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Fé e cultura

As festas populares e a sua dimensão religiosa

Nas regiões de longa tradição cristã as grandes festas das comunidades tinham um carácter fundamentalmente religioso. Eram as festas do Santo Padroeiro, ou de Nossa Senhora nas suas diversas denominações ou dos diferentes mistérios de Cristo.

A celebração litúrgica, com a Eucaristia e a procissão, ocupava naturalmente o lugar central. Era também prática habitual, em muitas localidades, fazer preceder a festa, de dias de preparação espiritual com a pregação da Palavra de Deus e a celebração do sacramento da reconciliação.

Mas a comunidade cristã não limitava as celebrações festivas à sua dimensão estritamente religiosa. Havia também uma componente recreativa, lúdica, com as ruas e praças ornamentadas, com bandeiras, com música e outras diversões. Era o tempo do encontro, da alegria, da confraternização. A dimensão religiosa e esta dimensão recreativa não estavam desligadas; formavam um todo.

Com as profundas mutações verificadas nos últimos tempos em todos os domínios da vida humana, nomeadamente no domínio cultural, era natural que as festas populares, como expressão da vivência religiosa e da componente cultural, tenham vindo a ser gradualmente atingidas no seu conteúdo e no significado.

O secularismo tem de facto provocado uma erosão do conteúdo cristão das festas, tentando encará-las como meros acontecimentos de natureza laica e profana.

A complexidade do problema, tal como se apresenta hoje, reside no facto de tratar-se de tradições solidamente enraizadas na existência das pessoas, das famílias e das instituições. Assim se compreende que, mesmo quando baixa a prática sacramental e enfraquece a adesão à vida comunitária, as pessoas normalmente mantêm-se fiéis as tradições das festas. É, de algum modo, a própria identidade como povo que está em causa. As raízes históricas têm muito peso.

Torna-se por isso importante não perder de vista esta perspectiva da evolução histórica, se quisermos perceber, na sua verdadeira dimensão o fenómeno das festas populares, nas suas vertentes, religiosa, cultural e civil, e dar-lhes o tratamento que merecem.

Nos nossos dias, com as alterações rápidas que continuam a observar-se na sociedade, o problema ganha novas dimensões e urgência. Não há porém um padrão comum. Podemos dizer que cada caso é um caso, e que cada região tem a sua índole própria e reage a seu modo à evolução dos tempos. Os exemplos negativos não podem generalizar-se, assim como não seria sensato negá-los ou esquecê-los. Há mesmo regiões onde as festas souberam situar-se na modernidade, sem perderem a sua autenticidade cristã.

A verdade é que estamos perante um fenómeno que merece reflexão cuidada e orientações justas e oportunas. Está em causa, primeiramente a fé, e também a cultura na sua concepção mais ampla, e ainda o desenvolvimento sustentado e justo da sociedade.

No que diz respeito às responsabilidades da Igreja, importa sublinhar que se têm multiplicado os documentos do Magistério, quer dos Bispos quer da Santa Sé, sobre esta matéria Deram-se passos significativos no campo da reflexão teológica e pastoral, mas estamos ainda longe de ver devidamente aplicadas de forma concreta e efectiva as orientações propostas.

Há um princípio que importa sempre salvaguardar: é a identidade e a dignidade do acto religioso. O acto religioso não pode laicizar-se; não pode ser tratado como peça de museu, ou ser visto apenas nas suas potencialidades para o desenvolvimento da indústria turística, ou utilizado para fins político-partidários. Não pode ser equiparado, no conjunto dum vasto programa, a uma prova de ciclismo ou à actuação dum grupo musical.

A sua natureza é de outra ordem, da ordem da fé. A festa religiosa é uma celebração festiva da fé. Ela deve conservar uma tal índole, ao lado de outras expressões da vida social, igualmente legítimas. Se as entidades religiosas assumem neste domínio responsabilidades indeclináveis, não podemos esquecer aquelas que cabem às entidades civis, autárquicas, culturais e desportivas.

O ideal seria que os festejos civis, com as suas manifestações folclóricas, artísticas e desportivas, se mantivessem integrados num todo, juntamente com a dimensão religiosa, e não em contraposição, e sem dela destoarem. Só deste modo se torna possível salvaguardar, no quadro da mentalidade actual e dos novos padrões, o rico e estruturante património cultural e religioso das populações, tornando-o vivo e inspirador de outros componentes da vida social.

A concluir, sublinharia a relevância do papel da comunicação social. Também aqui importa saber distinguir o que há de positivo e negativo se tem verificado na sua actuação prática. É desejável que certos jornalistas que são chamados a actuar neste campo, superem alguma ignorância religiosa e certas barreiras ideológicas que infelizmente ainda persistem e que impedem uma apresentação verdadeira e construtiva do fenómeno.

As festas populares, na sua riqueza cristã, cultural e humana, constituem uma herança preciosa, que as gerações anteriores nos legaram e que nos compete acolher com respeito e com a determinação de lhes dar continuidade.

D. Maurílio de Gouveia
Arcebispo Emérito de Évora

in Jornal da Madeira

16.09.2008

 

 

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Foto: Metallyptica


























































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