
Há ainda lugar para a Filosofia na cultura contemporânea?
1. Celebrar 30 anos do estabelecimento da licenciatura em Filosofia na Sede da Universidade Católica, em Lisboa, é recordar: a análise e as motivações que a isso nos levaram, os objectivos que prosseguíamos, as dificuldades que encontrámos. O ensino da Filosofia, para além do que era ministrado na Faculdade de Filosofia de Braga, esteve presente em Lisboa, desde o início, na Faculdade de Teologia, porque parte integrante dos estudos filosófico-teológicos. A estruturação da Faculdade em Departamentos, entre os quais o Departamento de Filosofia, proporcionou a evolução. De facto, entre todos os Departamentos, o de Filosofia adquiriu um dinamismo muito próprio, pela investigação, consolidação de um corpo de docentes, a afirmação da identidade da Filosofia no conjunto dos saberes teológicos, objectivo primeiro da Faculdade. E foi do dinamismo desse departamento que surgiu o projecto de uma licenciatura em Filosofia. Lembro-me que a hipótese nos confrontou com algumas dificuldades institucionais: a Faculdade de Teologia não podia ser a matriz de uma licenciatura em Filosofia; uma secção da Faculdade de Filosofia dentro da Faculdade de Teologia tinha o seu quê de anacrónico. Este aspecto institucional e académico só se resolveu definitivamente com a criação da nova Faculdade de Ciências Humanas.
Recordo estas vicissitudes, porque têm a ver, embora indirectamente, com o tema que me pediram. Recordo que tínhamos uma motivação e um objectivo que nos ajudaram a vencer as dificuldades: proporcionar a Filosofia como saber comum e integrador de todos os saberes cultivados e ensinados na UCP. Eu tinha a experiência da Teologia como saber basilar da própria reflexão teológica, na arte de pensar, na fundamentação da racionalidade da fé, na humanização dos mistérios em que acreditamos, também eles a desafiarem a ciência e a razão. E perguntava-me então: não poderá a Filosofia ter um papel idêntico, como arte de pensar e fundamento metafísico e antropológico de outros saberes? Este objectivo não foi completamente atingido, e pergunto-me se criar uma nova licenciatura em Filosofia era o único caminho para o conseguir. A grande crise das licenciaturas em Filosofia, para além da diluição dos interesses intelectuais da nossa sociedade, é também motivada pela falta de saída profissional para esses licenciados. As licenciaturas podem entrar em crise, mas é grave que haja um deficit filosófico na nossa cultura e na formação dos quadros dirigentes. Daí que seja sadio perguntarmo-nos sobre que futuro para a Filosofia.
2. Não sei se sou a pessoa indicada para responder, pois não sou filósofo, não arrisco dissertar sobre o futuro da Filosofia e da sua inter-acção com os outros saberes e a maneira de influenciar a cultura. Mas há uma perspectiva que vos posso comunicar: aqueles momentos e circunstâncias, na vida da sociedade e da Igreja, em que sinto falta da Filosofia. Apontarei alguns exemplos seleccionados:
2.1. A superficialidade e horizontalidade da maior parte das análises culturais, e já é pomposo incluir sob essa designação todas as abordagens da realidade, as reflexões e motivações políticas, a interpretação do sentido do homem e da história que nos são abundantemente fornecidas. Fala-se de “post-modernidade” e de crise de sentido. Mas o sentido constrói-se e procura-se, e é objectivo da Filosofia orientar e ajudar nessa construção e nessa busca.
Todos sabemos que a cultura contemporânea é marcada mais pela eficácia e pela capacidade de transformar o mundo, quando muito pela compreensão dos métodos e mecanismos dessa transformação, do que pela compreensão profunda da realidade, onde sobressai o próprio mistério do homem: o “in se” das realidades, em cuja profundidade reside a força de atracção que as projecta para projectos dignos do homem. Todo o processo científico e de transformação do mundo deveria, penso eu, desabrochar numa atitude filosófica de busca e contemplação da verdade profunda das coisas. Sem essa profundidade poderá, porventura, existir processo científico e eficácia transformadora, mas não haverá, concerteza, a consciência profunda da dignidade do homem. A Filosofia é elemento decisivo da profundidade da cultura e da sua transformação em sabedoria.
Isto supõe, que os filósofos nos desculpem a ousadia, que a Filosofia se reencontre a si mesma, não se envergonhando da sua verdadeira identidade, na imensa nebulosa das “ciências humanas” e na tentação de ser útil. Foi apaixonante abordar o mistério do homem a partir do realismo da existência do homem concreto; foi, talvez, necessário estudar os fenómenos do evoluir humano, tentando captar-lhes o sentido, a integrar na compreensão global; mas não se perca de vista o grande desafio que é a compreensão do mistério do homem, para além da sua existência concreta e dos fenómenos que estruturaram ou desestruturaram a sua vida.
2.2. Não desistir da busca da verdade. A modernidade, marcada pela euforia da razão como única fonte da verdade, aliada à dimensão subjectiva da liberdade, acabou por pôr em questão a perenidade e a objectividade da verdade, caindo no relativismo da “post-modernidade” em que tudo é efémero e transitório, valendo apenas o que significa para o indivíduo em cada momento que passa. Perdeu-se a atracção pela verdade e a inquietação de a encontrar. As pessoas contentam-se com a verdade que lhes basta; muitas vezes não querem mesmo pô-la em questão, deixando que entre nelas a inquietação do absoluto. O “eros” dos gregos, o desejo de Agostinho ou o “appetitus” de Tomás de Aquino, manifestações da atracção que o absoluto exerce sobre o espírito humano, foram relativizados pela razão individual e domesticados pelo pragmatismo da verdade que basta.
Neste quadro, não há lugar para a Filosofia. Uma das causas desta situação foi o esquecimento da razão como capacidade de acolhimento da verdade que nos é comunicada ou transmitida, quer pela revelação, e esta não é o campo natural da pesquisa filosófica, quer por experiências humanas que não brotam da razão lógica, como o amor, a expressão simbólica ou a emoção estética, mas cuja mensagem deve ser acolhida pela razão e por ela reconduzida à compreensão e à sabedoria. A estética é certamente um campo a ser trabalhado pela Filosofia, a qual, procurando a harmonia, toca o domínio da beleza.
Como vencer esta satisfação empobrecida dos espíritos contemporâneos? Como valorizar a força inquietante e mobilizadora do “eros”, do “desejo”, do “appetitus”, tornando os homens peregrinos da verdade que os atrai e os transcende?
Nós sabemos que, no fundo, só Deus pode inquietar o coração do homem e daí que a escuta da sua Palavra seja decisiva para desencadear um autêntico dinamismo de busca da verdade. Mas o Deus que nos fala pelos Profetas e por Jesus Cristo, é o Deus que nos criou. E na criação Ele disse-se, antes de falar. Escutar a Sua mensagem é campo próprio da Filosofia. Este tem de ser, hoje, um dos caminhos para despertar nas pessoas e na cultura o desejo da profundidade e a inquietação do absoluto.
2.3. As razões do nosso acreditar. O dogma da modernidade, ao circunscrever a verdade ao horizonte da razão lógica, relegou as verdades da fé para um campo indefinido do “não-racional”, no âmbito da subjectividade, e inventou um pseudo-conflito entre ciência e fé. Não percebeu que há uma racionalidade da fé, porque a verdade acolhida, não tendo origem nas capacidades da razão, encontra nesta a capacidade de humanização, isto é, de dar às verdades da fé a dimensão humana, inserindo-as na harmonia da compreensão e do saber. Desde a era apostólica que a Igreja diz aos crentes que é preciso poder exprimir as razões do nosso acreditar.
Aquele divórcio entre a razão e a fé teve consequências em muitos cristãos, cuja racionalidade é profana, nunca desenvolveram uma razão crente e não estão preparados para explicitar as razões porque acreditam. Tocamos na relação entre fé e cultura, importante para o próprio dinamismo da fé. João Paulo II afirmou: “A fé que não se converte em cultura é uma fé não completamente acolhida, não inteiramente pensada, não vivida numa fidelidade total” (João Paulo II, Insegnamenti, vol. IX,2 (1986), pg. 171). E noutra altura diz: “cultura e fé progridem em conjunto, influenciam-se mutuamente, para que a pessoa atinja o pleno desenvolvimento, correspondente à sua vocação e se torne conforme à ideia que o Criador concebeu desde a eternidade” (Ibidem, pg. 1196).
Há aqui um lugar para a Filosofia e, de modo particular, para os filósofos cristãos. Atrever-me-ia a falar de uma função pastoral da Filosofia. Aprender a pensar em chave crente, eis um desafio para a “nova evangelização”.
3. Para restituir à Filosofia esta dimensão tornando-a omnipresente como arte de pensar, inquietação de profundidade, capacidade de harmonia entre os diversos saberes, não basta uma licenciatura académica. Serão precisos criatividade e espírito inventivo para encontrar os modos e os momentos de tornar a atitude filosófica mais presente, para proporcionar a quantos buscam a verdade, a arte da inteligência que abre novos horizontes e desafios à perspectiva concreta de que se parte nessa busca da verdade.
JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Intervenção no 30.º aniversário do Curso de Filosofia em Lisboa. Universidade Católica Portuguesa, 20.11.2007
© SNPC - Publicado em 21.11.2007
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Tínhamos uma
motivação e
um objectivo que nos ajudaram a vencer as dificuldades:
proporcionar a Filosofia como saber comum e integrador de todos os saberes cultivados e ensinados na UCP
É grave que haja
um deficit filosófico na nossa cultura e na formação dos
quadros dirigentes
Todo o processo
científico e de transformação
do mundo deveria,
penso eu, desabrochar numa atitude
filosófica
de busca
e
contemplação
da verdade
profunda das coisas
A Filosofia é
elemento decisivo da
profundidade da cultura
e da sua transformação
em sabedoria
Perdeu-se
a atracção
pela verdade e a inquietação de
a encontrar
As pessoas
contentam-se com a verdade que lhes basta; muitas vezes
não
querem mesmo
pô-la
em questão, deixando
que
entre nelas a
inquietação do absoluto
A estética é
certamente um campo
a ser trabalhado pela Filosofia, a qual, procurando a harmonia, toca o domínio da beleza
Como vencer esta satisfação empobrecida dos espíritos contemporâneos?
Escutar a mensagem
de Deus é campo
próprio da Filosofia.
Este tem de ser,
hoje, um dos caminhos para despertar nas pessoas e na cultura o desejo da profundidade
e a inquietação
do absoluto
A fé que não
se converte em
cultura
é uma fé não completamente acolhida, não inteiramente
pensada, não vivida
numa fidelidade total
Atrever-me-ia a falar de uma função pastoral da Filosofia. Aprender a pensar em chave crente, eis um desafio para a “nova evangelização”
Para restituir à Filosofia
a omnipresença
como arte de pensar, inquietação de profundidade,
capacidade de
harmonia entre os diversos saberes,
não basta uma
licenciatura académica