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A hesitação de José Mestre

«Nós Gregos caímos em dias ominosos e
Julgamos que um sonho é a vida.
Ou seremos nós os mortos e
Aparentamos viver, ou
Estaremos vivos depois
De a própria vida ter partido?»

Páladas, séc. IV d.C.

 

Na primeira página do Diário de Notícias, 20 de Dezembro de 2007, esta notícia:

«Homem elefante hesita na operação.
José Mestre está indeciso. Aos 51 anos, o homem de rosto deformado, que os lisboetas se habituaram a ver sentado pelos cantos no Rossio, recebeu uma proposta de um cirurgião inglês que quer operá-lo, prometendo libertá-lo do angioma que desde miúdo lhe invadiu a cara. Mais do que lhe restituir uma face, a operação permitirá a José melhorar a sua qualidade de vida, uma vez que poderá respirar convenientemente, falar, comer e ver. Ainda assim, José, testemunha de Jeová e homem de poucos recursos, habituado a passar os seus dias a ver quem passa junto ao Café Nicola, tem dúvidas e tem medo.

Tudo começou em Julho, quando José Mestre viajou a Londres a convite do canal de televisão Discovery, que realizou um documentário sobre ele. O programa, intitulado The Man With No Face, foi para o ar no passado dia 6, e, em vez de se limitar a contar a história de José, esforçou-se por encontrar uma solução para o seu caso. O canal contactou dois médicos famosos, Iain Hutchison, do Hospital St. Batholomew, e Loshan Kangesu, do Hospital Broomfield, e quis ouvir as suas opiniões.

Assim que viu José, Hutchison não hesitou em propor-lhe uma cirurgia inovadora e completamente à borla. "Não cobro muitas das cirurgias que faço. Eu já recebo o meu ordenado do Estado e posso dizer que não sou pobre, não ganho tanto quanto um jogador de futebol, mas ganho bem. E não há nada melhor do que curar uma pessoa. Poder ajudar os pacientes nesta situação é algo maravilhoso", conta o cirurgião numa conversa telefónica com o DN.

Para que a cirurgia se concretize, basta que José Mestre aceite e que arranje um patrocinador (público ou privado) que pague as viagens e o internamento.

José ainda não decidiu. E o médico, experiente, não consegue censurá-lo. "Ele está cansado e apreensivo. Não tem tido uma vida fácil. Já foi visto por outros médicos e passou por outros tratamentos que não resultaram. Porque é que há-de acreditar?" Além disso, existe um lado psicológico que não pode ser menorizado. Porque o rosto de cada um faz parte da sua personalidade e José Mestre viveu praticamente toda a sua vida com a cara deformada, cada vez mais deformada. Como reagirá a um rosto completamente novo (e que não terá nada a ver com a memória de si mesmo quando era adolescente)? O cirurgião acredita que José necessitará de ajuda psicológica, mas que será muito mais feliz sem a doença. "Até por motivos funcionais." José quase não consegue respirar, fala e come com dificuldade, só consegue ver de um olho. Em breve começará a sofrer de outras doenças associadas a esta condição.

"Já operei muitos outros pacientes com este problema, mas nunca tinha visto nenhuma lesão assim tão grande", confessa o médico, um dos maiores especialistas ingleses em cirurgia facial e fundador da Saving Faces, uma fundação que reúne 500 cirurgiões de todo o país com o objectivo de estimular a investigação nesta área.

"Mesmo que o José não faça a operação, já ganhou alguma coisa: ele, que nunca tinha saído do país, veio a Londres de comboio e voltou para Lisboa de avião. Foi uma aventura.” Maria João Caetano»

Entretanto, nós, nós que todas as manhãs afectuosamente nos revemos em qualquer espelho, conseguimos viver um, dois, três,..., uma vida inteira, ao lado deste homem. Este homem que para nós existe apenas como figura geométrica. De vez em quando, conseguimos até articular umas belas frases sobre a importância do Progresso, da Festa da Família e do Estado Democrático.

Mário Cesariny já falou disto, uma vez:

Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para, o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente-gente! olhos, narinas, bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas, varinas, caixeiros desempregados
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos
mictórios para apanhar eléctricos ,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico, em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua.

E agora, neste momento – que horas são? –
a telefonista guarda o baton na mala pousa os auscultadores liga electricamente Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou
um bocado na família
e começou o dia
a varina infectou a perna esquerda nos lixos da Ribeira
e começou o dia
o desempregado ergueu-se, viu chuva na vidraça, e imaginou-se banqueiro
para começar o dia
e o presidiário, ouvindo a sineta das nove,
começou o seu dia sem dar início a coisa alguma.

Agora fumo, trepidação,
correias volantes de um a outro extremo da fábrica isolada,
cigarros meio fumados em cinzeiros de prata,
bater de portas – pás! – em muitas repartições,
uma velha a morrer silenciosamente em plena rua
e um detido a apanhar porrada embora acreditem nele.
Agora pranto e pranto
na bata da manucure apetitosa do salão Azul.
Agora, regressão, milhões de anos para trás,
patas em vez de mãos, beiços em vez de lábios,
crocodilos a rir em corredores bancários
apesar das mulheres terem varrido muito bem o chão.
Agora tudo isto e nada disto
em plena e indecorosa licenciosidade comercial
pregando partidas, coçando, arruinando, retorcendo o facto
...atrás dos vidros
– um tiro nos miolos e muito obrigado, sempre às ordens!
(a velha já morreu e no seu leito de morte
está agora um automóvel verdadeiramente aerodinâmico
e a tocar telefonia: and you , and you my darlyng ?)
Há uma hora, Isto! Há duas, ISTO!
E eu?
Eu, nada. Eu, eu, é claro...

Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
E vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é esta: a gente – certa gente – sai para
a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar –
vêem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou
inteiramente o gato
mas de gato para cima – nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São criaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e ás vezes boa
mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento hipócritas.

E o certo é que ainda têm rapazes de Arte, gente
que pôs a alegria a pedir esmola e nessa mesma noite foi
comprar para o cinema
porque há que ir ao cinema, êle é por força, é por amor de
Deus, ah, não! não! isso não!, não se atravessem nesta
bilheteira!!
Vamos estar tão bem! Vai tudo ser Tão Bonito!
Ah, e quem é que vê o logro? A quem é que isto cheira a ranço?
Porque é que a freguesa de Panos Limitada não exige três
quartas de cinema
e sim três quartas partes de lã carneira?
Porque é que a pianista compra do Alves Redol
Quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã
yankee?
E porque raio despede o senhor Director três humílimos
empregados
quando a verdade é que já lá vão três meses e ainda não viu um que lhe enchesse as medidas?

Com certa espécie de solidariedade
1embro-me de ti, Mário de Sá-Carneiro,
Poeta-gato-branco à janela de muitos prédios altos
Lembro-me de ti, ora pois, para saudar-te,
para dizer bravo e bravo, isso mesmo, tal qual!
Fizeste bem, viva Mário!, antes a morte que isto,
viva Mário a laçar um golpe de asa e a estatelar-se todo cá em baixo
(viva, principalmente, o que não chegaste a saber, mas isso é já outra história...)

E com uma solidariedade muito mais viva
lembro-me de ti, meu vizinho de baixo,
sapateiro-gato-branco, mas no rés-do-chão, desta vez...
É curioso que não te possas suicidar
só porque a tua janela está ao nível do mundo
e que cantes alegremente de manhã à noite
com uma casa de seis andares em encima de ti.
Também tu foste empurrado, também te disseram: Fora,
gato!
Mas achaste isso quase natural (e não o é, deveras?)
E agora, guardando em ti todas as tuas grandes qualidades
vais vivendo um pouco à margem, um pouco no quinto
andar...

Deito fora o cigarro que já me sabia a amargo
e decido-me a andar – mas para quê ? Mas para onde ?
As lojas estão abertas mas nunca se viu coisa tão fechada
Ah! heróis do trabalho, que coisas raras fazeis!
Não sou um proletário – vê-se logo
– mas odeio cordialmente a gataria
e quanto a crocodilos, nem os do Jardim Zoológico me atraem
quanto mais estes! – E aqui é que começa o embróglio...

O pouco amor que eu tive à burguesia
deixei-o todo numa casa de passe
quando me perguntaram: quer assim ? Ou assim ?
E agora, era fatal, falto ao escritório,
falto ao escritório, pontualmente, todas as manhãs.
Mas vejamos, ó minha alma, se podes, arrumemos
um pouco a casa escura que te deram.
Eu estudei música, como toda a gente

(ou talvez um pouco mais do que toda a gente?)

Não. Por aqui não nos entenderemos.
Estudemos outro papel. Outro fim. Outras músicas.

Recomecemos: Um:
Estes versos não querem de modo algum ser versos
porque quem hoje em Portugal quer de algum modo fazer
versos versos
está em muito maus lençóis

(este o primeiro artigo da minha constituição)
Segundo:
Apesar de tudo, saí para a rua com bastante naturalidade
e que vi eu? Que é isto? (E que esperava eu ver?)

Terceiro:
(e aqui começa, talvez, o desembróglio)
vi também um vapor que ia para o Barreiro
e tive pena de não ir com ele
mas não sou um proletário (não, ainda não)
e atravessar a nado – quem é que disse que pode?

Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático de proletário dos mares
e apinhado de gente – tanta espécie dela!
Depois a meio do rio, destacado e nítido,
depois um ponto vago no horizonte (ó minha angústia ! )
ponto cada vez mais vago no horizonte

e de repente, ao virar uma esquina, já depois de outra esquina,
vejo uma nova espécie de enforcado
um homem novo em cima de um escadote
a colar afixar cartazes deste gênero:

VOTA POR SALAZAR

Páro. Páro de novo. Pararei sempre enquanto
afixarem cartazes deste género.
Curioso, curiosíssimo este gênero.
Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.
Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que importa.
Um chefe é grande pelas suas obras, pelo amor que inspira.
Pois os fascistas os nossos bons fascistas
querem que a gente vote por um nome
por um nome calcula essa coisa qualquer que qualquer fulano
tem!
Vota por Salazar ora pois ó meu povo
vota por sete letras muito bem arrumadas em três sílabas.

Deito a cabeça para trás para deixar sair a gargalhada
e aproximo-me do homem em cima do escadote
aproximo-me tanto que ele nota
alguém que se aproxima
e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Dá os bons dias a êste irmão, a êste bom irmão
que anda a colar cartazes para não morrer de fome!...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

mmb

© SNPC - Publicado em 26.12.2007

 

 

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