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Desafio

Cultura: o maior bem

A cultura nasce dos percursos singulares dos indivíduos ao construírem a sua identidade face às comunidades a que estão ligados. Cada sujeito constrói a sua identidade cultural através da consciência reflexiva, encontrando diferentes disposições para interagir no mundo, reproduzindo e apropriando os aspectos culturais que toma como seus e, raras vezes, inovando.

Se a criatividade é individual, a cultura é a súmula da partilha de experiências e dos modos de vida de um grupo, ou comunidade, que procura fazer sentido dessas vivências atribuindo valor simbólico aos objectos, às interacções e às instituições. Chamamos cultura à criação de valor a partir do enquadramento simbólico das diversas crenças e práticas, fruto do nosso espírito, corpo e mente. Nela incluem-se necessariamente as diferentes formas de arte, enquanto tentativa de nos elevarmos pelo alcance estético dos nossos modos de expressão. Nas suas formas mais belas, a arte é o que de mais notável é produzido pelo ser humano no seu impulso para o ser, no sentido de tornar-se humano; ela aspira ao «summum bonum» (o maior bem) e liga-se à mais nobre vocação humana: sermos para os outros, pelo absurdo do projecto de sermos só para nós mesmos.

Como peça fundamental dos sentimentos de pertença, a cultura encabeça os conflitos gerados pelas grandes mudanças sociais das últimas décadas. A interconectividade planetária – a circulação da informação, do conhecimento, dos bens e das pessoas –, produz, num pendor fatalista e negativo, desde os mais brandos receios da homogeneidade de uma cultura global indiferenciada e da sobrevivência das culturas, ao pior dos medos: o medo da diferença, do desconhecido, do novo e do absolutamente outro, e cujas reacções «in extremis» culminam na tentativa de aniquilar tal ameaça à soberania do eu. Porém, o processo de globalização é assimétrico; não existe ainda uma homogeneidade cultural planetária. Além disso, a globalização é alvo de reflexão e intervenções constantes, fruto do potencial democrático e da horizontalidade, ainda que de acesso diferenciado, das tecnologias da comunicação. A visão global do mundo potencia ainda o culto da diferenciação dos locais e permite repensar o impacto das políticas nacionais irresponsáveis, do economicismo, do cientismo e da cultura do progresso no agravamento das desigualdades sociais e da pobreza, bem como na acelerada degradação do planeta Terra.

Imagem
Véronique Joumard

Na era da criatividade e da inovação constante, um dos nossos grandes desafios é transitar de um sistema de formação herdado da era industrial – em que os indivíduos deveriam sobretudo obedecer, memorizar e compreender – para modelos que acondicionem e estimulem o enorme potencial criativo de todos os seres humanos.

Portugal mantém um considerável atraso cultural. Devemos agora reflectir sobre o que queremos ser hoje na Europa e no mundo.

Como podemos garantir a circulação, visibilidade e troca cultural que evite a importação de bens culturais aos quais nenhuma experiência significativa pode ser ligada; um mimetismo sem sentido ou valor, na ausência de uma efectiva intimidade dos seres humanos? Que cultura queremos atear? Urge traçarmos uma estratégia nacional que facilite o acesso de todos às expressões artísticas, que apoie a criação e a busca da qualidade estética, que valorize a herança comum multicultural, favoreça a participação numa cultura representativa e sustentada, e, sobretudo, que estimule o capital criativo dos sujeitos como salvaguarda da nossa capacidade de inovação futura e geração de riqueza. Para o «summum bonum».

Fernanda Maio
Coordenadora do Grupo Cultura do "Novo Portugal - Opções de uma geração"

in Expresso, 08.03.2008

11.03.2008

 

 

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Amadeo Souza-Cardoso



















Como podemos garantir
a troca cultural que
evite a importação
de bens culturais aos
quais nenhuma
experiência significativa
pode ser ligada?

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