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O direito de se afirmar católico

(...) É da mais liminar evidência que a Igreja Católica tem da parte do Estado português um específico tratamento de favor. Não é tão evidente que este tratamento de favor constitua, em si mesmo, uma discriminação contra as outras confissões religiosas. Menos ainda, que ponha em causa a liberdade de religião de quem quer que seja.

Importa distinguir claramente a essência teológica da religião católica – matéria de fé e de doutrina – da relevância fáctica da Igreja Católica na fundação e na estruturação da nacionalidade – matéria que diz respeito à História.

Já o disse aqui, mas tenho que o repetir: não é a minha descrença absoluta na Trindade, na ressurreição de Cristo ou na imaculada Conceição que altera este facto histórico óbvio: Portugal, como nação e os portugueses como povo, para o bem e para o mal, são fruto da acção da Igreja Católica que nos marcou a raiz e a alma. Devemos muito, claro, aos judeus e aos árabes e não podemos (nem devemos, sob pena de nos empobrecermos) renunciar a essas heranças, mas, goste-se ou não (e eu nem gosto especialmente), a nossa matriz essencial e estruturante foi marcada pela doutrina e pela acção da Igreja Católica.

Reconhecer isto, insisto, não envolve qualquer profissão de fé em credo nenhum. Envolve apenas a aceitação da História tal como ela é.

Por muito ateu, agnóstico ou laico que se seja (e sou), não faz qualquer sentido, por exemplo, alterar o ritmo a que vivemos o calendário, com paragens para descanso comum ao Domingo e para descanso mais prolongado na Páscoa e no Natal, só porque essas paragens foram estabelecidas pela Igreja Católica, estão de acordo com os seus rituais e contrariam, porventura, o ritmo a que outras confissões vivem o seu ano. É um facto que hoje é assim e que, independentemente da origem e das razões para ser assim, é melhor que assim permaneça, do que, em nome de abstractos igualitarismos e laicismos, promover a criação de novos e inúteis vindimários, brumários ou pradiais, geradores apenas de fracturas e divisões onde elas não existem.

Não sou católico, (...) embirro com quase tudo o que a Igreja Católica diz, faz e defende, mas, nos dias que correm, importa lembrar uma evidência que parece andar esquecida: não é crime ser católico e quem o é tem absoluto direito de o ser e de o proclamar.

in Funes, el memorioso

26.05.2008

 

 

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