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Exposição

Olhares cruzados sobre Arte e Islão

A Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, propõe a exposição «Olhares cruzados sobre Arte e Islão». Especialistas de diferentes saberes – Arqueologia, História, Arte e Teologia – procuram definir o conceito de “Arte Islâmica”, resguardando-a das generalizações abusivas.

As cerca de 50 peças expostas – algumas apresentadas pela primeira vez ao público – têm origem em três contextos culturais distintos: o Gharb Al-Andalus, com peças oriundas de Mértola e de Lisboa; os pratos de tipologia Iznik, provenientes do Império Otomano; e as cerâmicas do Irão Safávida. A mostra encontra-se dividida em três secções: “O Tempo e o Espaço”, “A figura humana” e “Islâmico ou Muçulmano”, onde se pretende criar um olhar diferenciador entre esses conceitos, tantas vezes conotados exclusivamente com o âmbito da religião.

Escreve o arqueólogo Cláudio Torres que alguns pequenos templos rurais “foram compartilhados entre as comunidades muçulmanas e cristã”. E continua: “A história do Mediterrâneo é afinal a história fantástica de saber olhar, de saber ver ‘o outro’, de respeitar o diferente. É a história de uma cultura milenar onde sempre prevaleceu o equilíbrio hábil de tensões e saberes.”

O historiador Rui Santos refere que a negociação cultural entre os dois povos permitiu “a construção de templos cristãos com alguns elementos artísticos muçulmanos”, como é um caso de um pilar em calcário.

Se é verdade que uma panorâmica geral sobre a relação entre o Islão e os Moçárabes – cristãos da Península Ibérica – nos permite falar de uma convivência relativamente pacífica, não podemos esquecer que estes sofreram limitações no que diz respeito à vivência e transmissão da sua fé. Por outro lado, temos a notícia, em tempos e lugares demarcados, de perseguições por parte do poder político-religioso.

Uma lápide funerária em mármore, datada do séc. XIII, originária do Museu de Évora, oferece a oportunidade de nos darmos conta de algumas semelhanças entre o Cristianismo e o Islão no que diz respeito ao entendimento que os fiéis têm da sua relação come Deus. Na inscrição principal, extraída do Alcorão, pode ler-se: “Todas as almas sentirão a morte”. E a seguir uma prece: “Ó tu que visitas [este sepulcro], reza a Deus que te perdoe e tenha misericórdia do teu irmão e recorda-te desta viagem [até ao Juízo Final]. [A alma] ser-te-á tirada por Deus; nenhum vestígio do seu orgulho aparece no humilde túmulo. Da injustiça [deste mundo] temos que regressar ao Senhor, quer dizer, a Deus, à Misericórdia e grande Generosidade”.

O facto de esta lápide ter sido encomendada depois da reconquista cristã da cidad, parece indicar que os muçulmanos continuaram a integrar a sociedade, mantendo os seus hábitos e regras. Esta permanência sugere que, pelo menos em alguns locais, a relação havida até à chegada dos cruzados terá sido de relativa convivência.

Uma caldeirinha do séc. XIV com o vocábulo “al-malik” (que significa rei, soberano, um dos 99 atributos de Allah) e a ausência de figurações humanas, indicia a sua função religiosa. O Sheikh David Munir esclarece que “antes de cada oração, e onde quer que se encontre, o muçulmano deve fazer as abluções, ou seja, lavar as mãos, os braços, a face, e os pés. As abluções funcionam como uma purificação externa e complementam a purificação interna representada pela oração (…).Pela natureza sagrada e purificadora do ritual, é natural que a utilização destes objectos fosse reservada exclusivamente para o transporte da água das abluções e que fossem decorados com inscrições corâmicas.”

Um dos objectos expostos pela primeira vez é um Alcorão do séc. XVIII, procedente da Turquia Otomana, aguarela opaca e tinta sobre papel. David Munir escreve que nessa obra sagrada se encontra a revelação de Deus ao Profeta Maomé num período de 23 anos, nas cidades de Meca e Medina. O livro remete para textos do Antigo e do Novo Testamento – um dos capítulos, o 19.º, é apelidado de capítulo de Maria, mãe de Jesus.

Numa pestana de encadernação originária do Irão Safávida, 1.ª metade do séc. XVII, pode observar-se um jovem pajem a oferecer vinho a uma cortesã. Apesar de o Alcorão ser taxativo no que diz respeito à ingestão de vinho, que é “haram”, proibido, o Sheikh Munir pensa que a pintura representa uma realidade em que o vinho circulava e era apreciado. A pintura retrata um “fenómeno de desobediência pelo crente em certos aspectos da vida quotidiana”, algo que existe em todas as religiões.

O último objecto exposto, um livro oriundo do Uzbequistão Shaybanida, datado de meados do séc. XVI, encontra-se aberto na única representação de Maomé conhecida em museus portugueses: o Profeta, sentado dentro de uma mesquita, acha-se ladeado pelos seus dois netos, Hassam e Hussein. A decoração do espaço sagrado acrescentou elementos que não correspondiam à mesquita frequentada por Maomé, cujo chão era de terra batida e o telhado coberto por palmeiras. Na apreciação que faz à pintura, trabalhada a aguarela opaca, tinta e ouro, o Sheikh David Munir considera que “a maioria dos muçulmanos que constituem a comunidade de que sou imam não concorda com a realização desta imagem. Ao ser representado de túnica, barba e turbante, acessórios banais, parece-me que o artista realiza uma imagem padrão do Profeta, limitando o crente na sua fé.”

Apesar de não se encontrarem muitos exemplos de figuração humana – a escultura, por exemplo, quase parece proscrita –, este tipo de representação está muito presente em iluminuras, não sendo raro encontrar o Profeta Maomé, embora muitas vezes com a face velada. Uma das correntes minoritárias do Islão, o Xiismo, não apresenta tantos obstáculos à figuração humana como o Sunismo, vertente com maior expansão, pelo que “boa parte das imagens de que dispomos (e quase todas as representações de Maomé) provêm de regiões maioritariamente xiitas” (Rui Santos).

Sobre o tema da mostra, o Serviço Educativo do Museu agendou diversas visitas guiadas, cursos temáticos, passeios, e «wokshops».

Tendo presente os recentes desenvolvimentos do diálogo que se está a estabelecer entre Bento XVI e alguns dignitários muçulmanos, este breve exposição contribui para alargar os horizontes da compreensão da religião e da cultura do Islão, recordando ainda que a convivência entre religiões e culturas, além de possível, pode gerar sementes e frutos de paz.

 

Olhares cruzados sobre Arte e Islão

Onde: Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa

Quando: até 02.03.2008. 3.ª feira: 14h00-18h00; de 4.ª feira a Domingo: 10h00-18h00

Entrada: € 2,00 (o ingresso possibilita a visita à exposição permanente)

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© SNPC - Publicado em 04.12.2007

 

 

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