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Contracultura

Ganhar menos para viver melhor

Os adeptos do decrescimento («downshifters» ou «downsizers») [literalmente, desaceleradores ou retardadores] vivem nas grandes cidades, nas pequenas e até no campo. Existem em todas as gerações e profissões, mas a maioria pertence às classes médias ou altas. Falam de liberdade, de redescoberta dos prazeres simples, de bem-estar, de harmonia. Sabem que menos pode ser mais. Talvez alguns sejam nossos vizinhos. Com a subida dos preços da alimentação, o peso das energias nos orçamentos e o espectro sempre presente da derrocada do mercado imobiliário, toda a gente poderá, em breve, ter de se esforçar por viver melhor com menos.

No livro “Affluenza” [termo que designa o “complexo de opulência”] Clive Hamilton, director do Australia Institute, ligado à esquerda, define assim os adeptos do decrescimento: são “indivíduos que procedem a uma mudança voluntária e a longo prazo do seu modo de vida, o que passa por rendimentos menos elevados e uma diminuição do consumo” e que aspiram a uma vida com mais sentido. Libertos do jugo da rotina capitalista, trabalham menos, gastam menos dinheiro e de modo mais construtivo.

A obra “Affluenza” é uma dissecação esmagadora da perversão dos valores do hiperconsumo. Os adeptos da simplicidade voluntária, garantem os autores, formam uma força social poderosa, mas ainda muito pouco conhecida, que se opõe à cultura do consumo frenético. De acordo com um estudo de 2002 citado nesta obra, 23 por cento dos adultos australianos terão, de uma forma ou de outra, “desacelerado” ao longo dos dez anos anteriores.

Melita Sharp, da consultora Career Coach Consulting, em Wellington, vê nisto uma consequência lógica da mentalidade de escravos do trabalho dos neozelandeses. A sua função consiste em aconselhar os que desejam mudar de emprego ou de carreira profissional, incluindo «downshifters». Muitas vezes, a escolha parte de conside­rações de ordem prática, mas a reavaliação crítica que acarreta também conduz a uma tomada de consciência ecológica.

Foi o caso de Bevan Woodward e da mulher, Gera, Quando se conheceram, ambos estavam em vias de rever o seu modo de vida, para se harmonizarem com novos valores. Bevan deixou o cargo de director comercial há dez anos, depois de se ter dado conta de que se sentia profundamente infeliz com ele e que uma Harley Davidson ou mais uma camisa de 300 dólares [158 euros] não iriam mudar a situação. Gera, que chegava a ganhar 100 mil dólares [52 mil euros] por ano no «marketing», viu os seus valores alterarem-se depois do nascimento do filho Jerome. Trabalha hoje para a Plunket, uma empresa neozelandesa de cuidados de saúde para crianças. Bevan tornou-se fã da bicicleta. Dirige um grupo de defesa dos interesses dos ciclistas e desenvolve acções de sensibilização para organizações ecologistas e sociais, em troca de um salário muito inferior ao que dantes auferia. O casal projecta instalar-se numa aldeia ecológica.

Mas Bevan insiste: “Não somos ecologistas extremistas”. Simplesmente, é muito mais agradável viver assim, explica. Os Woodward trocaram, pois, as coisas novas e dispendiosas por objectos em segunda mão, emprestados ou herdados. “Compramos aquilo que nos faz sentir bem”, diz Bevan.

O bem-estar, seja no sentido moral ou como forma de prazer, foi o que levou Niki Harre e o marido, Keith Thomas, ao decrescimento na sua vida familiar. Keith, que trabalhava como artista, está a lançar a sua actividade: plantação e manutenção de hortas e pomares na região de Auckland. Niki é psicóloga na Universidade de Auckland.

Ambos têm em conta as grandes repercussões sociais e ecológicas de tudo o que compram ou consomem e isto traduz-se num decrescimento progressivo. “Basta ler um artigo sobre os malefícios dos copos de plástico para deixarmos de os utilizar", explica Keith Thomas. Niki especifica: “Furamos o esquema, mas com remorsos”.

Ter um comportamento que respeite o ambiente não é difícil nem penoso, garantem. “Sob certos aspectos, é mais complicado do ponto de vista prático. É preciso avaliar tudo o que fazemos. Temos que assentar num enquadramento sólido para determinar o que fazemos. Isso torna tudo mais claro”, reconhece Niki Harre. “Desperdiçamos a vida nos pormenores... Simplifiquemos, simplifiquemos”, escrevia Henry David Thoreau, muito antes de terem aparecido os primeiros adeptos do decrescimento.

Em 1981, Duane Elgin criou a expressão “simplicidade voluntária” para definir a atitude dos indivíduos que querem viver melhor com menos, consumir de forma responsável e fazer uma avaliação das suas vidas para estabelecer aquilo que é importante e o que não o é. Longe de ser uma renúncia geral ao materialismo, uma visão romântica da pobreza ou até uma privação auto-infligida, a filosofia da simplicidade voluntária consiste em viver de acordo com os meios e os valores de cada um.

Há também sinais de que os jovens na casa dos 20 aplicam a simplicidade voluntária ainda antes de terem entrado em sobre­aquecimento. Michelle Boag, que dirige a PR People, uma agência de recrutamento de responsáveis de relações públicas, está admirada com o número de pessoas na casa dos 20 e 30 anos que recusam trabalhar como loucos para subir na hierarquia e procuram, em vez disso, um bom ordenado para 30 horas de trabalho semanal.

Niki Harre e Keith Thomas têm vindo a intensificar as suas práticas ecológicas: só consomem ovos de galinhas criadas ao ar livre, passaram de dois automóveis para um, vão trabalhar de bicicleta, resistem à tentação de renovar tudo. Na mesinha baixa da sala, há dois livros: “The Rough Guide to Climate Change» [manual sobre as alterações climáticas, da célebre colecção de guias de viagem Rough Guides, não editado em português] e “The Ethics of What We Eat” [A ética do que comemos, Rodale Books, também sem edição portuguesa]. Por trás da casa, a horta de Keith Thomas está luxurian­te. “Parecemos um bocado apanhados, mas somos completamente normais”, brinca Niki Harre.

Os dois filhos mais novos de Niki e Keith vão para a escola de bicicleta. Ambos já foram atropelados, mas escaparam com simples arranhadelas. A maioria das vezes, Niki também faz de bicicleta os seis quilómetros que a separam do local de trabalho. A família pertence ao SALT, sigla de «slower and less traffic» [trânsito mais lento e menos intenso], associação de bairro com mais de 200 membros. Objectivo? Melhorar a segurança nas ruas.

Nild e Keith recusam-se a levar os filhos ao outro extremo da região para as actividades extra-escolares. Ao contrário do seu vizinho, que fez 55 quilómetros de automóvel para levar o filho a um jogo de futebol.

 

Manual de instruções da simplicidade voluntária

O nosso ritmo de vida está sempre a acelerar. É preciso trabalhar mais para podermos consumir cada vez mais. Mas há quem esteja cansado do stress diário e da febre consumista e tenha decidido agir. (…) São indivíduos que optaram por fazer uma pausa na corrida louca em que se transformara a sua vida e que estão dispostos a trocar dinheiro por tempo.

Na Suécia Jörgen Larsson, investigador e pai de dois filhos, é uma das pessoas que adoptaram esta concepção de vida. Foi no fim dos anos 1990 que ouviu falar de «downshifting», também chamado “simplicidade voluntária”. À primeira vista, não há sombras a perturbar a sua vida. Jörgen Larsson é casado, possui uma bela casa e trabalha numa empresa de consultadoria que desenvolve e aplica estratégias ambientais para as empresas. “Era uma tarefa útil e motivadora. Mas estava farto, o ritmo de trabalho era demasiado intenso, os dias demasiado compridos. Não era assim que queria viver a minha vida. A ideia de trocar dinheiro por tempo seduziu-me”, diz.

Capa da revista Courrier Internacional

Não se tratava de dizer adeus ao mundo do trabalho, antes de começar por fazer semanas de 30 horas em vez de 40. A perda de rendimentos é compensada por uma vida mais modesta e por uma forma de consumo revista em baixa, outra das ideias-chave do movimento. Comprar uma casa grande com alguns amigos. Utilização comunitária do automóvel. Para festejar um acontecimento, organizar uma refeição em que cada um leva um prato, em vez de ir ao restaurante. São estas as recomendações dos defensores da simplicidade voluntária.

O facto de o movimento incentivar um modo de vida que respeita mais o ambiente também agradou a Jörgen Larsson, que tem o cuidado de sublinhar, no entanto, que não se trata de uma nova versão da vaga ecológica, que defende o regresso à terra e a auto-suficiência. Pelo contrário. Os adeptos do movimento consideram que a vida nas cidades tem uma série de vantagens: não se perde tempo nos transportes, usa-se menos o carro e poupa-se no aquecimento de uma casa grande no campo, quase sempre dispendioso, e que consome muita energia.

Para muitas pessoas, esta argumentação tem várias facetas sedutoras: mais tempo e melhor consciência. Mas passar à prática já é outra história. Ainda assim, depois de ter frequentado um ciclo de aulas sobre a simplicidade voluntária, Jörgen Larsson sentiu-se preparado para se lançar na aventura. “A minha equipa deu-me dois anos para tentar reduzir o meu tempo de trabalho de 50 para 30 horas semanais. Só consegui depois de ter aprendido a resistir ao desejo de fazer parte de todos os grupos de trabalho e de deixar a minha marca em tudo”, conta.

Nos Estados Unidos, muitos adeptos da simplicidade voluntária verificaram que os seus próximos mostravam indiferença ou cepticismo em relação ao seu novo modo de vida. Um deles teve mesmo de fingir que tinha um segundo emprego, para escapar às perguntas daqueles que se espantavam por o verem sair tão cedo. “Os outros sócios do escritório acharam isso um bocado penoso. Eu assumia menos responsabilidades e não participava nas reuniões do comité directivo. Mas acabaram por aceitar, quando perceberam que ou era assim ou eu me demitia, Há que dizer, todavia, que, como sócio, tinha uma posição muito privilegiada”, explica Jörgen Larsson.

Passaram vários anos. Hoje, dedica as suas tardes e os serões a tratar dos filhos, a ter longas conversas com a esposa ou a encontros com amigos. Ao fim-de-semana, faz vela e «bricolage». “Tenho consciência de que tudo isto parece cor-de-rosa e idílico, mas são estas as coisas de que realmente gosto”, frisa.

Jörgen não esconde, porém, que ele e os outros adeptos da simplicidade voluntária pagam um preço pela sua opção. Reduzir o horário de trabalho tem custos, tanto no plano financeiro como no plano profissional. “Para os patrões, é mais interessante apostar em pessoas que têm por único objectivo o trabalho. Contudo, é errado dizer que uma pessoa que trabalha menos de 40 horas está menos envolvida. Pelo contrário, em muitos casos essas pessoas são mais eficazes, porque quando começam estão mais repousadas”.

Jörgen não encara a ausência de perspectivas profissionais como um sacrifício. As suas ambições são outras, explica. Trata-se, sobretudo, de ter influência sobre o mundo. Aliás, lançou-se numa nova carreira. Depois de ter trabalhado alguns anos como consultor a tempo parcial, despediu-se para iniciar um trabalho de investigação na Faculdade de Sociologia da Universidade de Gotemburgo [segunda cidade da Suécia, no sudoeste do pais]. Dentro de dois ou três anos, deverá ter terminado a sua tese de doutoramento que tem por tema o stress nas famílias.

O mais duro foi a perda de rendimentos. É certo que Jörgen e a família vivem de forma modesta, na ilha de Brännö, no arquipélago de Gotemburgo, mas ele e a mulher optaram por ficar mais tempo em casa com os dois filhos, Durante dois anos, beneficiaram de um subsídio parental, mas, com um só salário, apertar o cinto não bastava e tiveram de pedir um pequeno empréstimo para se manterem durante os três anos suplementares.

“Claro que não é muito agradável fazer um empréstimo para as despesas correntes. Em geral, não é para isso que servem os empréstimos. Mas, ao mesmo tempo, não constitui realmente um problema. Quando voltarmos os dois a trabalhar, não teremos qualquer dificuldade em pagar os juros”, diz Jörgen Larsson.

“Aqui na Suécia, há pequenos núcleos de adeptos do decrescimento. Mas isso depende, evidentemente, da definição que se dá ao termo. Num certo sentido, pode-se dizer que toda a Suécia está em decrescimento. Beneficiamos de um sistema de licença parental desenvolvido, do direito inscrito na lei de reduzir o horário de trabalho quando os filhos são pequenos (…).”

Anna Lagerblad

in Courrier Internacional, Fevereiro de 2008

27.02.2008

 

 

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