, e com a permanente insatisfação que a segue.
Nessa medida, e a esse ponto chamo a atenção, Solness é o retrato do homem do século que haveria de começar após a morte de Ibsen, e é também nessa medida que o autor é genial: procurando sentido nas coisas, no efémero, no que consegue abarcar com as suas próprias forças e inteligência, este homem desespera, porque se reconhece fraco para, sozinho, explicar a sua existência. Sem o ápice da transcendência, tudo carece de sentido, quando o fervor das novidades e a exaltação das paixões esmorece. Nessa medida, Solness tem a felicidade de cair, no último acto, e de não descer para mais uma desilusão.
Francisco Mendes Correia
© SNPC - Publicado em 05.12.2007
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