
D. Carlos Azevedo em entrevista à TSF
Em entrevista à TSF, D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa e Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, abordou o centenário da República, a relação com a Maçonaria, o papel dos leigos na política e o futuro do cristianismo. E falou ainda de uma improvável competição entre os ovos de chocolate e a Cruz do Compasso Pascal. Extractos de uma conversa conduzida pelo jornalista Manuel Villas-Boas.
Aproxima-se o centenário da República, que não terá tratado da melhor maneira a Igreja – veja-se o caso de D. António Barroso, o Bispo do Porto. A Igreja prepara-se para essa efeméride com cuidado?
A nossa preparação está já em curso. Haverá várias iniciativas, entre elas científicas, com um congresso onde se possa debater por exemplo a separação, de modo internacional. Pensamos trazer pessoas no campo da história que leiam como é que se fez a separação no México, em França e noutros lados, para perceber o que é isso da separação entre Igreja e Estado, que é um bem para a Igreja. Agora, nós sabemos que em Portugal deu lugar a uma série de abusos de autoridade e de despotismo. Se a questão for lida historicamente, os herdeiros de Afonso Costa deviam sentir herdeiros de um homem que limitou a liberdade, que foi um ditador, que fez censura à comunicação social. Se hoje os que são herdeiros do Afonso Costa querem seguir-lhe os passos, acho que é muito mau para a democracia porque ele foi um déspota. Mesmo a perseguição que fez à Igreja, que foi uma questão religiosa que ele levantou, também demonstrava quanto estes homens da República estavam impreparados para governar e para dirigir o país.
De qualquer maneira, o Cardeal de Lisboa, recentemente, na memória do regicídio, veio lançar alguns alertas, dizendo que também a Igreja teve aí as suas culpas.
Eu penso que é a forma serena com que deve ser encarado o momento, sem querer reler ou limpar a História. Ver os factos, com serenidade. Não se trata aqui de culpar ninguém, mas trata-se de aprender também com esse momento. Ver que houve mártires, com certeza, houve gente que foi perseguida, houve gente que estava muito ligada ao Regime pelo que a sua perseguição era quase inevitável. Portanto é preciso nós percebermos que há muitas vezes, nestes momentos críticos da História, um ajuste de contas com o passado.
Há algum contencioso da Igreja Católica com a Maçonaria?
O contencioso não é evidente. Nós notamos é que há por vezes algumas tomadas de posição, aqui e acolá, nalgum Ministério, que nos parece ter como acicate, como pano de fundo uma mentalidade de querer reduzir a presença da Igreja na sociedade, de querer limitar a presença da Igreja no mundo, o que leva a perguntar de onde é que virá essa força que quer lutar contra. Às vezes diz-se “aqui há Maçonaria por trás”; mas como é uma organização secreta, não se sabe bem se será, se não será. Agora, penso que não há um contencioso entre uma realidade e outra. Há um esclarecimento sobre os diferentes tipos de Maçonaria – uma mais do tipo inglês e escocês, e uma mais francesa, que tem posições diferentes. Às vezes uma confunde-se com a outra para ter uma relação diferente para com o fenómeno religioso e com a vida eclesial. (…)
Aqui ao lado, em Espanha, Zapatero continua a ganhar eleições, ainda que sem maioria e sem o apoio da Igreja Católica, com quem tem mantido um diferendo bastante tenso. Que lhe parece? Quem é que vai ganhar esta guerra?
Eu penso que a situação em Espanha é muito diferente da nossa, quer pela situação da Igreja propriamente dita e da sua história, que mesmo da atenção política, ou da tensão política que se vive. O que me surge deste modo de a Igreja reagir, como quem observa de fora - e nós não queremos certamente intrometer-nos na vida de cada uma das Igrejas; aliás, temos de dois em dois anos um encontro das presidências das duas conferências episcopais para trocarmos pontos de vista, havendo boas relações – é que devia haver uma posição não tão colada politicamente por parte da Igreja espanhola. Nós sempre defendemos que os leigos devem estar presentes em vários partidos, com a sua sensibilidade, em várias formas de resposta política. A resposta política dos cristãos é muito importante, e em Portugal também deve ser. Os cristãos devem estar na vida política porque essa é uma prova da sua ética. E o futuro será muito da Teologia Política das Igrejas. (…)
Acha que o cristianismo tem futuro perante os avanços da ciência, do materialismo científico?
O cristianismo tem todo o futuro porque é uma resposta profunda às questões essenciais da vida. A ciência tem a sua independência, a sua autonomia para desenvolver e encontrar a explicação para o ser humano, para o mundo, para tudo aquilo que nós devemos enfrentar no futuro. E portanto o contributo da ciência é um contributo que nós todos desejamos que seja bom para a nossa saúde, para o tratamento do ambiente, para todas aquelas dimensões que nos preocupam. Mas nós situamos a resposta da fé noutro âmbito, que é o da profundidade da vida, da existência. E nesse lugar, o facto de celebrarmos a Páscoa nestes três dias [o Tríduo Pascal] é um mergulhar no centro do drama humano, percebendo que em Jesus está o drama da existência humana. E redescobrir que aí há dimensões de nova vida que nascem do próprio sofrimento, da própria cruz, da dificuldade da existência humana. E por isso é que o tempo pascal, os cinquenta dias, são a resposta de ressurreição, de vida nova, que é necessária.
E quem é que vai ganhar a corrida nestes dias? O coelho a saltar, o ovo, um desses chocolates deliciosos, ou a cruz enfeitada do Compasso da visita pascal que se faz ainda no Norte e no Centro do país?
Eu penso que aqui não se trata de uma corrida porque no Compasso também há lá os ovinhos e os doces. A nossa Páscoa portuguesa é muito doce e achocolatada.
Mas a verdade é que o coelho vence com certeza ao Ressuscitado.
Eu penso que a campanha que o «marketing» pode fazer para vender alguns produtos é aproveitar o carácter festivo da época. E se a abundância da comida no tempo pascal é, no fundo, uma “vingança” do jejum que se praticou nos dias anteriores, nós percebemos que aqui há o carácter da festa, que é o da abundância, da plenitude, que fazem parte do simbolismo da própria festa. E a razão da festa está em Cristo ressuscitado, nem que nós não tenhamos consciência disso.
Essa seria a mensagem de Páscoa que faria publicar contra essa tristeza que foi tão defendida na Quaresma?
Eu penso que a tristeza é também um novo pecado [para acrescentar à suposta lista que foi divulgada pela comunicação social nestes dias]. A alegria é a prova da paz interior que se quis obter no tempo da Quaresma. Chegar à paz pelo perdão, pela reconciliação, por todas as atitudes que fazem vencer em nós o que nos degrada, para encontramos a abundância da vida que Jesus veio trazer. E essa, então, faz-nos semear a alegria e ter esperança. E nós, em Portugal e no mundo, estamos a necessitar certamente de alguns rasgos de novidade, para que a crise e a morte de tanta coisa que nos entra pelos olhos não vença.
24.03.2008
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