
A desvalorização da História e a hipertrofia da técnica
Acredita que “aquilo que somos esclarece-se em boa parte através do que fomos”. E por isso lamenta o menosprezo a que a História e a Cultura têm sido votadas no ensino. Aos 90 anos, Vitorino Magalhães Godinho continua a ser um nome maior da Historiografia portuguesa, nomeadamente no que se refere ao período dos Descobrimentos. Excerto de uma entrevista ao Jornal de Letras, conduzida por Maria João Martins.
Acha que já recuperámos do sentimento de culpa [associado à colonização]?
Não inteiramente. Repare que a História desde o final do século XX tem vindo a ser desvalorizada e deixou de ser parte fundamental da cultura. Dos cursos de Gestão e Economia praticamente desapareceram as cadeiras de História Económica. Hoje só interessa o imediato e, como tal, as pessoas ignoram tudo o que se tenha passado há mais de 5 anos. Grande parte dos economistas de hoje não sabem como era a Economia as décadas de 1970 e 1980. Mas para haver responsabilidade tem de haver um equilíbrio entre o que vem de trás, o que recebemos e aquilo que podemos fazer. Não é a novidade pela novidade. Há uma capacidade de produção cada vez maior, há transformações laborais que geram desemprego deliberadamente, de que resulta uma diminuição da procura e do consumo. O desemprego não é um acidente, resulta da organização estrutural da Economia.
A desvalorização da História e da Cultura é uma decisão deliberada dos políticos?
Penso que os políticos são sobretudo ignorantes. Eles próprios não receberam formação cultural e resistem a ela como a qualquer coisa que não se domina. O que é deliberada é a decisão de que tudo o que importa é o lucro. O ataque à cultura assume, aliás, várias formas: uma delas é querer submeter os países da Europa a uma língua única (o Inglês) em detrimento das línguas nacionais. No nosso país há já escolas superiores em que se dão aulas em Inglês e em que os professores, quando reunidos, usam esta língua. A União Europeia, na sua génese, tinha como objectivo o respeito pelas diversidades e pelas especificidades nacionais. Por outro lado, hoje é a Economia que dita a agenda da investigação científica. Tudo se tornou muito caro e, como tal, os centros de investigação estão sobretudo ligados a indústrias poderosas, como as do ramo farmacêutico ou de armamento. A hipertrofia da técnica não desenvolve a ciência, subordina-a. A ciência já não serve para nos ajudar a compreender o universo e a nós próprios, o que é outra forma de ataque à cultura e ao espírito crítico que foi sempre apanágio da tradição europeia. Aliás, é chocante ver como todo este processo técnico coexiste com o regresso a formas de feitiçaria, a maneiras de pensar antigas capazes de anular o esforço científico dos últimos séculos. Eu diria que há um choque cultural no interior de cada civilização.
A História tem sido desvalorizada no Ensino?
Totalmente. Os programas de História do Ensino Secundário são perfeitas aberrações. Não há sentido do que é a História e de como ela deve pôr problemas não só sobre o passado mas também sobre o homem de hoje. Prefere-se falar em conceitos, o que está totalmente errado. Quando se fala de maus resultados dos alunos, eu digo que não compreendo é como alguém aprende alguma coisa com estes programas. Se o fazem são autênticos heróis. Por outro lado, os jovens são despropositadamente infantilizados. Evita-se tudo o que seja esforço, quando as crianças e jovens gostam de desafios e de superar dificuldades. Eu gosto muito de fazer História, mas admito que há aspectos muito aborrecidos e que talvez preferisse não fazer. Gosto de interpretar dados numéricos, mas aborrece-me muito fazer recolhas e listagens. No entanto, é necessário. Alguém aprende a nadar sem sair da piscina? Ou a conduzir sem sair da auto-estrada? Julgo que há uma política deliberada de quem não sabia para onde estava a conduzir a Educação.
Maria João Martins
in Jornal de Letras, 18.06.2008
02.07.2008
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