
Por um cristianismo da compaixão no século da globalização
A obra “Deus no século XXI e o futuro do cristianismo” é essencialmente constituído pelas comunicações ao Congresso Internacional com o mesmo nome, realizado no Seminário da Boa Nova, Valadares, de 8 a 11 de Setembro de 2005, por ocasião das celebrações do 75.ºaniversário da Sociedade Missionária Portuguesa (Missionários da Boa Nova).
Coordenado pelo P. Anselmo Borges, o livro conta com as contribuições de Adriano Moreira, Alexandre Castro Caldas, Andrés Torres Queiruga, Fr. Bento Domingues, Daniel Serrão, Edward Schilllebeeckx, Enrique Dussel, Fernando J. Regateiro, João Maria André, Joaquim Fernandes, Johann Baptist Metz, José María Mardones, Juan Martín Velasco, Juan Masiá Clavel, Manuel Pinto e Teresa Toldy.
Transcrevemos seguidamente um extracto do último artigo da obra – intitulado “O futuro do cristianismo na Europa do século XXI” – da autoria do teólogo católico Johann Baptist Metz (n. 1928).
“Cristianismo da compaixão”. No contexto do nosso tema, esta fórmula quer fazer valer um resultado bíblico central. Dou aqui uma explicação breve, a partir das tradições do Novo Testamento. As histórias de Jesus tornam claro o seguinte: a atenção especial de Jesus, de certo modo o seu primeiro olhar, não se dirigiu ao pecado dos outros, mas ao seu sofrimento. Esta sensibilidade radical ao sofrimento alheio caracteriza o seu modo novo de viver. Ela nada tem a ver com uma atitude dolorista, nada tem a ver com um desgraçado culto do sofrimento. Ela é sobretudo a expressão totalmente não sentimental daquele amor que Jesus tinha em mente, quando – aliás totalmente na tendência da sua herança judaica – falou da unidade indissolúvel do amor de Deus e do amor do próximo: paixão por Deus enquanto compaixão, mística da compaixão. Um cristianismo que vai à raiz de si mesmo percebe que é com isso que tem a ver.
Com isto não se está de modo nenhum a pôr em questão o significado especial da Paixão de Cristo e em geral o significado da culpa e do pecado na mensagem de Jesus. Aqui são apenas os cristãos que devem ser interrogados: Não terão talvez os cristãos ao longo do tempo compreendido e praticado o cristianismo demasiado exclusivamente como uma religião sensível ao pecado e consequentemente como uma religião demasiado pouco sensível ao sofrimento? Não têm os cristãos compreendido a Paixão de Cristo um pouco à maneira do conhecido filme de Mel Gibson, de tal modo que na e por trás da Paixão de Cristo ficaram simplesmente esquecidos e desaparecidos a história da paixão da humanidade e o tão grande número de crucificados nos caminhos da história? Não baniram os cristãos demasiado rápida e despreocupadamente do anúncio cristológico e escatológico a pergunta, o grito por Deus perante a história do sofrimento do mundo?
Compaixão! (…) [Ela] não é um co-sentimento de cima ou de fora, mas a percepção do sofrimento alheio no qual se toma parte e que obriga. Ela exige a preparação para uma mudança do olhar, aquela mudança do olhar a que as tradições bíblicas (e especialmente também as histórias de Jesus) constantemente convidam, concretamente para nos vermos e avaliarmos sempre a nós mesmos também com os olhos dos outros, sobretudo dos outros que sofrem e são ameaçados e para dedicarmos a esse olhar pelo menos um pouco mais de tempo do que os reflexos espontâneos da nossa auto-afirmação conseguem permitir (cf. Mt 25, 31-46). Para esta compaixão vale o imperativo categórico: “Repara, olha e ficas a saber” (H. Jonas).
Aliás, na minha opinião, isto constitui o caminho tipicamente bíblico para a mística em geral, portanto, para a auto-relativização mística, para o “abandono do eu” – não enquanto dissolução do eu, não enquanto desaparecimento do eu no vazio informe de um universo sem sujeito, mas enquanto entrada e crescimento cada vez mais profundo numa aliança, naquela aliança mística entre Deus e os homens, na qual – diferentemente das religiões do Extremo Oriente – o eu não é pura e simplesmente dissolvido misticamente, mas é reclamado e convocado político-moralmente, reclamado e convocado numa mística de compaixão: paixão por Deus, que se experiência e demonstra como compaixão, como mística dos olhos abertos. Esta mística da compaixão é, através do encontro com os outros que sofrem, uma mística “terrena”: ao mesmo tempo frequentemente não é senão a experiência assumida de uma “paixão por Deus”, não para, desse modo, às experiências quotidianas, por vezes terrivelmente “profanas” de sofrimento, acrescentar uma religiosa, não para desse modo à história pública do sofrimento do mundo no fim acrescentar uma privada, mas para nesta mística da paixão por Deus reunir todas as nossas experiências de sofrimento que clamam ao céu, arrancá-las ao abismo do desespero e do esquecimento e encorajar uma nova praxis que inclui evidentemente a capacidade de culpa e a necessidade de conversão de quem age – não para a seguir anestesiar de novo a nova acção pública mediante um romantismo afastado da política, mas para lhe retirar a base do ódio e da violência pura. Precisamente isto parece-me especialmente importante numa situação em que todos os grandes conflitos políticos estão ameaçados de desembocar em lutas culturais e religiosas impiedosas.
Como a curiosidade teórica pode ser considerada o dom tipicamente grego à Europa e como o pensamento do Estado e do Direito pode ser considerado o dom tipicamente romano, assim, na minha opinião, o espírito da compaixão pode ser considerado o dom tipicamente bíblico á Europa na idade da globalização e do seu pluralismo de mundos religiosos e culturais. Neste espírito da compaixão, mostra-se a força do cristianismo, uma força que toca e penetra o mundo. Ele envia os cristãos para a frente dos conflitos políticos, sociais e culturais no mundo actual. Nele, encontra-se a raiz da resistência à autoprivatização do cristianismo nas nossas relações pluralistas. Ele define a mística da compaixão enquanto mística política.
Vou explicar com base em exemplos que tomam em consideração a situação do nosso novo século.
Este espírito da compaixão quer ser inspiração e motivo para uma nova política da paz. Aperceber-se e na acção pública ter em atenção o sofrimento alheio – incluindo o sofrimento dos até agora inimigos – é o pressuposto para uma política promissora da paz nas nossas relações globalizadas. O confronto do Ocidente com o Islão e com o mundo árabe em geral só não terminará numa luta impiedosa das culturas, se o Ocidente, para lá do legítimo combate militar ao terrorismo, mostrar que está disposto a olhar-se e avaliar-se a si mesmo não apenas com os próprios olhos, mas também com os olhos do “resto” do mundo (“resto, como traiçoeiramente se diz muitas vezes). Faz falta concretamente em primeiro lugar a altura comum do olhar nas nossas relações globalizadas. O monoteísmo bíblico – o espírito da compaixão chama a atenção para isso – não é um qualquer monoteísmo abstracto e meta-histórico de amigo-inimigo, mas sim, no seu núcleo, um discurso sobre Deus sensível ao sofrimento, um discurso sobre Deus, que só pode certificar-se a si mesmo com a pergunta pelo sofrimento, com a interiorização e a memória do sofrimento alheio. É preciso invocar e convocar este discurso “frágil”, vulnerável, com empatia, sobre Deus, nas tradições das três grandes religiões monoteístas, para os judeus, os cristãos e os muçulmanos. De qualquer modo, no diálogo religioso com o Islão, a referência às raízes bíblicas neste discurso sobre Deus não deve levar a não colocar a questão das diferenças profundas na compreensão do monoteísmo (como aliás na compreensão das Escrituras sagradas em geral).
Mais: o espírito da compaixão pode servir de incitamento a uma nova política do reconhecimento. Nas relações políticas globais, pode hoje estar em questão não apenas a relação de um parceiro do discurso com os outros parceiros do discurso, mas – de modo mais fundamental – a relação de alguém com os outros ameaçados e excluídos, portanto, precisamente também a relação coma s vítimas desta globalização. As relações estritamente simétricas de reconhecimento, como se pressupõe na concepção das nossas sociedades discursivas e de progresso, em última análise não vão além de uma lógica das relações do mercado, da troca, da concorrência. Só relações assimétricas de reconhecimento, só a entrega de alguém aos excluídos e esquecidos quebra a violência desta lógica. Certamente não poucos verão neste acento na assimetria um conceito demasiado enfático da política. De facto, apenas reclama aquela “implicação moral” irrenunciável da política e do espaço público político, sem a qual a política, a política mundial seria só o que já hoje parece ser: refém da economia e da técnica na idade dos mercados sem fronteiras e de uma biopolítica cada vez mais sem fronteiras.
Neste sentido, o espírito da compaixão exige também o princípio da igualdade fundamental de todos os homens. Esta igualdade foi completamente estranha às democracias antigas, ela tem o seu fundamento inequívoco na Bíblia, e isso sobretudo também na sua viragem moral: “Não há sofrimento no mundo que nos não diga respeito”. O cristianismo remete assim notoriamente para uma autoridade de quem sofre, antes de mais dos que sofrem injusta e inocentemente. Esta autoridade dos que sofrem seria a autoridade interior de um ethos global, de uma moral mundial, que obriga todos os homens anteriormente a qualquer votação, a qualquer entendimento, e que por conseguinte não pode ser posta de lado ou relativizada por nenhuma cultura e por nenhuma religião, também não pela Igreja. E uma política inspirada por este ethos seria mais e diferente de uma pura executora do mercado e da técnica e das suas opressões objectivas nos nossos tempos de globalização.
Por fim, o espírito da compaixão exprime-se num espaço público pluralista que, sob a ditadura do pragmatismo político, gera ou favorece exclusivamente uma cultura do esquecimento do sofrimento. Ora, o que seria se um belo dia os seres humanos se pudessem defender da infelicidade e da desgraça apenas com o esquecimento sem compaixão para com as vítimas, portanto com uma cultura da amnésia, na qual talvez o tempo cure todas as feridas? De que se alimentaria então a rebelião contra os sofrimentos inocentes e injustos no mundo? O que é que impulsionaria ainda então a mobilização para uma nova maior justiça?
Precisamente face a esta constituição da nossa consciência pública, acentuo eu a sensibilidade fundamental ao sofrimento por parte da mensagem cristã. Eu não nego que também o próprio cristianismo desde o princípio teve grandes dificuldades com isto. A pergunta pela justiça para os que sofrem injustamente, que inquieta profundamente as tradições bíblicas, foi, na minha opinião, concretamente com a teologização do cristianismo, transformada demasiado exclusivamente na pergunta pela redenção dos culpados. A questão da teodiceia (não na sua versão filosófica de Epicuro e declarada “esgotada” por I. Kant, mas na sua versão bíblico-apocalíptíca), com a soteriologia cristã, mediante a mediante a interpretação da mensagem da morte expiatória de Jesus, foi reprimida ou completamente esquecida. O cristianismo dramatizou demasiado a questão da culpa e relativizou a questão do sofrimento. Mas isto não paralisou a sensibilidade elementar ao sofrimento alheio e não desertificou a visão bíblica da grande justiça de Deus, que, segundo Jesus, deveria saciar toda a fome e sede? Talvez fosse isso que F. Nietzsche rejeitava radicalmente e denunciou como “moral de escravos”; mas precisamente isso é o que hoje o cristianismo – nos processos de globalização – tem de testemunhar em primeiro lugar: compaixão enquanto expressão da sua paixão por Deus.
Pergunta-se: mas não soa para muitos este cristianismo da compaixão em última análise como um vago romantismo pastoral? Dir-se-á que pode ser que este espírito da compaixão teria sido vivível publicamente nas relações passadas, em passados mundos de vizinhança, em antigas sociedades rurais e citadinas em que as relações eram face a face e olhos nos olhos. Mas, hoje, como se ergue e mantém face à anonimidade neutra das nossas relações globalizadas?
Para concluir, eu quereria chamar a atenção para uma coisa: não é apenas o sofrimento e a infelicidade que assentam arraiais em toda a parte do mundo, perto e longe; entretanto, também o cristianismo está presente em toda a parte, aqui e ali, umas vezes em minoria, outras em maioria. Não é por acaso que a Igreja é a instituição global mais antiga do nosso mundo. Ela está praticamente em todo o lado ao alcance da vista e de poder ouvir o apelo; postas as coisas com precisão, para ela não há nenhuma infelicidade longínqua e nenhum sofrimento inatingível. Se e na medida em que se organiza cada vez mais em rede, ela não precisa propriamente de servir-se de nenhuma “ética das distâncias” sem consequências. Há entretanto – falando simplesmente de um ponto de vista estatístico – sobre a terra dois mil milhões de cristãos. Eu sei, eu sei: “só segundo as estatísticas”. Apesar disso, para concluir, ouso sonhar para o século que nasce: O que aconteceria se todos os cristãos nos seus diferentes mundos da vida ousassem avançar com a experiência desta compaixão – ainda que pequena e pouco vistosa, mas sempre nova e sem desalento? O que aconteceria se se alcançasse entre todos os cristão uma ecúmena da compaixão e se este espírito da compaixão penetrasse cada vez mais, para lá dos apelos morais, nos fundamentos da nossa vida pública em comum? Não lançaria isto nova luz sobre a nossa terra, sobre este mundo do século XXI dolorosamente cindido nas tormentas da globalização?
Johann Baptist Metz
© Campo das Letras - Publicado em 07.12.2007
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Deus no século XXI e
o futuro do cristianismo
Autores
Vários
Coordenador
Anselmo Borges
Editora
Campo das Letras
Páginas
446
Ano
2007
Preço de capa
€ 21,00
ISBN
978-989-625-174-1
O espírito da compaixão pode ser considerado o dom tipicamente bíblico á Europa na idade da globalização e do seu pluralismo de mundos religiosos e culturais
Só relações
assimétricas de reconhecimento,
só a entrega de
alguém aos excluídos
e esquecidos quebra
a violência da lógica
das relações do
mercado, da troca,
da concorrência
O espírito da
compaixão exprime-se num
espaço público
pluralista que, sob
a ditadura do
pragmatismo político,
gera ou favorece exclusivamente uma cultura do esquecimento do sofrimento
O cristianismo
dramatizou
demasiado a questão
da culpa e relativizou
a questão do sofrimento. Mas isto não paralisou
a sensibilidade
elementar ao
sofrimento alheio
e não desertificou
a visão bíblica
da grande justiça
de Deus
O que aconteceria
se todos os cristãos
nos seus diferentes mundos da vida
ousassem avançar
com a experiência
desta compaixão –
ainda que pequena e pouco vistosa, mas sempre nova e sem desalento?