
D. Manuel Clemente: precisamos de aprender a esperança
O Bispo do Porto e Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais inaugurou as suas conferências quaresmais deste ano na Sé, apresentando como tema "Esperar para viver diversamente".
Tendo como referência a última encíclica de Bento XVI, "Spe Salvi (Salvos pela esperança)", D. Manuel Clemente iniciou a sua comunicação pela afirmação: “Se há virtude que qualifique a Quaresma, é particularmente a da esperança, ainda que saibamos que a vivência autêntica duma virtude teologal implique de imediato as outras”.
Desenvolveu depois os conceitos teológicos da esperança cristã, traçando um retrato, a partir de dados recentes, da sociedade portuguesa, onde se podem detectar muitos sinais de afastamento dessa dinâmica da esperança (a pobreza, as desigualdades sociais, as tensões de violência, os problemas da família...).
E concluiu com palavras que bem traduzem o sentido pleno da esperança:
"Finalmente – se é que estas coisas se finalizam, por enquanto -, poderíamos dizer que as vicissitudes da vida não destroem a esperança, antes a apuram. Digamos que dos desencantos esparsos pode sobressair um encanto definitivo, que transporte e salve tudo quanto não encontrou resposta imediata e fora do seu lugar autêntico. Como respondeu Pedro ao próprio Cristo: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!” (Jo 6, 68).
Falámos de apuramento da esperança. Isto em relação ao mundo e a nós próprios, os cristãos, esquecidos por vezes de Quem unicamente a legitima. Como lembra Bento XVI, há um percalço moderno a corrigir, quer como redução da esperança ao progresso civilizacional, quer como diminuição dela pelos próprios crentes, quando porventura esqueçam a sua realização transcendente: 'Encontramo-nos assim novamente diante da questão: o que podemos esperar? É necessária uma auto-crítica da Idade Moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concepção da esperança. Neste diálogo, também os cristãos devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experiências, em que consiste verdadeiramente a sua esperança, o que é que temos para oferecer ao mundo e, ao contrário, o que é que não podemos oferecer. É preciso que, na autocrítica da Idade Moderna, conflua também uma autocrítica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes' (Spe Salvi, n.º 22). E o Papa é incisivo: 'Digamos isto de uma forma mais simples: o ser humano tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança' (ibidem, nº 23).
Mas é (...) com Daniel Faria que se conclui este discurso. Porque é da soma das ausências – e até das inconsistências - que mais ressaltará a presença, que mais se multiplicará a vida:
'Mas tu existes.
Os dias somam ruína à ruína
E o a vir multiplicará
A miséria.
Apodreço não adubando a terra
E cada dia somado a cada hora
não completa o tempo.
Sei que existes e multiplicarás
A tua falta.
Somarei a tua ausência à minha escuta
E tu redobrarás a minha vida.' (Poesia, p. 182)."
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in Voz Portucalense, 05.03.2008
06-03-2008
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