
Fé de repórteres vítima da religião
«A fé que tinha, perdi-a. Vi demasiado, demasiado de perto.» As palavras são de Stephen Bates, ex-correspondente de religião para o The Guardian. Bates anuncia desta forma a sua retirada da área da notícia religiosa. A gota de água foi a cobertura das “Guerras Anglicanas” que ainda decorrem e que opõem as facções liberais, principalmente nos EUA, às conservadoras (principalmente em África), com o Arcebispo de Cantuária pelo meio a tentar garantir a unidade da Igreja. Embora a divisão seja de natureza teológica, tendo a ver com assuntos como a natureza de Cristo e a Ressurreição, por exemplo, a situação acaba por se manifestar muito à volta de questões de natureza da moral e da sexualidade em particular.
Foi precisamente este o assunto que destruiu as defesas do católico Bates.
«Escrever esta história tem sido demasiado corrosivo para a fé que ainda tinha: ver a forma como a discussão sobre a homossexualidade se desenrolou na comunhão anglicana custou-me a fé que tinha na bondade essencial de demasiados cristãos. Para o bem da minha alma, preciso de fazer outra coisa.»
O afastamento de Bates surge pouco tempo depois de William Lobdell, do Los Angeles Times, tomar uma decisão semelhante. Para Lobdell o que o motivou foi a cobertura do escândalo dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica. Como exemplo de um artigo que teve que investigar, veja-se este caso de um missionário numa comunidade esquimó, que durante sete anos de trabalho abusou de praticamente todas as crianças da comunidade. Perante tais horrores, quem não passaria dificuldades?
Pode-se discutir eternamente a lógica das decisões de Bates e Lobdell. Por exemplo, a que propósito é que Bates possuía tanta fé na “bondade essencial” dos cristãos? É certo que devemos dar o benefício da dúvida a todos, mas daí a acreditar que todos os cristãos são bons e comportar-se-ão como tal, sempre...
Mas as principais lições a retirar deste assunto são outras, nomeadamente que os jornalistas e outros profissionais (incluindo religiosos) deverão proteger-se devidamente daquilo a que serão expostos. É evidente que nem tudo é bom e bonito no mundo da religião; como qualquer outro fenómeno humano (política, desporto... até o jornalismo) este está manchado pelas falhas humanas dos seus intervenientes. O facto da religião ter uma fasquia moral mais elevada do que outras áreas apenas acentua a gravidade dessas falhas, tal como a importância que tem a nível pessoal para cada crente apenas acentua a ferocidade das disputas religiosas, como estamos a ver nas tais “guerras anglicanas”.
A segunda lição dirige-se aos crentes, em especial aos que têm responsabilidades e são vistos como representativos da sua fé. Pode levar anos a converter alguém, mas a rapidez com que se pode pôr em causa da fé de outras pessoas é assustadora. A acção daquele missionário não se limitou à comunidade esquimó que ele deveria estar a servir. Ultrapassa barreiras, fronteiras e línguas. O pecado espalha-se facilmente e faz vítimas indiscriminadamente. Bates e Lobdell são apenas dois exemplos mais mediáticos.
Filipe d'Avillez
© SNPC - Publicado em 29.11.2007
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