
O cristianismo e a atitude religiosa contemporânea: factos e desafios
Todos experimentamos que o mundo atravessa uma crise de fim de uma época. Sucedem-se mutações culturais profundas, a um ritmo vertiginoso, impossíveis de controlar e orientar. Assemelham-se a uma série de abalos sísmicos com repercussões em todos os âmbitos da vida: familiar, social, cultural, político, económico e religioso. Afectam até os valores fundamentais e perenes.
Está a nascer, de forma confusa e algo caótica, um mundo novo, um modo novo de viver no mundo. E todos sofremos as dores deste parto difícil.
Mudou também o contexto em que se vivia e transmitia a fé. Salta aos olhos de todos que já não vivemos mais numa “sociedade cristã” (a cristandade), em que a fé se transmitia em família como uma herança e era protegida pelo ambiente social e cultural, ainda com referências aos princípios cristãos. A fé deixou de ter este suporte ambiental.
Hoje vivemos numa situação de pluralismo social e cultural. São-nos apresentados e oferecidos, como num mercado, os mais diversos projectos e modelos de vida. Muitos deles são estranhos ou contrários ao Evangelho e geram confusão nos cristãos que não têm a preparação sólida da fé.
Confrontamo-nos ainda com o pluralismo religioso. Surge, inevitavelmente, a questão da identidade cristã: porque sou cristão? O cristianismo é apenas mais uma religião entre as outras? Onde está o específico da fé cristã?
Assistimos também a uma perda progressiva da memória cristã tanto a nível colectivo como individual. Há tentativas de fazer aparecer a fé cristã como estranha à cultura ou à moda dominantes, como relíquia ou vestígio do passado, do tempo dos nossos avós. Vai-se tornando moda ser agnóstico. Instala-se um clima de indiferença religiosa em que não há “ouvido interior” para Deus, nem “apetite” espiritual. Neste clima, muitos cristãos deixaram-se atingir por um complexo de inferioridade, pelo temor de ser diferentes.
Mais impressionante é o analfabetismo e a iliteracia religiosos. Uma constatação que não podemos iludir é a grande ignorância de muitos católicos sobre os conteúdos, as noções e os conceitos mais elementares da fé. Há cristãos de idade adulta que, em relação ao conhecimento da fé, permanecem ao nível infantil. Permanecem numa religiosidade vaga e superficial; são incapazes de dialogar com a cultura e de enfrentar, à luz da fé, as novas questões que hoje se põem. E não raramente trazem consigo representações deturpadas da fé. Reduzem-na a um conjunto de práticas, de preceitos, obrigações e proibições como se fosse um fardo. Assim não descobrem a riqueza, a beleza e o encanto da fé em Jesus Cristo. De facto, a ignorância religiosa é hoje uma das “chagas” da Igreja e o maior inimigo da fé.
Mesmo ao nível da catequese de crianças e adolescentes, apesar de todos os esforços louváveis para a sua renovação, os resultados não são muito satisfatórios. Fico triste quando vou crismar a algumas paróquias e o pároco, antecipadamente, me diz: “Senhor Bispo, destes crismandos ficam apenas uns 10% de fiéis praticantes”. Ouço calado e interrogo-me interiormente: será que estou destinado a ser bispo crismador de ateus práticos que vivem como se Deus não existisse? Mas, apesar disso, é mais forte em mim a esperança de que a semente lançada à terra dará frutos a seu tempo!...
Em síntese, verifica-se entre nós o diagnóstico que João Paulo II traçou a respeito da situação europeia: “Muitos europeus pensam que sabem o que é o cristianismo, mas realmente não o conhecem. Frequentemente, ignoram os rudimentos da fé. Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se gestos e sinais da fé por ocasião das práticas de culto, mas sem a correlativa e efectiva aceitação do conteúdo da fé e adesão à pessoa de Jesus. Em muita gente, as grandes certezas da fé foram substituídas por um sentimento vago e pouco empenhativo; difundem-se várias formas de agnosticismo e ateísmo prático que concorrem para agravar a divergência entre a fé e a vida; muitos há que se deixaram contagiar pelo espírito de um humanismo imanentista que enfraqueceu a sua fé, levando-os, com frequência, a abandoná-la completamente” (Igreja na Europa, nº 47).
Na noite da fé há também “estrelas da manhã” que anunciam o despertar da aurora. Notam-se sinais de uma busca espiritual, de procura da bondade e da beleza da vida, que abrem caminhos ao anúncio do Evangelho. Têm surgido na Igreja novos dons do Espírito e múltiplas iniciativas que reacendem a chama da fé e a fortalecem. Despontam propostas de formação e tem crescido o interesse e a adesão de muitos fiéis. Há adultos que redescobrem a fé como uma música nova que dá esperança e alegria à vida. Sinto isto nas visitas pastorais. (...)
Cada idade é uma estação da vida que comporta os seus desafios e a sua maturação adulta. Não basta ser adulto em idade, para ser adulto na fé! Uma grande parte dos cristãos crescem em idade e em cultura, mas ao nível da fé ficaram com os conhecimentos infantis. Na sociedade actual tão complexa, não se permanece cristão só pelo facto de se ter aprendido a sê-lo, quando criança ou adolescente. Tornar-se cristão e adulto na fé não é algo automático.
Também como adultos temos necessidade de um aprofundamento da fé para que esta seja uma escolha pessoal e fundada, e para o diálogo entre a fé e a cultura do nosso tempo. Para isso, não bastam as homilias ou assistir a uma conferência avulsa. Torna-se indispensável uma formação sistemática. (...)
Outra lacuna a preencher com urgência é a falta de conhecimento e de gosto da Palavra de Deus contida na Bíblia. A Bíblia, porém, é o primeiro livro da fé e da cultura cristãs. É uma vergonha que grande parte dos católicos não tenham familiaridade com a Palavra de Deus por ignorância e incapacidade de ler e entender a Bíblia. Ora, como diz São Jerónimo, “a ignorância das Escrituras é a ignorância acerca de Cristo.” Como se pode amar Aquele que se não conhece? Neste sentido é necessário que, a nível de paróquias ou vigararias, se realizem cursos de iniciação à Bíblia ou “serões bíblicos”.
Além disso, “um meio seguro para aprofundar e saborear a Palavra de Deus é a lectio divina que constitui um verdadeiro itinerário espiritual. O estudo e a meditação da Palavra de Deus devem levar à adesão a uma vida conforme a Jesus Cristo e aos seus ensinamentos” (Bento XVI).
D. António Marto
Bispo de Leiria-Fátima
23.09.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()



