
A cultura e as vocações
O Congresso Europeu das Vocações realizou-se este ano no Porto, entre os dias 3 e 6 de Julho. Em declarações ao jornal Voz Portucalense, o Cardeal Patriarca de Lisboa referiu que o individualismo patente nas vocações ocidentais “tem origem numa base cultural”, que relativizou muito a compreensão humana.
As sociedades passaram a ser um conjunto de indivíduos – voltadas para os seus “interesses, direitos, reivindicações e falhas” – e não um conjunto de comunidades. Para D. José a “co-responsabilidade dinâmica comunitária foi-se perdendo aos poucos e poucos”, embora não se tenha desaparecido completamente. “Ainda há muita gente com este ideal comunitário”, acrescentou, porque a “força do testemunho é, pelo menos, tão importante quanto a força da Palavra e a própria Palavra deve ser comunicada com a força do testemunho”. D. José Policarpo apontou também a cultura, na sua estrutura elementar, como “um grande cozinhado, em que se misturam imensos ingredientes”, em que o problema é saber qual deles faz a síntese final. Usou esta metáfora para explicar a raiz europeia, “inegavelmente judaico-cristã”. É daqui que partem os muitos “cristãos de tradição” e os de opção. Por fim, caracterizou também as culturas como efémeras, que “não estão fixas e adquiridas para todo o sempre”, já elas mudam a um ritmo tremendo pela “aceleração da vida moderna”.
Por seu lado, D. Jean-Louis Bruguès, Secretário da Congregação Pontifícia da Educação Católica e Arcebispo de Angers (França), revelou ter uma visão mais ampla sobre a cultura cristã e a pastoral vocacional. Considerou que, o primeiro desafio “é de saber como nos colocamos perante a secularização na sociedade. A secularização não é um fenómeno histórico e por si mesma não explica o que se expõe. A sociedade secular tem valores que são a força do mundo cristão (a solidariedade, a responsabilidade, a liberdade, a igualdade e o direitos das pessoas, etc.), pelo que é preciso apoiar estes valores, de maneira a estimulá-los nos encontros e buscas entre católicos e não católicos.
D. Jean-Louis foi ainda questionado sobre a retórica do Presidente francês, que tem assumido a presença e importância de Deus nos seus discursos: Segundo Sarkozy, a fé é uma questão pessoal, privada e não pública. Foi ele o primeiro que teve a coragem de dizer que a Sociedade, mesmo secularizada, tem necessidade dum modelo religioso. “Encontro nesta afirmação o início duma abertura dum novo diálogo entre o Cristianismo e a Sociedade”, concluiu o prelado.
Voz Portucalense | rm
28.07.2008
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