
O esvaziamento do cristianismo e a cultura da indiferença
O que me espanta é a tranquilidade ou, se preferirem, a passividade. Houve manifestações, meia dúzia com muita gente, mas pacata e “ordeira”; e alguma violência, mas limitada e ocasional. E há dia a dia na televisão a tristeza do país, que chora resignadamente a sua vida e fala em emigrar. O pessimismo português não degenerou numa visão apocalíptica da Pátria, nem sequer, como é costume, numa subespécie de messianismo. Ninguém espera do futuro nada de bom? Ninguém. E o medo voltou? Voltou. Só que não se manifesta. Portugal não reage às desgraças que lhe anunciam ou que já sofre. Parece que deixou de se interessar por si e que aceitará, inerme, o que vier. Venha o que vier será sempre tão mau (e tão inconcebível) que não vale a pena pensar nisso.
As crises de antigamente, mesmo as do século XIX e as do princípio do século XX, com que a “inteligência” indígena se ocupava, eram diferentes pela natureza e pelo efeito. Eram diferentes pela natureza, porque não afectavam seriamente mais do que uma pequena parte da classe média e não aumentavam nem diminuíam a miséria da população rural. O funcionalismo público (incluindo o Exército) e os comerciantes de Lisboa e do Porto talvez gemessem. Na profundidade e no isolamento da província, as coisas quase não mudavam. E eram sobretudo diferentes pelo efeito porque, numa sociedade que a Igreja Católica dominava, a “salvação” da alma ou do país, não se tornara como hoje numa palavra sem sentido. Para quem via o “atraso” e a “decadência”, Portugal precisava – literalmente – de ser redimido.
Acontece que a morte da religião, ou, mais precisamente, da cristandade, não permite agora qualquer forma de “entusiasmo” místico. Portugal assiste ao seu fracasso (ou ao fracasso deste particular regime) com a mesma equanimidade com que o Ocidente assiste ao aquecimento do planeta, o fim próximo do petróleo, à expansão islâmica ou à real probabilidade de guerra. O século XX ainda produziu algumas religiões seculares, que mataram milhões. No século XXI, em 2008, nem em Portugal, nem em sítio nenhum, se abandonou a prudência de uma retórica tecnológica irrelevante e vácua. O materialismo e o ateísmo (ou agnosticismo, conforme queiram) do Ocidente contemporâneo trouxeram uma “cultura” de indiferença e até de apatia. O que não trouxeram foi um exército de fanáticos, disposto a reorganizar o mundo – ou Portugal. Por enquanto, chega.
Vasco Pulido Valente
in Público, 11.07.2008
14.07.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()
