
Festival Internacional de Órgão de Lisboa
É com um concerto de música inglesa do tempo da rainha Vitória e do rei Eduardo VII que abre, a 12 de Setembro, o XI Festival Internacional de Órgão de Lisboa (FIOL).
Segundo os directores artísticos João Vaz e António Duarte, esta 11.ª edição "vai na linha das anteriores", com um duplo propósito: "preencher a falta de concertos regulares de órgão em Lisboa, conjugando o repertório mais universal com outro menos divulgado", como exemplo deste dando justamente o concerto de abertura. A diferença reside "na introdução obrigatória da figura de Messiaen", compositor (e organista) francês de que se comemora este ano o centenário do nascimento.
Face às anteriores edições, ressalta a diminuição do número de igrejas que recebem recitais: apenas quatro (Sé, Estrela, Matriz de Oeiras e Linda-a-Velha). "Emagrecimento" que João Vaz explica por "uma conjugação de factores: São Vicente fechou para obras, São Luís dos Franceses não se integrava na programação e a Igreja Evangélica Alemã está num processo de transição interna".
Por outro lado, anunciara-se para este ano a "estreia" do órgão de Santa Catarina (Calçada do Combro), mas o processo de restauro "está em «standby»". Por João Vaz soubemos ainda que "as intervenções que estão a ser realizadas nos órgãos de São Nicolau e de São Roque estão muito próximas da sua conclusão".
Na programação, coexistem as tradições ibérica, alemã/Europa do Norte, francesa e inglesa, de que se destacará o concerto de dia 18 (Sé), com a Messe des Paroisses, de François Couperin (1668-1733), alternando com a missa gregoriana que lhe serviu de base; a "Missa em homenagem a Olivier Messiaen", alternando canto gregoriano com obras de Messiaen pré-II Guerra (dia 20, Linda-a- -Velha); o recital "Tocata e Concerto" de Harald Vogel (dia 21, Sé); o recital- -Messiaen de Hans-Ola Ericsson (dia 28, Sé) e o concerto de fecho (dia 1, Estrela), com a primeira audição moderna da "Missa Grande", para seis solistas vocais, baixo contínuo com órgão «obligato» e coro a quatro vozes, de Marcos Portugal (1762-1830).
No que respeita à componente pedagógica, este FIOL inclui duas «masterclasses»: uma sobre Francisco Correa de Arauxo, por Miguel Bernal (dia 15), organista responsável pela recente edição integral da obra desta autor maneirista (Bernal toca na véspera, em Oeiras); e outra sobre Messiaen, por Hans-Ola Ericsson (dia 29), um especialista (e ex-aluno) do grande compositor francês.
Programa
12 de Setembro
21h30
Sé Patriarcal de Lisboa
Concerto de Abertura: Música Vitoriana
João Vaz, órgão; António Duarte, órgão; Coral Lisboa Cantat, Jorge Alves, direcção
As Marchas Pompa e Circunstância de Edward Elgar ou o hino «Jerusalém» de Charles Hubert Parry permanecem ainda hoje como símbolos musicais da Inglaterra Vitoriana. Menos conhecida do público português é a enorme produção coral daqueles compositores. No concerto de abertura do XI Festival Internacional de Órgão de Lisboa, o Coral Lisboa Cantat, sob a direcção de Jorge Alves, e os organistas João Vaz e António Duarte propõem um programa que, para além de obras corais com órgão (como o Te Deum de Charles Villiers Stanford, utilizado na cerimónia da coroação do rei Eduardo VII), apresenta obras a cappella e a execução integral dos Vesper Voluntaries para órgão solo de Elgar.
13 de Setembro
21h30
Sé Patriarcal de Lisboa
Salve Regina
Maria Nacy, órgão
A «Salve Regina», uma das quatro antífonas marianas do calendário litúrgico cristão, é cantada de Domingo da Trindade até ao Sábado antes do primeiro Domingo do Advento. Trata-se de uma prece à Virgem Maria, a Rainha Santa, e integra a última das orações do Rosário de Nossa Senhora. As suas origens musicais remontam à Idade Média, provavelmente pela pena do monge alemão Hermann de Richenau, compositor, teórico, matemático e astrónomo, activo no século XI. Fonte de inspiração ao longo dos séculos, a «Salve Regina», que fornece o tema ao qual este concerto se subordina, foi tratada por inúmeros compositores, tanto do Norte como do Sul da Europa. Este programa, totalmente preenchido com obras de autores espanhóis, portugueses, neerlandeses e alemães, faz-se eco desse facto, e tem a interpretá-lo a organista Maria Nacy, especialista em música antiga ibérica e germânica, com discografia publicada nesses domínios.
14 de Setembro
21h30
Igreja Matriz de Oeiras
Música Espanhola para Órgão nos Alvores da Idade Contemporânea
Miguel Bernal, órgão
Para este concerto, o organista alicantino Miguel Bernal, responsável pela nova edição da obra integral de Francisco Correa de Arauxo, apresenta-nos um programa constituído por autores pouco conhecidos do grande público. Estamos na presença de compositores que aprenderam o seu ofício no seio da tradição eclesiástica, mas que a profunda ruptura epistemológica causada pela Revolução Francesa obrigou a que se adaptassem aos novos tempos e aos novos ventos que sopravam de Paris. A música e as artes em geral conheceram então um incremento pouco usual em Espanha, não obstante a devastação causada pela passagem dos exércitos napoleónicos e o consequente conflito armado que, entre 1808 e 1814, opôs aquele país e os seus aliados, Portugal e o Reino Unido, ao primeiro Império Francês. Simpatizante das ideias que lhe chegavam de além-Pirinéus, a burguesia espanhola, no poder, faria aprovar em 1812 a Constituição de Cádis, e com ela a cofirmação do triunfo dos liberais e de uma nova mentalidade.
18 de Setembro
21h30
Sé Patriarcal de Lisboa
O Canto Gregoriano na Música para Órgão
Antoine Sibertin-Blanc, órgão; Coro Solemnis, João Crisóstomo, direcção
Conhecido sobretudo pela sua obra para cravo (um dos marcos da literatura barroca francesa para o instrumento), François Couperin escreveu na sua juventude duas missas para órgão: uma para uso das paróquias e outra para uso dos conventos, sendo esta última mais simples e destinada a um instrumento de menores dimensões. A Messe des paroisses exige, pelo contrário, um órgão com mais recursos e é baseada na missa gregoriana «Cunctipotens genitor Deus». Reduzida à sua componente instrumental na maioria das execuções em concerto, esta obra é aqui apresentada por Antoine Sibertin-Blanc e pelo Coro Solemnis, dirigido por João Crisóstomo, numa versão mais próxima da intenção original, alternando as intervenções do órgão com as secções cantadas da missa gregoriana.
19 de Setembro
21h30
Sé Patriarcal de Lisboa
J. S. Bach e os seus Antecessores
Paolo Crivellaro, órgão
Vincent Lübeck, Jan Pieterszoon Sweelinck e Samuel Scheidt, representantes da escola do Norte da Europa, exerceram em Johann Sebastian Bach uma notável influência, tanto ao nível instrumental como composicional. Apreciador da música italiana, o autor de A Arte da Fuga transcreveu ainda obras de António Vivaldi e recorreu a Giovanni Legrenzi, e dos franceses foi nos Couperin, sobretudo em François, cognominado o «Grande», que encontrou fonte de inspiração, como no-lo atesta o andamento central da Pièce d’Orgue, composto à maneira de um «Plein jeu» francês. É dessas três influências que este recital se ocupa numa panorâmica oferecida pelo organista italiano Paolo Crivellaro.
20 de Setembro
21h30
Igreja de Nossa Senhora do Cabo (Linda-a-Velha)
Missa em Homenagem a Olivier Messiaen
António Esteireiro, órgão; Coro do Instituto Gregoriano de Lisboa, Armando Possante, direcção
Ao lembrar Olivier Messiaen, cujo centenário do nascimento se encontra a decorrer, este concerto procura prestar homenagem a um dos compositores mais influentes da segunda metade do século XX. De facto, a sua obra, pelas características que reveste, fez dele um inovador nos domínios harmónico e melódico, além de notável colorista orquestral. O seu gosto pronunciado pela música da antiguidade, o seu recurso aos ritmos exóticos procedentes da música hindú, os seus aturados estudos ornitológicos elevam-no a um lugar cimeiro na História da Música do Ocidente, e o seu fervor católico confere à sua obra um misticismo talvez só comparável ao de J. S. Bach. Correspondendo a esse misticismo, António Esteireiro, ao escolher obras de Messiaen anteriores à Segunda Guerra Mundial, propõe-nos um enquadramento musical para uma celebração litúrgica à luz da prática seguida pelo próprio compositor na Igreja da Trinité, em Paris, de cujo órgão foi titular durante cerca de 62 anos.
21 de Setembro
12h00
Basílica da Estrela
Missa do Festival
Sérgio Silva, órgão; Coro Solemnis
21 de Setembro
21h30
Sé Patriarcal de Lisboa
Tocata e Concerto
Harald Vogel, órgão
Caracterizada pelo seu cunho brilhante, andamento rápido e de igual valor temporal, a tocata apresenta-se como um género de composição livre para um só instrumento. Por outro lado, o concerto é uma composição para um ou mais instrumentos solistas, cuja actuação contrasta com a de um conjunto instrumental. Ambas de origem italiana, estas formas rapidamente se expandiram à Áustria e à Alemanha, países de destino de muitos músicos transalpinos, acabando por exercer uma influência duradora nos compositores autóctones, como se poderá apreciar neste programa. Abrangendo um século de música, Harald Vogel, um dos maiores especialistas em música alemã e investigador com obra publicada, dar-nos-á uma visão do que foi essa influência em nomes tais os de Kerll, Buxtehude, Walther, Bruhns e J. S. Bach, este reconhecidamente apreciador da música italiana do seu tempo.
27 de Setembro
21h30
Igreja Matriz de Oeiras
Do Classicismo ao Romantismo na Música Espanhola para Órgão
Jesús Gonzalo López, órgão
Os acontecimentos políticos e sociais que abalaram a Europa na sequência da Revolução Francesa, tiveram importantes consequências na vida cultural (e musical) de todos os países. Na Península Ibérica, após o tumulto das Guerras Napoleónicas, a progressiva absorção dos ideais liberais franceses deu origem, nomeadamente, à criação de um novo sistema de educação musical decalcado do Conservatório de Paris. Os organistas espanhóis, formados na tradição ibérica dos séculos anteriores, só muito lentamente absorveram as novas tendências, originando um idioma híbrido que aliava a expressividade dos novos ideais românticos a um carácter marcadamente hispânico. Jesus Gonzálo López propõe neste recital uma viagem através deste repertório tão original quanto desconhecido.
28 de Setembro
21h30
Sé Patriarcal de Lisboa
Olivier Messiaen
Hans-Ola Ericsson, órgão
O conturbado decénio de Sessenta em França foi, para Messiaen, especialmente benéfico. Foi por esse então que atingiu a celebridade, que lhe chegaram as honras e os prémios (eleição para o Instituto) e que foi nomeado professor de composição do Conservatório de Paris. É desse período que datam as Méditations sur le Mystère de la Sainte Trinité, obra que pela sua originalidade, complexidade e grandeza diz bem da personalidade e do misticismo de quem a escreveu. Desse misticismo, que foi constante até ao fim da sua vida, diria o próprio compositor nas vésperas da sua morte: «Escrevi músicas puras (por razões de mera pesquisa técnica) ou de carácter profano. Quase que lamento tê-las escrito. As músicas criadas para cantar os mistérios da Fé parecem-me bem mais úteis para os meus contemporâneos. Talvez venham a agradecer-me?... Eu sou, em princípio, um músico da alegria e agrada-me sobretudo meditar sobre os mistérios gloriosos… Cheguei a uma idade em que é preciso começar a pensar no Além: esperemos que seja glorioso.»
1 de Outubro
21h30
Basílica da Estrela
Concerto de Encerramento: Marcos Portugal
João Vaz, órgão; António Duarte, órgão; Ana Paula Russo, soprano; Susana Gaspar, soprano; Helena Lima, meio soprano; João Rodrigues, tenor; Jorge Martins, barítono; Rui Baeta, baixo; Luís Sá Pessoa, violoncelo; Marta Vicente, contrabaixo; Coro de Câmara de Lisboa, Teresita Gutierrez Marques, direcção
Considerado por Stendhal, que a ele se referiu com simpatia, um dos compositores do interregno, Marcos Portugal – ou Portogallo, como lhe chamavam lá fora – foi sem dúvida um dos nomes mais conhecidos da música do seu tempo. As suas óperas, que correram toda a Europa, de Lisboa a Sampetersburgo, alcançaram sempre os maiores sucessos, sobretudo em Itália, onde residiu longas temporadas e onde se chegou mesmo a inaugurar um teatro com uma ópera sua, e em França, onde o próprio Napoleão parece que o admirava. De resto, tudo leva a crer que essa admiração era recíproca, uma vez que foi com o seu Demofoonte que Junot festejou a 15 de Agosto de 1808 com grande gala no São Carlos o 39º aniversário do Imperador. Mas, não só de ópera se compõe o seu impressionante catálogo. Marcos Portugal escreveu igualmente muitas obras religiosas, entre as quais figura naturalmente a Missa deste programa, agora dada pela primeira vez em estreia moderna juntamente com a única sonata para órgão que dele até ao momento se conhece.
Bernardo Mariano | in Diário de Notícias, 10.09.2008
Juventude Musical Portuguesa
11.09.2008
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