
Entre a palavra e a imagem: De Vieira à contemporaneidade
O Padre António Vieira era um evangelizador culto, que marcou com o Evangelho, não apenas a cultura do seu tempo, mas a história da cultura portuguesa. Usou a cultura do seu tempo como meio de evangelização e deu o Evangelho como conteúdo às formas da cultura barroca do seu tempo.
A cultura, no tempo do Padre António Vieira, era uma cultura de palavra e de oralidade, era uma cultura oratória e retórica, que atribuía valor estético à eloquência, em que ao sermão, entendido como oração, se pedia que deleitasse, ensinasse e movesse, devendo para tanto ter qualidade artística e literária, capacidade pedagógica e força de mobilização. A cultura apologética da época assimilou o orador laico humanista. Por isso mesmo, a retórica esteve no centro do ensino jesuítico das humanidades.
Vieira foi um pregador barroco, como bem o evidenciou Margarida Vieira Mendes («A Oratória barroca de Vieira», Caminho, 1989): No tempo do barroco, a Igreja dava ao pregador a mesma dignidade que outrora se reservava ao teólogo e ao monge contemplativo.
A pregação era entendida como espectáculo, heróico e combativo, que visava o triunfo da evangelização, ou seja, como um instrumento de combate e de persuasão. Todas as datas relevantes tinham sermão. Havia uma importância enorme da parenética na vida pública.
A palavra proferida requeria eloquência literária. A pregação era uma arte majestosa da palavra. O barroco era isso: majestade, ênfase hiperbólica no falar e trajar; formalismo artístico convencional; estilo rebuscado, imaginação exuberante; movimento, dinamismo, acção; requinte de subtileza; imaginação alegórica e analógica.
Vieira foi barroco, espectacular, heróico, combativo, persuasivo, eloquente.
Essa cultura da palavra, do tempo do Padre António Vieira, está a dar lugar a uma outra cultura, onde a imagem assume crescente relevância, cultura própria da sociedade mediática de hoje. A “galáxia de Gutemberg” parece dar lugar a um novo paradigma cultural. Durante séculos, evangelizar era anunciar a palavra de Deus, concebido como Logos, como Verbo, verbo feito carne.
Hoje, o desafio novo é o de revelar o rosto de Deus, a imagem de Deus inimaginável. Daí a importância da descoberta de Deus pela beleza, da estética para chegar a Deus. Daí também a necessidade de recusar a fealdade, como algo que impede o acesso a Deus.
Isto exige uma nova alfabetização. A cultura da imagem tem outros cânones e outros códigos de leitura e de comunicação. A cultura da imagem que somos chamados a evangelizar e a usar como meio de evangelização é uma cultura hedonista e esteticista. Desde logo, pelas condições sociais da sua criação e consumo. As sociedades mais desenvolvidas conhecem a crescente civilização dos lazeres. Aumentam os tempos de lazer, o tempo para a fruição estética. Por isso, alguns autores lhe chamam cultura pós-materialista. Aumenta a importância económica da estética, crescem as actividades ligadas à indústria da beleza, desenvolvem-se iniciativas sociais ligadas à moda. Nunca tanta gente esteve empenhada em embelezar as pessoas e o mundo. Nunca a arte movimentou tantas pessoas e recursos, embora nem toda a arte seja estética.
Perante esta emergente cultura da beleza, o desafio é o do restabelecimento da relação histórica entre fé e estética, entre religião e arte, é o da reposição da transcendência no mundo das artes, pela afirmação estética da mensagem evangélica. Daí a necessidade de repensar a dimensão artística do culto e da liturgia e a sua importância cultural.
Manuel Braga da Cruz
Reitor da Universidade Católica Portuguesa
24.07.2008
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